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Andre Luiz Souza is a third-year graduate student of Psychology at the University of Texas at Austin. He writes about Cognitive Psychology and Linguistics. He writes in Brazilian Portuguese
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by Andre Souza in ***Cognando***
Ser adolescente tem suas vantagens! Uma delas é o início da vida sexual. Para um adolescente, não tem nada melhor do que fazer sexo! E é tão bom que uma das coisas que observamos atualmente é que os adolescentes começam cada vez mais cedo a ter uma vida sexual ativa. Antigamente, ser virgem com 19 [...]... Read more »
K. Paige Harden. (2012) True Love Waits? A Sibling Comparison Study of Age at First Sexual Intercourse and Romantic Relationship in Young Adulthood. Psychological Science. info:/
by Andre Souza in ***Cognando***
Ontem eu estava conversando com uma amiga via bate-papo do Gmail quando ela me fez a seguinte pergunta: “André, você ainda escreve, assim, com lápis/caneta e papel?” Fiz cara de what??, mas logo entendi o que ela quis dizer. Na verdade, quase não escrevo mais. A maior parte da minha produção lingüística é, sem dúvidas, [...]... Read more »
Jasmin, K., & Casasanto, D. (2012) The QWERTY Effect: How typing shapes the meanings of words. Psychonomic Bulletin . DOI: 10.3758/s13423-012-0229-7
by Andre Souza in ***Cognando***
Estima-se hoje que mais de 840 milhões de pessoas no mundo tenham uma conta ativa na rede social Facebook. Desse tanto de gente, mais de 50% posta pelo menos um status update por dia. Sem dúvidas, o Facebook é o site #1 em procrastinação (se bem que YouTube e 9GAG são competidores à altura). Muita gente [...]... Read more »
Forest, A., & Wood, J. (2012) When Social Networking Is Not Working: Individuals With Low Self-Esteem Recognize but Do Not Reap the Benefits of Self-Disclosure on Facebook. Psychological Science, 23(3), 295-302. DOI: 10.1177/0956797611429709
by Andre Souza in ***Cognando***
Todo semestre, eu leciono a disciplina obrigatória Estatística e Métodos Experimental para os alunos de graduação em Psicologia na Universidade do Texas. Como sempre, essa é a disciplina mais odiada pelos alunos: eles precisam não só aprender estatística, como precisam também aprender a escrever sobre os resultados dos experimentos que eles fazem. Apesar de todo mundo [...]... Read more »
Oppenheimer, D. (2006) Consequences of erudite vernacular utilized irrespective of necessity: problems with using long words needlessly. Applied Cognitive Psychology, 20(2), 139-156. DOI: 10.1002/acp.1178
by Andre Souza in ***Cognando***
Profissionais de marketing lidam o tempo todo com o comportamento e a cognição humana. Uma campanha publicitária de cerveja, por exemplo, tem como objetivo influenciar o sua decisão na hora de comprar uma cerveja. Ou seja, é uma tentativa direta de manipular sua cognição e o comportamento subsequente a ela. E todo mundo deve concordar [...]... Read more »
Shiv, B., Carmon, Z., & Ariely, D. (2005) Placebo Effects of Marketing Actions: Consumers May Get What They Pay For. SSRN Electronic Journal. DOI: 10.2139/ssrn.707541
by Andre Souza in ***Cognando***
Em 2011, a Universidade do Texas ficou no Top 20 no ranking das universidades americanas com as estudantes mais bonitas dos Estados Unidos. Um amigo meu logo me enviou um email dizendo: “ganhou na loto aí, hein negão!“. Infelizmente não! Quando o assunto é beleza, namoro e escolha de parceiros, o buraco cognitivo é mais [...]... Read more »
Lee L, Loewenstein G, Ariely D, Hong J, & Young J. (2008) If I'm not hot, are you hot or not? Physical attractiveness evaluations and dating preferences as a function of one's own attractiveness. Psychological science, 19(7), 669-77. PMID: 18727782
by Andre Souza in ***Cognando***
Tenho uma amiga que cursa Letras na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Semana passada, conversando com ela sobre disciplinas optativas (aquelas que não fazem parte da grade curricular do curso de Letras), sugeri a ela que fizesse alguma disciplina no curso de Psicologia da UFMG. Para ser mais exato, sugeri a ela que cursasse a disciplina de Introdução à Estatística -- disciplina historicamente oferecida no departamento de Psicologia. Como procedimento lógico, decidimos verificar o quadro de oferta de disciplinas no curso de Psicologia para o próximo semestre letivo. Foi então que começamos a "passar raiva": entramos na página do curso de Psicologia com a esperança de encontrar um link para o tal quadro. Nada. A página do departamento, além de ser visualmente horrível e de difícil navegação -- pouco intuitiva -- está extremamente desatualizada. Para se ter uma idéia, depois de muito procurar, encontramos uma ementa da disciplina de estatística ofertada em 1984. Isso mesmo: uma ementa de 27 anos atrás (e se eu não estou enganado, essa é a mais atual).
Minha amiga logo desistiu. Eu não. Decidi ligar para o departamento. Obviamente, passei mais raiva: a pessoa que atendeu o telefone (não me lembro o nome do rapaz) parecia nem saber o que é matrícula, disciplina, etc:
rapaz: essas coisa assim de matrícula, aula, etc não é aqui não. Liga no colegiado.
eu: Ah, ok! Você pode me informar o telefone de lá?
[Antes que eu terminasse de falar a palavra "telefone", ele já tinha desligado o dele]
Encontrei o telefone do colegiado. Liguei e fui atendido pela Magna. Corrigindo: liguei e fui mal-atendido pela Magna. Com um "bom-humor" invejável, Magna disse que não era possível saber oferta de disciplinas se eu não fosse aluno do curso de Psicologia. Disse que se eu quisesse, que eu fosse lá no colegiado e solicitasse uma cópia da lista de disciplinas. Super século XV:
Magna: Pode ser que você consiga assim.
[Antes que eu explicasse que essa opção não seria muito viável para pessoas que não moram no Brasil -- ou em Belo Horizonte -- Magna desligou o telefone]
Enfim, foram mais de 40 minutos e nada (até hoje não sei a oferta de disciplinas para o curso de Psicologia). Evidentemente fiquei com muita raiva! E agir com raiva não é bom. Acabei gastando de 20 a 30 minutos do meu tempo tweetando sobre o incidente e divulgando mensagens de "raiva" no meu perfil do Google+.
Tomar decisões quando se está com raiva não é bom. Existe bastante pesquisa em Psicologia Cognitiva mostrando que nossas emoções afetam diretamente (e muitas vezes de maneira implícita) as nossas decisões e nossas ações. No entanto, muitas dessas "emoções" vêm e vão muito rapidamente. Sem contar casos altamente traumáticos, muitos de nós ficamos com raiva de algo por um período curto de tempo. Depois de algumas horas ou mesmo minutos, já não sentimos mais nada. Mas será que nossas emoções (raiva, alegria, tristeza, etc.) são capazes de influenciar nossas decisões, mesmo depois que elas se dissipam? Em outras palavras, mesmo depois que a raiva passa, será que o que decidimos quando estávamos com raiva tem alguma influência nas nossas decisões futuras? E quais as consequências disso?
Essas perguntas foram investigadas pelos professores Eduardo Andrade, do departamento de Marketing da Haas School of Business na Universidade da Califórnia em Berkeley e Dan Ariely da Universidade de Harvard. Eles pediram a um grupo de alunos que participassem de uma série de Ultimatum Games. Esse jogo é uma espécie de "experimento" de economia e envolve a divisão de uma quantia em dinheiro. No jogo, há dois participantes: um que propõe uma divisão da quantia e um que aceita (ou não) a divisão. Se a divisão é aceita, cada participante leva a quantia proposta. Se a divisão não é aceita, ninguém leva nada. Exemplo: imagine que eu esteja jogando o Ultimatum Game com o Dan Ariely. Como proponente, a minha função é dividir R$10 entre eu e ele. Eu posso propor qualquer divisão que eu quiser (e.g. R$6 para mim e R$4 para o Dan, ou R$9 para mim e R$1 para o Dan). Assim que eu faço a proposta, o Dan tem a oportunidade de aceitar ou não. Se ele aceita, cada um recebe a quantia que eu propus. Se ele nega, eu não ganho nada e ele também não. Geralmente, as pessoas tendem a ser justas (R$5 para cada).
No estudo de Eduardo e Dan, eles encontraram que pessoas com raiva tendem a negar propostas injustas (e.g. R$7,50 para o proponente) com mais frequência do que as pessoas sem raiva ou felizes. Em outras palavras, se você está com raiva e alguém te oferece apenas R$2,50 no Ultimatum Game, você tende a negar a oferta, de maneira que ninguém ganha nada. Mas será que mesmo depois que a raiva passa, essa sua decisão de negar a proposta influencia decisões futuras? No mesmo estudo, depois que a raiva passou, os participantes jogaram o Ultimatum Game novamente, mas dessa vez como proponentes, ou seja, dessa vez eles que propuseram a divisão. O resultado foi que a oferta dos participantes que estavam com raiva antes foi mais "justa"(e.g., R$5 para cada um) do que a oferta dos participantes que estavam felizes antes.
Mas porque isso aconteceu? E o que isso tem a ver com nossas decisões quando estamos com raiva? Nós seres humanos temos uma tendência a agir e tomar decisões que sejam consistentes com nossas com nossas ações e decisões anteriores. Por exemplo, se em uma segunda-feira alguém te convence a usar uma blusa azul -- mesmo que você não goste muito de azul -- a possibilidade de que você seja convencido, na sexta-feira, a usar uma calça azul é muito maior. Isso ocorre pois, implicitamente, você está tentando ter um comportamento consistente. Em outras palavras, quando estamos com raiva e tomamos uma decisão, para manter um comportamento consistente, nossas decisões futuras serão influenciadas pela decisão que tomamos quando estávamos com raiva. No exemplo do experimento, as pessoas que estavam com raiva e negaram a oferta injusta -- mostrando que apreciam uma oferta "justa"-- quando tiveram a chance de propor a divisão, propuseram uma divisão justa, pois essa decisão é consistente com a decisão anterior (quando eles estavam com raiva). Já as pessoas felizes que aceitaram mais propostas injustas no primeiro jogo, também mantiveram a consistência e propuseram divisões mais injustas no segundo jogo.
Basicamente o estudo sugere que nossas emoções influenciam nossas decisões mesmo depois que elas, as emoções, não estão mais presentes. Por isso, é importante evitar tomar decisões quando estamos com muita raiva, ou muito felizes, ou muito tristes, etc, pois, mesmo depois que essas emoções passam, a nossa tendência em ser consistente nos forçará a agir de maneira particular. Pensar bem antes de tomar qualquer decisão é sempre bom.
O Cognando está com algumas novidades para 2012. Para ficar por dentro dessas novidades, fiquem ligados no Cognando pelo Twitter, pelo Facebook e/ou pelo Google+.
O Cognando deseja um 2012 feliz e produtivo para todos.
Referência:
Andrade, E., & Ariely, D. (2009). The enduring impact of transient emotions on decision making Organizational Behavior and Human Decision Processes, 109 (1), 1-8 DOI: 10.1016/j.obhdp.2009.02.003
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Andrade, E., & Ariely, D. (2009) The enduring impact of transient emotions on decision making. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 109(1), 1-8. DOI: 10.1016/j.obhdp.2009.02.003
by Andre Souza in ***Cognando***
Sou super fã de Rubem Alves. Um dos livros de Rubem Alves que mais gosto é um chamado "Perguntaram-me se acredito em Deus". Eu acho essa pergunta fantástica. Primeiro por que é uma pergunta esquisita (quem me conhece sabe que gosto de coisas esquisitas). Segundo, por que todo mundo gosta de fazer essa pergunta para psicólogos (ainda quero descobrir o porquê...). Um dia desses, conversando com uma psicóloga -- só pra sacanear -- perguntei à ela se ela acreditava em Deus. Ela disse que sim. Óbvio que perguntei: porque? E eis que ela respondeu: "ah... sei lá! É intuitivo. Automático."
Hmmmm. De um ponto de vista cognitivo, existem pelo menos dois estilos de processamento mental que utilizamos no processo de tomada de decisões: intuição e reflexão. Intuição geralmente é baseado em processos automáticos e que não requer muito esforço cognitivo. Reflexão, pelo contrário, envolve uma análise crítica da situação e consequentemente um maior esforço cognitivo.
Algumas pessoas são naturalmente mais intuitivas que outras. Eu mesmo tenho uma amiga que diz que toda vez que ela precisa tomar uma decisão importante ela simplesmente "segue a intuição e seja o que Deus quiser". Essa conexão entre processamento intuitivo e crença em Deus é bem interessante. E não é algo novo. Várias pesquisas em psicologia cognitiva afirmam que a crença em Deus é um produto natural da nossa cognição e que, consequentemente, ocorre de maneira intuitiva. Uma pergunta óbvia que segue esse tipo de afirmação é: será então que pessoas naturalmente intuitivas tendem a acreditar mais em Deus?
Uma pesquisa recente publicada no Journal of Experimental Psychology buscou responder exatamente essa pergunta. Amitai Shenav, David Rand e Joshua Greene, todos pesquisadores da Universidade de Harvard nos Estados Unidos, mediram o "estilo cognitivo" de várias pessoas, utilizando uma tarefa conhecida como CRT (Cognitive Reflection Test). Nessa tarefa, os participantes precisam responder à várias perguntas que têm respostas que parecem "intuitivamante" corretas, mas que "reflexivamente" são incorretas. Por exemplo: "uma meia e uma chuteira de futebol custam um total de R$ 1,10. A chuteira custa R$ 1,00 a mais que a meia. Quanto custa a meia?" Apesar da resposta mais intuitiva ser "a meia custa R$ 0,10", a resposta correta é "a meia custa "R$ 0,05". Os participantes que escolhem a resposta mais intuitiva são considerados pesssoas que têm uma tendência maior à esse estilo cognitivo. Além do CRT, os participantes da pesquisa também responderam a um questionário sobre a crença em Deus, e outras informações demográficas, tais como nível de escolaridade, partido político, renda mensal, etc.
Os pesquisadores encontraram que o estilo cognitivo (intuitivo ou reflexivo) prediz significativamente a crença em Deus -- independentemente das outras variáveis demográficas. Em outras palavras, as pessoas mais intuitivas tem uma tendência maior a acreditarem em Deus. Como ainda existe muita gente que acredita na idéia de que apenas pessoas "pouco" inteligentes acreditam em Deus, os pesquisadores, em um outro estudo, mediram o nível de inteligência dos participantes (além do estilo cognitivo) e não encontraram nenhuma relação entre inteligência e crença em Deus, ou seja, a crença em Deus não está ligada à inteligência, e sim, ao estilo cognitivo: inteligente ou não, se você é uma pessoa intuitiva, as chances de que você acredite em Deus são maiores.
O resultado dessa pesquisa está diretamente relacionado com várias outras pesquisas que mostram que a "falta de controle cognitivo" é um dos motivos que levam as pessoas a acreditarem em Deus, ou em qualquer outra entidade sobrenatural que controla os acontecimentos do nosso dia-a-dia. Quando tomamos uma decisão com base na nossa intuição e o resultado dessa decisão é positivo, temos uma tendência muito maior a atribuir o resultado à alguma força além do nosso controle. Por outro lado, se refletimos cuidadosamente para decidir alguma coisa e o resultado é positivo, a tendência natural é de atribuir o sucesso da decisão ao processo análitico e não ao acaso, ou à alguma força sobrenatural. O mais interessante é ver mais um indício de que nossa cognição está intimamente relacionada com as crenças que formamos ao longo da nossa experiência! :)
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Referência:
Shenhav, A., Rand, D., & Greene, J. (2011). Divine intuition: Cognitive style influences belief in God. Journal of Experimental Psychology: General DOI: 10.1037/a0025391
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Shenhav, A., Rand, D., & Greene, J. (2011) Divine intuition: Cognitive style influences belief in God. Journal of Experimental Psychology: General. DOI: 10.1037/a0025391
by Andre Souza in ***Cognando***
Sabe aquele sábado a noite que você não está com vontade de ficar em casa, mas não tem programa algum? E então acaba indo à festa do amigo do primo do vizinho?! Então. Ontem foi um desses sábados para mim. Para ser bem honesto, eu adoro esse tipo de festa. Elas são ótimas para fazer novas amizades, uma vez que geralmente eu não conheço 95% das pessoas que estão na festa. E obviamente, adoro observar o comportamento alheio (yes, creepy, I know... oh well). Essas festas são ótimas pra isso! :-)
Como eu moro em uma cidade universitária, a probabilidade de qualquer festa envolver estudantes de graduação e bebida alcoólica é super alta. E com duas horas de festa, a probabilidade de se encontrar um estudante de graduação bêbado é quase 90%. Infelizmente (felizmente para algumas pessoas), tomamos péssimas decisões quando estamos bêbados. Falamos coisas que não queremos falar, fazemos coisas que não queremos fazer e criamos situações que não queremos criar. Existem várias pesquisas mostrando que tomada de decisão com estado alterado de consciência (bêbado, por exemplo) quase sempre envolve uma recompensa imediata (i.e., você fica com o cara ou com a menina que você quer), mas a longo prazo, envolve consequências ruins (i.e., envolvimento emocional desnecessário e indesejável, baixa auto-estima, etc).
Mas por que tomamos decisões ruins quando bebemos? Uma pesquisa recente, desenvolvida por Patrick Quinn e Kim Fromme, ambos do departamento de Psicologia da Universidade do Texas mostrou que existe uma correlação muito alta entre a capacidade que temos de auto-regulação -- capacidade de controlar nossos impulsos, emoções e desejos -- e comportamento alcoólico de risco. A correlação é obviamente negativa: quanto maior sua capacidade de auto-regulação menor é a chance de você se envolver em comportamentos alcoólicos de risco. No entanto, várias outras pesquisas mostram que mesmo as pessoas que têm um alto poder de auto-regulação, quando bebem, apresentam uma queda nessa habilidade e acabam tomando decisões impulsivas e que buscam uma recompensa imediata.
Em geral, quase 70% dos estudantes de graduação nos grandes centros universitários tem uma vida sexual ativa. A grande maioria desses estudantes se engajam frequentemente em sexo casual, com parceiros que encontraram apenas uma vez e que não pretendem manter nenhum vínculo emocional a longo prazo. Qual o problema disso? Bom, além do problema óbvio do risco de contração de doenças sexualmente transmissíveis, há um risco, menos óbvio, quem tem a ver com o bem estar psicológico do indivíduo. Várias pesquisas mostram que uma vida sexual saudável traz grandes benefícios psicológicos a longo prazo.
Uma pesquisa recente desenvolvida por Matthew Gailliot e Roy Baumeister, ambos da Universidade Estadual da Flórida, mostrou que quando a nossa capacidade de auto-regulação é "atrapalhada"(via bebida alcoólica ou qualquer outro mecanismo) temos uma tendência maior em manter relações sexuais sem restrições (i.e., não escolhemos bem os parceiros, engajamos em sexo sem proteção e temos muitos parceiros sexuais em um espaço curto de tempo). Uma vez que baixa auto-regulação tem um foco em recompensas imediatas, não vemos as consequências que esse tipo de comportamento traz a longo prazo. Por exemplo, algumas pesquisas têm mostrado resultados robustos relacionando condutas sexuais atípicas e vários outros problemas, tipo: uso excessivo de drogas, transtornos alimentares, depressão ou baixa-estima excessiva. Não há, obviamente, uma relação de causa-e-efeito, mas é importante saber que essas coisas estão intimamente relacionadas.
No final das contas, é importante também conhecer um pouco mais das consequências psicológicas que uma vida sexual "desregrada" pode ocasionar. Apesar da clara recompensa imediata que ela traz (ninguém está negando que fazer sexo seja bom e prazeroso), uma vida sexual ativa e saudável envolve muito mais que simplesmente "sentir tesão". Pode ser uma boa idéia conhecer outros aspectos da vida dos nossos parceiros sexuais, mesmo que sejam apenas "fuck buddies". Sempre há algo de interessante para se descobrir -- algo além do que se descobre na cama! :-)
A dica que fica é: evite tomar decisões quando estiver bêbado! Em outras palavras, se beber, não decida!
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Referência:
Gailliot, M., & Baumeister, R. (2007). Self-Regulation and Sexual Restraint: Dispositionally and Temporarily Poor Self-Regulatory Abilities Contribute to Failures at Restraining Sexual Behavior Personality and Social Psychology Bulletin, 33 (2), 173-186 DOI: 10.1177/0146167206293472
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Gailliot, M., & Baumeister, R. (2007) Self-Regulation and Sexual Restraint: Dispositionally and Temporarily Poor Self-Regulatory Abilities Contribute to Failures at Restraining Sexual Behavior. Personality and Social Psychology Bulletin, 33(2), 173-186. DOI: 10.1177/0146167206293472
by Andre Souza in ***Cognando***
Aristóteles disse certa vez que a "felicidade é o propósito mais importante na vida de um ser humano". Não é à toa que a maioria das pessoas vivem em busca da tal "fórmula da felicidade". E para falar a verdade, essa é uma busca que vale a pena. Várias pesquisas ao longos dos anos têm mostrado os benefícios -- físicos e psicológicos -- de "ser feliz". Por exemplo, algumas pesquisas mostram que pessoas felizes são mais saudáveis, mais produtivas e têm salários maiores.
Apesar de já estar bem claro que são vários os fatores que influenciam o nível de felicidade de uma pessoa, a idéia de que existe um componente genético que contribui para a nossa felicidade -- e para a caracterização de vários outros traços da nossa personalidade -- está cada vez mais predominante. Pesquisas com gêmeos idênticos, por exemplo, mostram que quase 33% da variação no nível de felicidade das pessoas pode ser explicada por fatores genéticos.
Apesar desses resultados, a pergunta que ainda continua sem resposta é: qual seria o gene responsável por essa variação no nosso nível de felicidade? Jan-Emmanuel De Neve -- pesquisador do Departamento de Governo da Escola de Economia e Ciência Política do University College em Londres -- e alguns outros pesquisadores lideraram uma pesquisa recente para tentar responder a essa pergunta. Esses pesquisadores resolveram investigar um gene conhecido como 5-HTT (mais especificamente 5-HTTLPR). Esse gene, localizado no cromossomo 17, é responsável pela codificação da proteína responsável pelo transporte de serotonina no nosso cérebro.
Mas afinal de contas, o que é essa serotonina? Serotonina é um neurotransmissor muito importante na regulação do nosso humor e emoções. As pessoas que me conhecem e que convivem comigo, por exemplo, sabem que eu sou, o que eles chamam aqui nos Estados Unidos de moody: em bom e claro português, eu tenho constantes oscilações de humor. Essas oscilações de humor estão diretamente ligadas ao funcionamento (quantidade e transporte) da serotonina na região límbica do cérebro (a região responsável pelo controle das emoções e do humor). Uma vez que esse neurotransmissor é tão importante na regulação das emoções e humor, os pesquisadores apostaram na idéia de que qualquer gene diretamente relacionado ao funcionamento desses neurotransmissores deveria ser o gene responsável pela oscilação no nosso nível de felicidade.
Se você se lembra das suas aulas de introdução à genética, você deve se lembrar que nós temos duas versões de um mesmo gene (o que chamamos de alelos). E esses alelos podem ser curtos ou longos. Algumas pessoas têm dois alelos longos. Outras dois alelos curtos e outras um de cada. Sem entrar em muitos detalhes sobre polimorfismo funcional, a idéia básica é que algumas pessoas têm o 5-HTT longo e outras têm o 5-HTT curto. A versão longa produz mais transportadores de serotonina e consequentemente são chamados eficientes. A versão curta, em contrapartida, produz menos transportadores e é considerada menos eficiente.
Em um estudo com mais de 2.400 pessoas, Jan-Emmanuel e sua equipe mostraram que existem uma correlação alta e significativa entre o nível de felicidade das pessoas e o tipo de gene que elas possuem. Em outras palavras, eles encontraram que as pessoas que têm a versão mais eficiente do gente 5-HTT são em geral mais felizes e satisfeitas. Essa correlação significativa é um dos primeiros passos na tentativa de estabelecer a natureza da contribuição genética para o nosso nível de felicidade.
É importante ter cuidado ao interpretar os resultados. Geralmente as pessoas (a mídia mais precisamente) tende a interpretar esses resultados como determinísticos, ou seja, o gene 5-HTT curto determina que a pessoa será pouco feliz, ao passo que o gene 5-HTT longo determina que a pessoa será feliz. Essa é uma interpretação errada desses resultados. Os fatores externos tais como empregabilidade, amizades, bom relacionamentos, etc., sempre irão contribuir de maneira significativa para a manutenção de um nível de felicidade satisfatório. Entender a relação entre esses fatores externos e os fatores genéticos é fundamental. E mais fundamental ainda é conseguir criar e manter um ambiente que contribui ainda mais para a sua felicidade.
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Referência:
De Neve JE (2011). Functional polymorphism (5-HTTLPR) in the serotonin transporter gene is associated with subjective well-being: evidence from a US nationally representative sample. Journal of human genetics, 56 (6), 456-9 PMID: 21562513
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De Neve JE. (2011) Functional polymorphism (5-HTTLPR) in the serotonin transporter gene is associated with subjective well-being: evidence from a US nationally representative sample. Journal of human genetics, 56(6), 456-9. PMID: 21562513
by Andre Souza in ***Cognando***
Em 2003, ainda quando eu era aluno de graduação, eu ajudei uma amiga minha, Débora H. Souza -- hoje professora no Departamento de Psicologia da Federal de São Carlos -- a coletar os dados para a pesquisa de doutoramento dela. Foi uma pesquisa bem interessante. Sem entrar em muitos detalhes (posso falar da pesquisa dela em uma outra postagem), basicamente, ela estava interessada na aquisição dos conceitos (estados mentais) descritos pelos verbos ingleses think e know. Em português, o verbo think pode ser traduzido por dois verbos: "pensar" (I'm thinking right now) ou "achar/não ter certeza" (I think I'll come back later). O mesmo ocorre com o verbo know: pode ser traduzido como "conhecer" (I know that guy) ou "saber/ter certeza" (I know what's inside the box). Em termos bem gerais, a Débora estava interessada em saber como se dá a aquisição desses termos em crianças brasileiras e americanas.
Semana passada, durante uma "faxina" no nosso laboratório, eu encontrei, além de uma caixa de disquetes de instalação do SPSS (old stuff), um CD com os vídeos utilizados pela Débora para a coleta dos dados dela. Nos vídeos, dois garotos interagiam em uma conversa onde eles utilizavam pseudo-verbos (verbos que não existem) para descrever os estados mentais saber, conhecer, achar e pensar. Como a Débora coletou dados no Brasil e nos Estados Unidos, essas crianças tinham que interagir tanto em inglês quanto em português. Para esses garotos, isso não foi problema: eles falavam português e inglês perfeitamente. Eles eram bilingües. Mais especificamente, eles eram o que chamamos de bilingües simultâneos (aqueles que aprendem as duas línguas ao mesmo tempo).
Eu acho isso simplesmente fascinante. Acho fantástico a maneira como crianças expostas a mais de uma língua (duas, três, até quatro) conseguem aprender todas as línguas de maneira sistemática, sem esforço e se tornam competentes -- falantes nativos -- em todas línguas. Mas afinal de contas, onde isso começa? Existem muitas pesquisas mostrando que a preferência pela língua materna começa bem cedo, antes mesmo de nascermos. Isso mesmo. Várias pesquisas mostram que, com apenas algumas horas de vida, as bebês preferem escutar sons da língua materna do que sons de línguas estrangeiras. Mas será o que acontece quando existem duas ou mais línguas maternas? Será que bebês demonstram uma preferência específica?
Essa foi a pergunta que um grupo de pesquisadores do Canadá e da França tentaram responder. Krista Byers-Heinlein (Concordia University, Québec), Tracey Burns (Organization for Economic Development, França) e Janet Werker (University of British Columbia, BC) investigaram a língua de preferência de um grupo de bebês recém-nascidos (com no máximo 5 dias de vida) filhos de mães monolingües e bilingues (Inglês-Tagalog/Filipino). Mas afinal, como se mede preferência de bebês? Uma técnica bastante utilizada é a chamada "técnica de sucção". Os pesquisadores dão ao bebê uma chupeta especial que grava a pressão e a frequência com que o bebê "suga" a chupeta. Quanto maior a pressão e a frequência da sucção, maior o interesse do bebê no estímulo sendo apresentado (no caso dessa pesquisa, as línguas Inglês e Tagalog).
Os pesquisadores encontraram que os bebês filhos de mães monolingües mostraram uma preferência maior para o Inglês do que para o Tagalog. No entanto, os bebês filhos de mães bilingües não mostraram preferência maior por nenhuma das duas línguas, ou seja, as duas línguas tinham o mesmo grau de preferência. Eles ainda testaram a capacidade dos bebês de diferenciarem as duas línguas e encontraram que tanto os bebês bilingües quanto os bebês monlingües foram capazes de diferenciar entre as duas línguas. Esse resultado demonstra que apesar de não mostrarem nenhuma preferência, as crianças bilingües "sabiam" que se tratava de duas línguas diferentes.
Apesar de ser ainda um dos primeiros estudos sobre percepção lingüística de bebês bilingües, os resultados mostram que a experiência linguística pré-natal de alguma maneira já influência suas preferências. Ou seja, cuidado com o que fala com o seu bebê, ainda que ele esteja na sua barriga! :-)
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Referência:
Byers-Heinlein, K., Burns, T., & Werker, J. (2010). The Roots of Bilingualism in Newborns Psychological Science, 21 (3), 343-348 DOI: 10.1177/0956797609360758
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Byers-Heinlein, K., Burns, T., & Werker, J. (2010) The Roots of Bilingualism in Newborns. Psychological Science, 21(3), 343-348. DOI: 10.1177/0956797609360758
by Andre Souza in ***Cognando***
Certos amigos incomodam quando ficam muito tempo distantes da gente. Eu tenho uma amiga assim. Toda vez que ela fica mais de uma ou duas semanas sem falar comigo (geralmente via Skype), eu encho a paciência dela. Faço a maior pressão psicológica. Escrevo dizendo que ela não gosta mais de mim, que ela dá mais atenção aos outros amigos dela, que ela nunca tem tempo pra mim, e que nem se eu morresse ela sentiria minha falta. Dramático, não? Pois é. Ela também acha. Ela diz que eu sou muito dramático. Na verdade, para ser mais exato, ela diz que pessoas do signo de Peixes, em geral, são muito dramáticas. Pessoas de Peixes são dramáticas, depressivas, pegajosas e têm a síndrome da tempestade em copo d'água: todo problema é do tamanho do mundo.
Ainda nesse clima de zodíaco, recentemente, uma outra amiga postou o seguinte texto no mural do Facebook dela:
NUNCA acreditar em três pessoas: Sagitário, Áries e Peixes: Eles são egoístas e mesquinhos.
NUNCA perder três pessoas: Touro, Câncer e Capricórnio: São os amantes mais sinceros e verdadeiros.
NUNCA deixe três pessoas: Virgem, Libra e Escorpião: Eles podem manter segredos, amizade e eles podem ver suas lágrimas.
NUNCA rejeite três pessoas: Leão, Gêmeos e Aquário: Eles são verdadeiros e amigos honestos.
A coisa deu a maior polêmica. Pessoas do signo de Peixes, Áries e Sagitário se manifestaram. Outras não gostaram da manifestação e, como diz minha mãe: "foi o maior fuzuê" no Facebook. Eu achei super engraçado!
Dramas e fuzuês à parte, eu acho simplesmente fascinante o impacto que as crenças e os estereótipos disseminados pela astrologia ocidental (e oriental em certa medida) tem no dia-a-dia das pessoas. Utilizamos o horóscopo para entender certos comportamentos das pessoas (egoístas, mesquinhos, verdadeiros, etc.), para saber quem é a nossa cara-metade (Sagitário combina com Escorpião), para saber como será nosso dia, nosso ano, etc. A maioria dos jornais de grande circulação traz uma seção especialmente dedicada ao horóscopo. Mas é óbvio que meu fascínio vai muito além do impacto que isso causa nas pessoas. Eu gosto mesmo é de entender por que acreditamos nessas coisas. Por que cargas d'água acreditamos que a posição dos planetas no dia em que a gente nasce influencia nossa personalidade?
Já comentei aqui, em várias postagens do Cognando, que o nosso sistema cognitivo se perturba com qualquer tipo de falta de controle. Por exemplo, quando uma pessoa que você acha que conhece bem age de uma maneira inesperada, o seu sistema cognitivo começa a buscar as "causas" para entender essa ação inesperada. A sensação de não entender o porquê da atitude da pessoa é entendida pelo nosso sistema cognitivo como falta de controle. Outros exemplos de falta de controle cognitivo são: (1) quando não sabemos como vai ser nosso futuro, ou (2) quando não entendemos como lidar com a nossa situação presente para obter resultados desejáveis no futuro. Uma vez que nosso sistema cognitivo se "perturba" com a falta de controle, ela utiliza algumas estratégias que têm como principal função restabelecer o controle (ou pelo menos a sensação de controle).
Dentre as estratégias que o sistema cognitivo utiliza está a crença no sobrenatural ou em agentes sobrenaturais que controlam nossas atitudes e ações. Várias pesquisas têm mostrado que a religião, por exemplo, serve muito bem essa função (veja a postagem do dia 24/02/2011). Outro mecanismo que serve essa função é a crença nas previsões e características ditadas pelo horóscopo. Jennifer Whitson da Universidade do Texas em Austin, Cynthia Wang da Universidade Nacional de Singapura e Tanya Menon da Universidade de Chicago apresentaram uma pesquisa muito interessante no Conferência Anual da Associação Internacional de Administração de Conflitos realizada em Boston em junho de 2010. Elas estavam interessadas em saber se falta de controle cognitivo faz com que as pessoas acreditem mais nas características dos signos delas contidas no horóscopo.
Para testar isso, metade dos participantes da pesquisa foram induzidos a ter falta de controle cognitivo enquanto a outra metade foi induzida a ter controle cognitivo. Após a indução inicial, os participantes tinham que ler o horóscopo do signo deles e dizer, em uma escala de 1 a 7, o grau de concordância deles com a descrição.
Como era esperado, os resultados mostraram que as pessoas induzidas a ter falta de controle cognitivo concordaram muito mais com a descrição do horóscopo do que as pessoas que foram induzidas a ter controle cognitivo. Semelhante ao resultado das outras pesquisas da mesma natureza, esse resultado sugere que, assim como a religião e a crença em Deus ou em outros seres sobrenaturais que controlam nossas atitudes, o horóscopo é também um mecanismo compensatório poderoso que nos dá uma sensação de controle cognitivo.
No final das contas, por mais absurda que seja a idéia de que os planetas do nosso sistema solar e o universo como um todo controlam a nossa personalidade, essa é uma maneira eficiente que algumas pessoas encontram para compreender a complexidade das atitudes dos seres humanos. A verdade é que algumas outras pessoas são mais tolerantes às incertezas da vida e à falta de controle cognitivo -- algumas culturas até mais que outras. É interessante notar que as pessoas mais tolerantes à falta de controle são geralmente menos supersticiosas, menos religiosas e menos aptas à correlacionar fatos claramente desconexos (por exemplo, atribuir a culpa da morte de alguém à alguma coisa que a pessoa disse antes de morrer).
Sem querer ser dramático (coisa de gente de Peixes), acho que você nem gosta do blog Cognando, pois até hoje não começou seguí-lo no Twitter e no Facebook. :-)
Referência:
Whitson, Jennifer, Wang, Cynthia, & Menon, Tanya (2010). Cross-cultural differences in sense-making after losing control McCombs Research Paper Series... Read more »
Whitson, Jennifer, Wang, Cynthia, & Menon, Tanya. (2010) Cross-cultural differences in sense-making after losing control. McCombs Research Paper Series. info:/
by Andre Souza in ***Cognando***
Vou começar postagem de hoje com uma pergunta sobre o seu futuro: se você pudesse escolher, qual dos dois futuros abaixo você escolheria para a sua vida?(a) ganhar 3 milhões de reais na mega-sena acumulada.(b) ficar paraplégico em cadeira de rodas para o resto da vida.Tenho certeza que você pensou: "que pergunta é essa? Óbvio que prefiro a alternativa (a). Eu e 100% das pessoas que leêm o Cognando". Mas você já deve saber que, como psicólogo cognitivo, eu vou te perguntar: Por que? E você vai responder: "duh!!!!!! Simplesmente porque vou ser mais feliz ganhando na loteria do que ficando paraplégico". Sim. Você e 100% dos leitores concordam que pessoas que ganham na loteria são, em média, mais felizes que pessoas que ficam paraplégicas. No entanto, para a nossa surpresa, existem dados mostrando que, um ano após de ganhar na loteria ou ficar paraplégico, as pessoas são igualmente felizes. Isso mesmo: em média, pessoas que ganham na loteria e pessoas que ficam paraplégicas, depois de um certo tempo, apresentam o mesmo grau de felicidade.Esse tipo de "erro" da estimativa da nossa felicidade é um dos fenômenos que eu acho mais intrigante na cognição humana. É um fenômeno conhecido como impact bias, ou seja, temos a tendência de supervalorizar os nossos sentimentos com relação a eventos futuros. Isso acontece com a gente o tempo todo. Vou usar um exemplo muito mais comum no nosso dia-a-dia. Quando você entra para um relacionamento e se apaixona pela outra pessoa, você tende a achar que sua vida vai simplesmente desmoronar quando o relacionamento acabar. E o que na verdade acontece (e acontece sempre) é que após o término do relacionamento, o seu nível de felicidade é geralmente o mesmo de antes (às vezes até maior). E por que isso acontece?Uma resposta que os psicólogos tem para isso é a idéia de que, assim como o nosso corpo tem um sistema imunológico que nos defende e sempre busca manter o nosso bem-estar, o nosso sistema cognitivo tem um sistema imunológico psicológico. Esse sistema nos defende das adversidades psicológicas (perda de amores, de dinheiro, traição, etc.) fazendo com que a gente mantenha um nível de bem-estar constante. É o que chamamos de felicidade sintética (em oposição à felicidade natural). Felicidade sintética é aquela que "fabricamos" quando uma adversidade ocorre.Dan Gilbert, da Universidade de Harvard tem um estudo interessante mostrando esse efeito. O estudo original utiliza pinturas do Monet, mas para deixar a idéia mais clara (e mais interessante) vou modificar utilizando fotos de pessoas. Imagine que eu mostre à uma garota a foto de seis homens (Jansen Atwood, Keanu Reeves, Jon Bon Jovi, Wayne Virgo, Patrick Demsey e André Souza) e peça a ela para colocá-las em ordem de preferência. Eis a ordem que ela escolhe:1 - Patrick Demsey2 - Jansen Atwood3 - Wayne Virgo4 - Jon Bon Jovi5 - Keanu Reeves6 - André Souza (eu já sabia!)Após isso, eu falo com ela assim: "olha, na verdade, eu vou te dar uma cópia dessas fotos, mas só tenho as fotos do Wayne Virgo e do Bon Jovi em estoque. Qual você vai querer?" Naturalmente, ela vai escolher a foto do Wayne Virgo, pois na ordem de preferência dela ele veio primeiro. Duas semanas depois, eu chamo essa mesma garota de volta ao laboratório e mostro à ela as mesmas seis fotos. Dessa vez, olhe a ordem que ela escolhe:1 - Patrick Demsey2 - Wayne Virgo3 - Jansen Atwood4 - Keanu Reeves5 - Jon Bon Jovi6 - André SouzaBasicamente o resultado diz: "a foto que eu escolhi é mesmo bem melhor, a que eu não escolhi é na verdade, ruim." A adversidade de não poder ter escolhido uma das primeiras fotos foi compensada. Em outras palavras, o sistema imunológico psicológico "cria" uma preferência pelo que temos e o que não temos mais passa a ser ruim. Esse é um mecanismo comum nos seres humanos: o seu atual namorado (José) é muito melhor que seu ex-namorado (Carlos). E se você voltar para o Carlos, ele vai passar a ser melhor que o José. Para o seu sistema cognitivo, você sempre tem o melhor.Mas o mais interessante não é isso: quando temos a opção de escolher aquilo que vai acontecer, é quando somos mais infelizes (apesar de intuitivamente pensarmos que seja diferente). Eu explico: Imagine que a C&A ofereça aos consumidores a oportunidade de trocar um produto após a compra, caso o consumidor não goste do produto. Já a Renner não oferece essa oportunidade: uma vez que você comprou, não pode mais trocar. Em qual loja você preferiria comprar? A grande maioria das pessoas tende a escolher a C&A. E se eu te perguntar: Comprando em qual das lojas você acha que vai ficar mais feliz com o produto? As pessoas também tendem a pensar que comprando na C&A elas ficarão mais felizes, pois caso não gostem, elas podem simplesmente trocar o produto.O que de fato acontece é que as pessoas ficam significativamente mais insatisfeitas quando há a possibilidade da troca do que quando não há. O próprio Dan Gilbert tem uma série de estudos mostrando isso. Em outras palavras, sem saber, as pessoas preferem uma situação que as deixarão insatisfeitas à uma situação em que não há escolha. Quando não há a possibilidade de troca, o seu sistema imunológico psicológico vai buscar te fazer feliz com o que tem. E esse sistema só age quando não temos outra opção.E por que isso acontece? Bom a explicação é longa e merece uma outra postagem só para ela. Mas para adiantar (e aguçar a curiosidade): esse efeito tem haver com a nossa tendência a explicar e buscar causas para as nossas adversidades. Uma vez que encontramos 'uma causa' para o término do nosso relacionamento, ou uma 'causa' para o emprego que perdemos, o nosso sistema cognitivo nos diz: "tá vendo? não há com que se preocupar", e acabamos ficando mais satisfeitos com a situação que temos (e a achamos melhor que o que tínhamos no passado).É uma característica cognitiva natural e implícita (ocorre mesmo quando não temos consciência). Muitas vezes o problema está nas "causas" que atribuímos às adversidades, às vezes colocando a culpa em causas externas, ou mesmo negligenciando a nossa própria culpa na criação da adversidade. Isso pode criar outros problemas para o nosso sistema cognitivo lidar.Só sei que no final das contas, o André ficou por último. Segundo a Natielle, é coisa de gente de Peixes! :-) Eu acho que é outra coisa!Não deixe de acompanhar o Cognando pelo Twitter e pelo Facebook.Referência:Gilbert, D. (2002). The Future Is Now: Temporal Correction in Affective Forecasting Organizational Behavior and Human Decision Processes, 88 (1), 430-444 DOI: 10.1006/obhd.2001.2982... Read more »
Gilbert, D. (2002) The Future Is Now: Temporal Correction in Affective Forecasting. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 88(1), 430-444. DOI: 10.1006/obhd.2001.2982
by Andre Souza in ***Cognando***
Não me lembro da última vez que fui ao circo. Lembro-me vagamente da experiência de ficar na arquibancada esperando o show começar. E lembro também que apesar de todas as atrações disponíveis no espetáculo (malabares, mágicos, leão, etc...), o que eu queria mesmo era ver o palhaço.Correndo o risco de soar muito cliché (fazer o que, né?), as palhaçadas da era moderna se concentram em outros lugares, transferindo o picadeiro de lugar. Isso não é necessariamente ruim visto que circos são por excelência entidades itinerantes. O problema, na minha opinião, é que o circo moderno e suas palhaçadas não nos fazem rir tanto. Pelo contrário. As palhaçadas têm um impacto nocivo, destruidor e, quando a raiva não supera, a vontade é mesmo de chorar.Recebi via e-mail um vídeo com o depoimento da deputada do PDT Myrian Rios sobre o Projeto de Emenda à Constituição Fluminense 27/2003 (de autoria do deputado estadual Gilberto Palmares) que tem como objetivo "a inclusão da orientação sexual como direito individual e coletivo dos cidadãos fluminense". Lamentável. A fala da deputada foi lamentável! Não pretendo entrar no mérito (ainda) da condição pífia do depoimento da Myrian Rios, mas um fato que me chamou atenção no discurso dela (e, na verdade, também no discurso dos congressistas que votaram contra a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo em Nova Iorque) foi o fato de o argumento sempre buscar um respaldo religioso.Como psicólogo cognitivo fico numa curiosidade danada para entender por que essas coisas acontecem e por que elas têm o efeito que têm. Não há dúvidas de que existe uma relação complexa entre política e religião. Cognitivamente, no entanto, essas duas 'instituições' têm um efeito muito semelhante na maneira como processamos informação. Isso explica um pouco do porquê elas, muitas vezes, são vistas como intrinsicamente ligadas.Em postagens passadas (clique aqui), falei um pouco sobre uma característica cognitiva peculiar que é a nossa necessidade de ter uma constante sensação de "controle". O nosso sistema cognitivo funciona muito mais efetivamente quando temos a sensação de controle, ordem e poder preditivo. Já existe muita evidência empírica para isso na psicologia cognitiva (recentemente por exemplo, Cristine Legare e eu mostramos que até mesmo a percepção da eficácia de simpatias é alterada quando níveis de controle são alterados: em outras palavras, a sensação de incerteza te faz acreditar mais que uma simpatia vai funcionar). O governo e a religião servem como mecanismos externos de busca de controle.Aaron Kay, um psicólogo da Duke University tem vários estudos mostrando uma interação muito interessante entre religião e governo no que diz respeito à sensação de controle que elas oferecem. Geralmente, quando a sensação de controle oferecida por uma delas é pouca, as pessoas tendem a acreditar mais na outra: se o governo está uma 'meleca', as pessoas tendem a se apegar mais à religião. E se por algum motivo você for influenciado a pensar que a religião não tem muito poder de oferecer nenhuma sensação de controle, você tende a acreditar mais no governo.Em um dos estudos, por exemplo, os participantes foram induzidos a (1) pensar que o governo estava muito instável e perdendo um pouco das rédeas do comando do poder público ou (2) pensar que o governo estava no controle e era um governo extremamente firme e estável. As pessoas que viram o governo como instável mostraram uma crença muito maior em um Deus controlador do que as pessoas que viram o governo como uma instituição estável e firme.Grande parte dos argumentos contra a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo, ou sobre a inclusão do termo "orientação sexual" no texto da constituição que condena atos discriminatórios são argumentos de caráter religiosos. São poucos os argumentos com respaldo científico e/ou com base em dados advindos de fontes confiáveis (ou que pelo menos podem ser contestadas). E uma vez que a política brasileira, em geral, é muito fraca na tarefa de oferecer aos cidadãos uma sensação de controle do poder público, é esperado (com base em algumas dessas pesquisas empíricas) que a crença nos pressupostos religiosos aumente de maneira sintomática. Não é sem motivo que as nações mais politicamente desenvolvidas do mundo são as que têm a menor população religiosa.Essa relação curiosa entre religião/governo e sensação de poder não pode, no entanto, ofuscar a gravidade do argumento mal-articulado e horroroso que a deputada Myrian Rios proferiu na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Nenhum dos "fatos" que ela cita como problemáticos para a aprovação da emenda têm algum respaldo empírico. Inclusive, qualquer um que ler o texto da PEC na íntegra vai notar que o autor da proposta sim, baseia seus argumentos em pesquisas empíricas e ainda cita dois estados brasileiros (Mato Grosso e Sergipe) onde o texto já foi alterado. Dessa maneira, se alguém deseja argumentar contra essa inclusão e verificar empiricamente se a alteração do texto irá de fato aumentar o número de casos de pedofilia ou aumentar o casos de empregadores processados por alegação de discriminação da orientação sexual do empregado, basta utilizar esses dois estados como fonte de pesquisa. O que não pode é simplesmente alegar que, por princípios religiosos, homens e mulheres foram feitos para ficar juntos. Qualquer mente minimamente sã sabe que o buraco é muito mais embaixo. Bem mais lá em baixo, Myrian. Tão lá embaixo que eu acho que você vai precisar descer da Motoka para ver e entender.Siga o ***Cognando*** no Twitter e no Facebook, agora com 2 anos de existência! :)Referência:Kay, A., Gaucher, D., Peach, J., Laurin, K., Friesen, J., Zanna, M., & Spencer, S. (2009). Inequality, discrimination, and the power of the status quo: Direct evidence for a motivation to see the way things are as the way they should be. Journal of Personality and Social Psychology, 97 (3), 421-434 DOI: 10.1037/a0015997... Read more »
Kay, A., Gaucher, D., Peach, J., Laurin, K., Friesen, J., Zanna, M., & Spencer, S. (2009) Inequality, discrimination, and the power of the status quo: Direct evidence for a motivation to see the way things are as the way they should be. Journal of Personality and Social Psychology, 97(3), 421-434. DOI: 10.1037/a0015997
by Andre Souza in ***Cognando***
Minha mãe já dizia: "filho, é impossível fazer tudo sozinho". Para dizer a verdade, eu sempre duvidei disso. No entanto (como sempre), ela estava certa. Certas coisas na vida não podemos fazer sozinhos. Para elas, precisamos da colaboração do outro. Já a bastante tempo, acredita-se na idéia de que "trabalhar colaborativamente" é uma das principais características que diferenciam os seres humanos dos outros primatas.Intrinsicamente ligada à idéia de cooperação/colaboração está a idéia de (1) ter objetivos comuns e (2) divisão dos resultados. Para que haja uma colaboração efetiva é preciso, para começo de conversa, que haja objetivos comuns. Se eu quero A e você quer B, a possibilidade de colaboração entre nós será mínima. Caso o objetivo seja comum, é preciso pensar em como o resultado da colaboração será "dividido" após obtido. Se vamos colaborar um com o outro para obter, por exemplo, R$100,00, precisamos ter uma idéia e expectativas sobre como esse montante será divido após sua obtenção.É interessante notar que, apesar de chimpazés colaborarem uns com os outros em várias tarefas, caso exista alguma possibilidade e/ou expectativa de que o resultado não será dividido de maneira justa, eles preferem não colaborar. Exemplo: imagine que para obter duas bananas, dois macacos precisem trabalhar colaborativamente (eles precisam agir juntos para abrir a porta de onde as bananas estão). Se as duas bananas estiverem mais perto de um dos macacos (aumentando a possibilidade desse macaco simplesmente pegar as duas bananas e ir embora), geralmente a colaboração entre eles é mínima. Mas se uma banana está perto de um e a outra perto do outro, eles 'colaboram' um com outro sem problemas, cada um pega uma banana e vai para casa feliz.Em outras palavras, a colaboração entre os macacos é diretamente influenciada pela expectativa que eles têm sobre a divisão dos resultados após obtidos. E tem mais: geralmente, o macaco que pega as duas bananas, raramente divide com o outro (mesmo quando o outro é o próprio filhote). Será que o nosso potencial colaborativo é muito diferente disso?Felix Warneken, Karoline Lohse, Alicia Melis e Mike Tomasello investigaram essa questão em um estudo publicado recentemente (Junho/2011). Em 2006, Alicia Melis fez um estudo com chimpazés onde ela montou um aparato em que, para obter a comida, os macacos precisavam agir cooperativemente. Basicamente, o aparato consistia de uma plataforma localizada dentro de uma caixa de vidro. A comida era colocada nessa plataforma. Para pegar a comida, os macacos precisavam puxar a plataforma para perto deles (utilizando uma corda localizada em cada lado da plataforma) e então alcançar a comida através de um buraco na caixa de vidro. A plataforma só movia em direção aos macacos quando cada um puxava a corda do seu lado ao mesmo tempo. Em uma das situações, a caixa de vidro tinha dois buracos (um para cada macaco), de maneira que cada um poderia pega a sua comida (banana). Na outra situação, a caixa tinha apenas um buraco, aumentando a possibilidade de que apenas um dos macacos ficaria com as duas bananas. Foi nesse estudo que Alicia Melis mostrou que quando há a possibilidade de que apenas um dos macacos fique com as bananas, eles colaboram menos um com o outro.Felix Warneken e seus colaboradores fizeram exatamente o mesmo estudo com crianças de 3 anos de idade. O aparato foi o mesmo (ao invés de banana, no entanto, eles utilizaram adesivos coloridos, balas e chicletes). As crianças, ao contrário do que mostrava algumas pesquisas anteriores, foram bem colaborativas umas com as outras, independente da possibilidade de divisão dos resultados, ou seja, não importa o número de buracos na caixa de vidro, elas agiram cooperativamente quase 90% das vezes.Quando havia apenas um buraco na caixa de vidro, elas dividiam a recompensa com a outra. O interessante, no entanto, foi a forma como elas dividiam os resultados. Oitenta por cento das vezes, a divisão foi "implícita". Por exemplo, se havia dois chicletes na plataforma, elas puxavam juntas a plataforma, uma criança pegava um chiclete e simplesmente deixava o outro na plataforma. Apenas 11% das vezes a divisão foi explícita, com uma criança pegando os dois chicletes e entregando um à outra criança (ou uma criança pegando um chiclete e apontando para a outra criança que ela poderia ficar com o outro chiclete).Os resultados sugerem que a idéia de divisão igualitária e ação colaborativa sem competição começa cedo na ontogenia humana (mais cedo do que se pensava antes). Eles sugerem também que os fatores que influenciam a colaboração entre os seres humanos é qualitativamente diferente dos fatores que influenciam a colaboração entre primatas.Os resultados parecem contra-intuitivos quando pensamos nos tipos de colaboração e divisão de resultados que vemos na maior parte das nossas interações na vida adulta (principalmente as que vemos na vida pública). Mas pelo menos temos uma idéia de que a essência é colaborativa e igualitária.Colabore aí: siga o ***COGNANDO*** no Twitter ou no Facebook. :-)Referência:Warneken, F., Lohse, K., Melis, A., & Tomasello, M. (2010). Young Children Share the Spoils After Collaboration Psychological Science, 22 (2), 267-273 DOI: 10.1177/0956797610395392... Read more »
Warneken, F., Lohse, K., Melis, A., & Tomasello, M. (2010) Young Children Share the Spoils After Collaboration. Psychological Science, 22(2), 267-273. DOI: 10.1177/0956797610395392
by Andre Souza in ***Cognando***
No último dia 1 de junho o deputado federal do PP-RJ, Jair Bolsonaro, foi protagonista de mais um episódio no mínimo inusitado. Durante a Marcha pela Família, que reuniu várias pessoas que protestavam contra o projeto de lei que propõe a criminalização da homofobia, o deputado jogou água em uma drag queen que "protestava" contra o protesto da Marcha pela Família. O deputado disse mais tarde que jogou a água para "acalmar" a drag queen.Ler essas coisas me dá raiva. E tenho certeza que não estou sozinho nisso!Sem entrar no mérito da notória imbecilidade do deputado Bolsonaro (lhe falta muito mais do que simples decoro parlamentar...), gosto de pensar nas consequências que esses acontecimentos (e seus respectivos sentimentos) têm no nosso processamento cognitivo. Porque a estratégia de disseminar um "ódio" contra homossexuais utilizada pelo deputado federal parece funcionar tão bem na difusão desses estereótipos, claramente infundados, sobre homossexualidade?Quando avaliamos qualquer situação, se queremos evitar que estereótipos influenciem diretamente as nossas decisões e ações é preciso pensar um pouco. É preciso pensar na situação de maneira mais sistemática e menos heurística. Explico: imagine que você seja convidado para participar de uma comissão que vai decidir quem é o culpado por um crime de pedofilia. Um dos suspeitos do crime é homossexual. Antes de assumir que seja mais provável que o culpado seja o suspeito homossexual (um estereótipo que, apesar de pouco fundamentado, existe) é preciso analisar cautelosamente os fatos, as evidências, etc.Essa avaliação mais cautelosa requer uma utilização maior do nosso sistema cognitivo, uma vez que ela exige integração de informação, concentração e destreza na assimilação do que é informação válida e do que não é. Estratégias mais heurísticas são por natureza mais "superficiais". Elas geralmente são utilizadas quando o nosso sistema cognitivo requer respostas mais rápidas e que não podem se dar ao luxo de uma busca mais sistemática (e consequentemente mais demorada) de informações.Mas o que isso tem haver com o "ódio" que Bolsonaro dissemina sobre a homossexualidade? Existe uma ampla gama de evidências científicas que mostram que as pessoas utilizam estratégias cognitivas mais heurísticas quando estão com raiva de alguma coisa. Uma manifestação evidente da utilização de estratégias heurísticas no meio social é quando julgamos alguma situação com base em informações superficiais, tais como estereótipos. O que essas pesquisas mostram é que quando estamos com raiva temos uma tendência muito maior em julgar as pessoas, grupos e suas ações com base nos estereótipos que temos em relação à essas pessoas e/ou grupos.Quando Bolsonaro dissemina esse "ódio" contra homossexuais, ele está ao mesmo tempo comprometendo o sistema cognitivo dessas pessoas de maneira que qualquer estereótipo que existe sobre homossexuais será avaliado como informação primordialmente importante e suficientemente verdadeira. Vale ressaltar que isso acontece por que a raiva priva o nosso sistema cognitivo de maneira que qualquer fonte cognitiva que temos (e que seria necessariamente utilizada na sistematização das informações, concatenação das idéias, etc.) será seriamente comprometida.Para não cair no risco de agir no mesmo nível de imbecilidade com o qual o deputado Bolsonaro parece levar sua vida, é preciso agir (e pensar) quando a raiva não toma conta do nosso sistema cognitivo. Eu sei que é difícil não ficar com raiva das atitudes de uma pessoa que, supostamente deveria estar representando de maneira respeitosa a democracia política. No entanto, devemos tentar.Ainda bem que a minha raiva do deputado já havia passado quando resolvi escrever esse texto! :-)Referência:Bodenhausen, Galen V., Sheppard, Lori A., & Kramer, Geoffrey P. (1994). Negative affect and social judgement: the differential impact of anger and sadness European Journal of Social Psychology, 24, 45-62 DOI: 10.1002/ejsp.2420240104... Read more »
Bodenhausen, Galen V., Sheppard, Lori A., & Kramer, Geoffrey P. (1994) Negative affect and social judgement: the differential impact of anger and sadness. European Journal of Social Psychology, 45-62. DOI: 10.1002/ejsp.2420240104
by Andre Souza in ***Cognando***
Se eu pudesse ser Deputado Federal, uma das minhas primeiras ações seria entrar com uma indicação no Ministério da Saúde para que fosse retirada de circulação a cerveja da marca Brahma. A nova latinha vermelha não foi uma boa idéia. Um absurdo, na verdade! Ouvi dizer que a cor vermelha aumenta a circulação sanguínea, fazendo com que as pessoas ajam de maneira mais impulsiva. E como o Brasil já é um país muito violento, onde as pessoas não se respeitam e onde a educação é precária, eu votaria para que as latinhas fossem tiradas de circulação. E meu argumento seria exatamente esse, poxa! Devemos contribuir para que o Brasil não se torne um país mais violento.Certamente eu teria o apoio da imprensa brasileira. Óbvio. Vermelho é a cor do PT, lembra? Qualquer coisa contra o vermelho vale! E é claro que nenhum repórter da Globo, da Veja e cia se preocuparia em checar a fonte da minha informação. Pra que? Vamos repercutir! A notícia sairia na primeira página do jornal O Globo: "Deputado desvenda mensagem subliminar em marca de cerveja e veta sua comercialização". Depois seria capa da Veja: "PT e Brahma nos deixam vermelhos de vergonha". Seria um sucesso no Facebook. Pessoas indignadas postando fotos da Dilma com uma latinha de Brahma na mão (aliás, todo petista gosta de tomar uma, né?). Um ou outro especialista (acadêmico) iria ser contrário à idéia, tendo como respaldo um grupo de pesquisas e evidências científicas, mas seria obviamente ignorado (who cares?) e o veto continuaria. "Não sei o que esse povo acadêmico quer." Até o Alexandre Garcia daria o seu depoimento exaltado no Bom Dia Brasil da Rede Globo: "o que nos diferencia dos animais é a nossa capacidade de agir com cautela. E a cor vemelha das latinhas nos tira essa liberdade. Estamos propagando a violência no Brasil."O leitor mais atento já deve ter percebido que isso parece piada, né? E é piada! Deixe-me agora contar uma história que não é piada. Qualquer semelhança com a piada anterior é mera coincidência, eu juro!"O vereador da Câmara Municipal de Porto Alegre, João Carlos Nedel (PP) disse que está entrando com indicação junto ao Ministério da Educação para que seja retirado de circulação o livro Por uma Vida Melhor, distribuído nas Escolas do Brasil. Ele disse que o livro vem sofrendo críticas por parte de humoristas e intelectuais do país (...). O vereador disse ainda que houve manifestação favorável em relação à publicação, "mas deve ser de pessoas ligadas ao governo", disse o parlamentar. O vereador afirma que o Brasil está na posição 123 no ranking mundial de educação em levantamento feito pela Unesco".Para quem mora em Marte, quero contextualizar. O livro didático Por uma Vida Melhor, publicado pela editora Global está sendo acusado pela imprensa brasileira de ensinar erro de concordância. Segundo a nossa imprensa super bem informada e respaldada, o livro afirma ser correto dizer "nós pega", e isso é simplesmente um absurdo! Um crime!A indicação junto ao Ministério da Educação movida pelo vereador de Porto Alegre está sendo bem apoiada pela imprensa (ooooooohhhhhhhh). Clóvis Rossi da Folha de São Paulo, por exemplo, acha que o livro comete um "crime linguístico". Alexandre Garcia da Rede Globo disse que "a linguagem escrita que transmite, difunde o conhecimento e o pensamento diferencia o animal homem dos outros animais". O escritor Deonísio Silva diz que "o professor é pago pelo estado pra ensinar Língua Portuguesa para aqueles que não sabem". Alberto Dines da TV Brasil disse que em Portugal a coisa é diferente, "pois até um taxista fala a norma culta". E Evanildo Bechara disse que a língua culta "é a única que consegue produzir e traduzir os pensamentos que circulam no mundo da filosofia, da literatura, das artes e das ciências". Pronto. O vereador tem um time de peso que o apóia na indicação junto ao Ministério.Um pessoal aí -- uns tal de linguista -- (acadêmicos) se opuseram à toda essa bagunça. Marcos Bagno, professor do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela USP) disse ao Alberto Dines que "em Portugal se fala uma língua diferente da nossa. A nossa só se chama Português por razões históricas mas quinhentos anos depois o Português brasileiro já é muito diferente do Português de Portugal". O professor Marcos Bagno diz ainda que "não existe esse abismo entre linguagem escrita e linguagem falada". Pesquisas mostram que elas são muito mais híbridas do que a gente pensa. Alberto Dines contesta o professor, pois ele continua "achando" que Português de Portugual e Português Brasileiro são a mesma língua (A próxima vez que meu médico disser que estou com febre, vou dizer "eu acho que não, doutor!"). Pedro Perini, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (doutor em Linguística pela UFMG/University of California) defende o tratamento da variação linguística no livro didático (o que, segundo os especialistas, não é nenhuma novidade). Beto Vianna, também doutor em Linguística pela UFMG/Instituto Max Planck, também apóia a abordagem do livro da editora Global. Pedro e Beto dizem "considerar a fala espontânea, as variações regionais e pessoais é o melhor caminho para amadurecer o uso do texto escrito e do texto oral". Infelizmente meus caros Marcos, Pedro e Beto, a pergunta é who cares? Quem quer saber da opinião dos acadêmicos, especialistas e que dedicam a vida para estudar Lingüística? A gente não sabe "bulhufas".Bom mesmo é o Alexandre Garcia e o Clóvis Rossi. Eles sim sabem do que estão falando. Afinal de contas, eles dominam a norma culta, o que os diferencia dos outros animais!No fundo, no fundo, tenho que concordar com o vereador João Carlos Nedel quando ele diz que "o livro vem sofrendo críticas por parte de humoristas e intelectuais do país". Só ainda não consegui distinguir quem são os humoristas e quem são os intelectuais!!!!Referência:Bagno, Marcos (2009). NÃO É ERRADO FALAR ASSIM! Em defesa do português brasileiro Livro... Read more »
Bagno, Marcos. (2009) NÃO É ERRADO FALAR ASSIM! Em defesa do português brasileiro. Livro. info:/
by Andre Souza in ***Cognando***
Você já ouviu falar sobre James Vicary? Mesmo que nunca tenha ouvido falar sobre ele, tenho certeza que já viu, ou ouviu histórias sobre o que ele chamou de mensagens subliminares. A internet está cheia dessas histórias de que os desenhos da Disney, por exemplo, propagam uma série de mensagens subliminares sobre sexo: castelos em formato de pênis, fumaça que forma palavra "sexo", etc.Mas o que é isso afinal de contas? O que são mensagens subliminares? Bom, posso começar dizendo o que NÃO é mensagem subliminar. Mensagem subliminar não tem nada haver com mensagens do além, ou com seres sobrenaturais que tentam se comunicar conosco de alguma forma (lembra da história sobre tocar os discos da Xuxa ao contrário?). Essa definição de mensagem subliminar é do senso-comum e está errada (tocar o disco da Xuxa é esquisito sim, mas por outros motivos).Pois então. Em 1957, James Vicary -- um pesquisador da área de marketing -- fez um experimento onde ele mostrou que "propagandas subliminares" eram capazes de influenciar a escolha de consumidores acerca de algum produto. O que chamamos de mensagem subliminar na psicologia são estímulos (na maioria das vezes estímulos visuais) que são produzidos de maneira tão peculiar que não somos capazes de processar conscientemente. Não somos capazes de processar conscientemente, mas eles "passam" pelo nosso sistema perceptual. Mas como eles estão abaixo de um certo "limiar" (por isso o nome sub-liminar) nosso sistema cognitivo não processa o sinal.A coisa funciona mais ou menos assim: imagina que esteja assistindo à uma apresentação de slides com fotos da sua família. Entre uma foto e outra, alguém coloca um slide com o símbolo da Skol. No entanto, esse slide aparece na tela por 17 milésimos de segundos. O slide aparece tão rápido que você literalmente não vai "vê-lo". No entanto, o seu sistema visual vai "captar" essa imagem e ela pode acabar passando para o seu sistema cognitivo (mesmo sem você ter consciência disso). Essa informação então pode acabar influenciando o seu processo de tomada de decisão (você vai preferir Skol à Brahma, por exemplo).Foi exatamente isso que James Vicary fez em 1957. Ele disse que mesmo que você mostre a marca da sua empresa para as pessoas de maneira subliminar (sem que elas "percebam"), isso vai influenciar a escolha das pessoas -- basicamente fazer com quer as pessoas comprem seu produto. Isso foi feito em 1957 e desde de então muita gente já conseguiu mostrar que a coisa não funciona bem assim.Um estudo bacana publicado em Abril desse ano no Journal of Consumer Psychology mostrou que o efeito de mensagens subliminares, na verdade, depende dos hábitos e necessidades que você tem. Os pesquisadores queriam saber se mensagens sublimares (com a logomarca de dois tipos de bebida: chá gelado e água mineral) influenciariam a escolha das pessoas quando elas estivessem com sede.Para começar, os pesquisadores mediram o nível de sede de cada participante. Logo após essa medida, os pesquisadores perguntaram aos participantes se eles tinham alguma preferência específica pelas duas bebidas. Depois dessas medidas, cada participante teve que executar a seguinte tarefa: eles viam na tela do computador um punhado de slides com um punhado de letras B's maiúsculas (ex.: BBBBBBBBB). Em alguns slides, no entanto, apareciam uns b's minúsculos (ex.: BBBBBbBBBB). O participante tinha que prestar atenção e contar o número de nos slides que tinha a letra b minúscula.Para metade dos participantes, os pesquisadores colocaram um slide contendo a logomarca do chá gelado entre cada slide de B's. No entanto o slide com a logomarca aparecia na tela por menos de 20 milisegundos. Após a tarefa, os participantes tinham que escolher uma bebida para matar a sede.Os resultados mostraram/sugerem basicamente o seguinte:1) Se você não está com sede (não tem a necessidade de beber água), a mensagem subliminar não funciona pra você: entre a água e o chá, você escolhe o que geralmente tem o hábito.2) Se você está com sede, mas não gosta muito de chá gelado (sua preferência é a água), a mensagem subliminar tem um efeito, fazendo com que você escolha o chá gelado (mesmo não sendo a sua preferência).3) Se você está com sede e não tem nenhuma preferência quanto à bebida, a mensagem subliminar te afeta um pouco e você tende a beber o chá.Resumindo, a idéia de que mensagem subliminar afeta suas escolhas independente de qualquer coisa não é verdade. O efeito vai depender das suas preferências e, principalmente, das suas necessidades. A mensagem subliminar não vai te induzir a fazer algo que não queira (ou que não precise).Em outras palavras, essa história de que os desenhos da Disney estão cheios de mensagens subliminares "induzindo" as crianças à pensarem sobre sexo é uma balela danada! Talvez os adultos que "vêem" essas mensagens precisam se concentrar mais em suprir as necessidades que os fazem "ver" as mensagens pra começo de conversa....Fica a dica! :-)Me acompanhe no Twitter ou no Facebook.Referência:Verwijmeren, T., Karremans, J., Stroebe, W., & Wigboldus, D. (2011). The workings and limits of subliminal advertising: The role of habits Journal of Consumer Psychology, 21 (2), 206-213 DOI: 10.1016/j.jcps.2010.11.004... Read more »
Verwijmeren, T., Karremans, J., Stroebe, W., & Wigboldus, D. (2011) The workings and limits of subliminal advertising: The role of habits. Journal of Consumer Psychology, 21(2), 206-213. DOI: 10.1016/j.jcps.2010.11.004
by Andre Souza in ***Cognando***
Eu sempre me divirto observando o comportamento de crianças. Me divirto mais ainda, quando percebo que nós, adultos, agimos igualzinho a elas. Ontem eu estava em um jantar na casa de uma amiga que tem uma filha de 5 anos de idade. Depois de algum tempo de conversa chata (não sei por que adulto insiste em conversar sobre coisa chata), parei de prestar atenção na conversa e comecei a observar a filha dela enquanto ela brincava de casinha na sala. Na brincadeira, a filha da minha amiga era a mãe dessa boneca MUITO feia. Coitada. A boneca tinha apenas metade do cabelo, a roupinha dela estava imunda e apenas um olho dela abria. Imaginei a vida sofrida que a boneca levava na mão da "mãe" dela.Ela (a criança) não tinha percebido que eu estava a observando. Em um certo momento da brincadeira, a "mãe" disse à boneca: "você está muito mal-educada" e sentou-lhe um tapa na cara. O tapa foi tão forte que eu logo entendi o porquê do olho dela não abrir mais. Eu não consegui me segurar! Comecei a rir! A filha da minha amiga logo viu que eu estava olhando pra ela. Obviamente, ela "fingiu" que não estava vendo que eu estava vendo e começou a mudar o tratamento com a boneca. Ela falou com a boneca: "você não pode fazer isso! Mamãe não gosta. Mamãe já falou que não pode" (e olhava para mim de "rabo de olho"). Pensei comigo: que danadinha! Quando eu não estava olhando, ela fez a maldade com a boneca. Quando ela viu que eu estava observando, o tratamento logo mudou. Mas logo pensei: danadinha nada! É SER HUMANA!Já a algum tempo venho desenvolvendo alguns trabalhos nessa área conhecida como Ciência Cognitiva da Religião. Um dos achados mais interessantes desse novo campo de pesquisa é a idéia de que a religião (ou a crença no sobrenatural) serve funções cognitivas bem específicas (veja essa postagem do Cognando para um exemplo de uma dessas funções). Uma delas é a seguinte: ela aumenta o comportamento prosocial do ser humano. Em outras palavras: ela faz com que as pessoas sejam pessoas boas (ou pelo menos faz com que elas ajam de maneira prosocial).Um estudo realizado da Universidade de British Columbia em Vancouver no Canadá mostrou resultados empíricos que corroboram essa hipótese. Azim Shariff e Ara Norenzayan colocaram várias pessoas para participarem dessa tarefa/jogo conhecido como Dictator Game. Nessa tarefa, a pessoa (que joga contra um pesquisador disfarçado de participante) recebe dez notas de 1 dólar. Essa pessoa recebe o "poder" de decidir o que fazer com o dinheiro. Ela pode ficar com tudo ou dar qualquer quantia que ela quiser para a outra pessoa. Tudo feito no mais completo anonimato.Antes de participar do Dictator Game, no entanto, os participantes tinham que formar umas frases com um grupo de palavras que eles recebiam dos pesquisadores. Metade dos participantes recebeu um grupo de palavras que tinha: Deus, divino, sagrado, espírito e profeta. A outra metade recebeu apenas palavras neutras (nenhuma palavra fazia menção à religião).Após a tarefa com as palavras e o Dictator Game, os pesquisadores contavam a quantia que cada participante tinha deixado para a outra pessoa. Eis o resultado interessante: as pessoas que foram expostas às palavras Deus, divino, sagrado, espírito e profeta deixaram, em média, $4,22 dólares para a outra pessoa. As pessoas expostas às palavras neutras deixaram em média apenas $2,00 dólares. E mais intressante ainda: após o experimento, os pesquisadores perguntaram aos participantes quem acreditava em Deus. No entanto, a crença em Deus não foi um bom preditor da quantidade de dinheiro que a pessoa deixou.Basicamente o que o estudo sugere é que apenas a ativação (implícita) de conceitos como Deus, divino, profeta, etc. foi capaz de influenciar o tamanho da bondade das pessoas. É como se isso ativasse a idéia de que Deus está olhando. Várias outras pesquisas, na verdade, mostraram efeitos bem parecidos. Em 2005, por exemplo, Jesse Bering (o autor do polêmico livro Deus: uma ilusão) mostrou que só de falar que existe um espírito de alguém que já morreu em uma sala, as pessoas tendem a "colar" menos em um teste. Com criança a mesma coisa acontece. Se você deixar um pacote de bala em uma sala e falar para a criança: "não coma nenhuma, pois minha amiga imaginária está aqui e vai me contar tudo", a probabilidade de ela comer uma bala será bem menor. Não somos tão diferentes dos pequeninos como achamos que somos.No final das contas, só espero que a coitada da boneca de um olho só, algum dia, encontre a salvação!Referência:Shariff AF, & Norenzayan A (2007). God is watching you: priming God concepts increases prosocial behavior in an anonymous economic game. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 18 (9), 803-9 PMID: 17760777... Read more »
Shariff AF, & Norenzayan A. (2007) God is watching you: priming God concepts increases prosocial behavior in an anonymous economic game. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 18(9), 803-9. PMID: 17760777
by Andre Souza in ***Cognando***
Toda vez que ocorre um crime hediondo no país -- como o ocorrido em Realengo no Rio de Janeiro -- a mídia traz à tona vários pontos de vista sobre políticas de prevenção e combate ao crime. Como sempre, as opiniões são bem variadas e, consequentemente, o que é visto como uma ação adequada para uma pessoa, não é para uma outra pessoa: algumas pessoas acham que os criminosos devem ser punidos severamente; outras acham que o problema deve ser "cortado pela raíz"; e outras acham que esse é um problema que não tem fim.Mas a pergunta é: o que influencia nossa opinião sobre quais ações achamos adequadas ou não? É muito comum pensar que nossas opiniões (e consequentemente nossas ações) são formadas exclusivamente com base nas nossas experiências pessoais. Por exemplo, se uma pessoa está acostumada (tem experiência) com um ambiente onde erros são tratados com punição severa, essa pessoa terá uma tendência maior à propor políticas mais drásticas de combate ao crime (punição mais severa aos criminosos). Já uma outra pessoa com uma experiência diferente pode achar que a punição severa, na verdade, não ataca a origem do problema e não deve ser utilizada como ação adequada de combate ao crime.Apesar de fazer um pouco de sentido, sabemos que a mente humana é muito mais complexa do que isso (ainda bem). Às vezes, simplesmente a forma que utilizamos para apresentar alguma situação e/ou problema muda toda a conceptualização que fazemos da situação e/ou do problema. Confuso? Ok, eu explico.Quando eu estava na quinta série, eu era "chefe-de-turma"(nem sei se isso ainda existe). Basicamente eu era o "representante" da turma em reuniões, conselhos de classe, etc. Lembro uma vez que uma equipe de vendedores estava oferecendo um desconto para curso de informática na escola (isso mesmo: curso de informática). Para vender o curso, eles utilizaram a seguinte estratégia: cada representante de turma que conseguisse seis pessoas da sua turma para matricular no curso de informática, ganharia o curso de graça.Minha tarefa era simples: eu precisaria convencer 6 pessoas a se matricularem no curso. Eu poderia apresentar o curso como uma proposta profissional bacana ("vamos ter um diferencial quando buscarmos nosso primeiro emprego"), mas sabia que éramos muito novos para pensar assim. Eu poderia apresentar o curso como uma proposta financeira bacana ("um curso desse é muito caro, devemos aproveitar que eles estão nos oferecendo o curso com desconto") -- uma vez que estávamos todos em escola pública e dinheiro ERA um problema para nós, utilizei essa estratégia (acompanhada de "é bom que temos uma desculpa para encontrar depois da aula"). Basicamente, a mesma informação (fazer o curso) poderia ser apresentada de duas maneiras diferentes e apresentar dois resultados diferentes. Consegui oito pessoas para fazer o curso.Será que a mesma coisa funciona com crimes? Em outras palavras: será que a forma como falamos sobre crimes também influencia a maneira como as pessoas decidem quais ações são adequadas e quais ações não são? Paul Thibodeau e Lera Boroditsky da Universidade de Stanford, na Califórnia, investigaram exatamente essa pergunta.Já existe uma sólida discussão em Linguística em relação à idéia de que metáforas não são apenas ferramentas poéticas e figura de linguagem. Metáforas linguísticas são, na verdade, reflexos de um processo cognitivo básico onde alinhamos estruturalmente dois domínios/áreas distintos. Quando dizemos à uma pessoa que nos ameaça: "Você não vai muito longe com isso", não queremos dizer que a pessoa não vai "fisicamente" muito longe. Estamos, na verdade, conceptualizando a vida dela (um domínio) em termos de uma viagem (outro domínio). Isso é o que chamamos de Metáfora Conceitual.O que Paul e Lera fizeram foi o seguinte: eles apresentaram dois tipos de descrição sobre crimes: em uma das descrições, a metáfora conceitual utilizada foi a de CRIME como um VÍRUS. Eles utilizaram linguagem do tipo: "o crime está cada vez mais infectando a nossa cidade". Na outra descrição, a metáfora utilizada foi CRIME como um ANIMAL SELVAGEM. Para isso, eles utilizaram linguagem do tipo: "o crime está invadindo a nossa cidade". Após a apresentação das descrições, as pessoas tinham que propor uma ação adequada de combate ao crime.Como era de se esperar, a depender da descrição apresentada para a pessoa, a solução proposta variou. As pessoas que viram a metáfora do vírus propuseram políticas de caráter mais preventivo e social (programa de assistência à jovens, combate à pobreza, etc.). Essas pessoas sistematicamente concordaram que a ação mais adequada era o combate à origem da "epidemia" de crimes. Já as pessoas que viram a outra descrição (metáfora do animal) propuseram ações mais drásticas (tipo: capturar e prender os criminosos, divulgar a captura -- como forma de educar as outras pessoas). Eles propuseram ações sociais que tinham como foco "juntar forças para encontrar os criminosos".O mais interessante é que as pessoas nem sequer perceberam a presença de algum tipo de metáfora na descrição apresentada, o que sugere que a influência da metáfora é um processo cognitivo implícito -- e que tem consequências diretas em nossas ações. No final das contas, o estudo sugere que não só "a propaganda é a alma do negócio", mas as metáforas também.Referência:Thibodeau PH, & Boroditsky L (2011). Metaphors we think with: the role of metaphor in reasoning. PloS one, 6 (2) PMID: 21373643... Read more »
Thibodeau PH, & Boroditsky L. (2011) Metaphors we think with: the role of metaphor in reasoning. PloS one, 6(2). PMID: 21373643
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