Andre Souza

68 posts · 14,735 views

Andre Luiz Souza is a third-year graduate student of Psychology at the University of Texas at Austin. He writes about Cognitive Psychology and Linguistics. He writes in Brazilian Portuguese

***Cognando***
68 posts

Sort by Latest Post, Most Popular

View by Condensed, Full

  • July 4, 2009
  • 01:19 PM
  • 441 views

A Dinâmica de Tomada de Decisões

by Andre Souza in ***Cognando***

Em 2005, o economista mineiro Eduardo Gianetti lançou um dos meus livros favoritos: O valor do Amanhã. Nesse livro, Gianetti fala especificamente sobre juros, mostrando que eles são, na verdade, parte de um sistema natural. O interessante do livro é que ele mostra que os seres humanos (e algumas outras espécies) estão o tempo todo "pesando" os custos e benefícios de recompensas imediatas e futura: "devo comprar um carro agora e aproveitar minha juventude com um carro legal, ou devo esperar e comprar o carro quando eu estiver um pouco mais velho?"O estudo de como os seres humanos tomam decisões é central na Psicologia Cognitiva desde behavioristas como Isabel Myers e Maris Martinsons. Atualmente, a pesquisa sobre tomada de decisões tem uma perspectiva mais dinâmica e incorpora outros fatores como atenção e avaliação do ambiente de tomada de decisões.A. Ross Otto, Art Markman e Brad Love (da Universidade do Texas em Austin) e Todd Gureckis (da Universidade de Nova Iorque) mostraram, em um experimento bem interessante, como que as pessoas utilizam informações sobre decisões recentes para avaliar benefícios futuros e imediatos. Em outras palavras: as decisões que as pessoas tomam acerca de certa situação constantemente mudam o prórprio contexto de tomada de decisão.Ross e seus colegas estavam interessados em investigar as representação que os participantes têm das tarefas de tomada de decisão (para isso eles manipularam as informações que os participantes tinham do contexto de tomada de decisão) e como essas representações interagem com estratégias de tomada de decisão que envolvem benefícios imediatos e benefícios futuros.Cento e quatro estudantes participaram do estudo e foram selecionados para uma das quatro condições manipuladas pelos pesquisadores: estrutura dos benefícios (imediato e futuro) e pistas sobre o contexto de tomada de decisão (com pistas e sem pistas). A tarefa de tomada de decisão era a seguinte: os participantes tinham que extrair oxigênio de Marte utilizando uma entre duas formas distintas de extrair oxigênio. Eles não sabiam qual forma era a melhor. Isso teria que ser aprendido no experimento (com tentativa e erro). O objetivo era extrair o máximo de oxigênio possível da atmosfera de Marte. O experimento consistiu de 500 eventos (500 tentativas de escolher o melhor sistema de extração de oxigênio).Para manipular a estrutura do benefício, os pesquisadores criaram uma equação onde a variável era o número de tipos de escolha (Long-Term Increasing e Long-Term Decreasing) nos últimos 10 eventos (veja o paper original para ver detalhes das manipulações excutadas). Para manipular as informações que os participantes tinham acerca do contexto de tomada de decisão, um grupo tinha acesso à quantidade de ar extraído em um dado momento (grupo com pistas) enquanto o outro grupo não tinha acesso à essa pista.A principal variável dependente era a proporção de eventos em que o participante escolhia a opção que privilegiava ganhos de longo prazo (mesmo que os ganhos imediatos fossem menores). Eles encontraram que os participantes que tinham acesso às pistas privilegiaram muito mais as escolhas de benefícios a longo prazo. Os pesquisadores fizeram algumas outras manipulações para testar hipóteses teóricas mais específicas, mas o resultado interessante é o de que, quanto mais acesso um participante tem ao estado presente das suas escolhas passadas, mais provável é que ele valorize benefícios de longo prazo.Entender como funciona a dinâmica da nossas tomadas de decisão é importante não só pelo lado prático da coisa (nos ajuda a tomar decisões mais cautelosas e cuidadosas), mas é importante do ponto de vista científico, uma vez que ilumina a maneira como nossa cognição funciona no nosso dia-a-dia e como processamos e representamos as informações a que estamos expostos o tempo todo.Dêem uma olhada no artigo original! Vale a pena. Ele pode ser encontrado no site do A. Ross Otto e estará disponível logo logo no Psychonimic Bulletin & Review.Referência:Otto, A.R., Gureckis, T.M., Markman, A.B., & Love, B.C. (2009). Navigating through Abstract Decision Spaces: Evaluating the Role of State Generalization in a Dynamic Decision-Making Task. Psychonomic Bulletin & Review... Read more »

Otto, A.R., Gureckis, T.M., Markman, A.B., & Love, B.C. (2009) Navigating through Abstract Decision Spaces: Evaluating the Role of State Generalization in a Dynamic Decision-Making Task. Psychonomic Bulletin .

  • June 29, 2009
  • 12:46 PM
  • 419 views

Superstições e Crenças sob uma Perspectiva Cognitiva!

by Andre Souza in ***Cognando***

Há alguns dias atrás, recebi um desses email-corrente pedindo que eu listasse as minhas superstições mais comuns. Como o email já havia passado por milhares de pessoas antes de chegar a mim, decidi ler as superstições das outras pessoas. São muitas e variadas. E até certo ponto, criativas. Uma as pessoas, por exemplo, disse que não tinha superstição alguma, pois isso dá azar!Por muito tempo, o estudo de crenças, religiões, superstições e teorias de conspiração era da alçada de antropólogos sociais e estudiosos culturais. No entanto, dos anos 70 pra cá, um importante movimento nas Ciências Cognitivas tem buscado investigar o surgimento de crenças e superstições de um ponto de vista mais cognitivo. Basicamente, a idéia é investigar como a mente humana cria crenças e superstições, quais fatores estão implicados nesse processo e como podemos entender essas criações.Em outubro de 2008, Jennifer Whiston da Universidade do Texas e Adam Galisnky da Universidade Northwestern, executaram uma série de experimentos mostrando que, um dos fatores responsáveis pela formação de "padrões ilusórios" (ver imagens onde não há, perceber conspirações e desenvolver superstições) é a falta de controle em certa situação. Segundo esses pesquisadores, o desejo de combater incertezas é uma das forças que guiam os serem humanos. Sempre que enfrentamos uma situação que não temos controle é natural que imediatamente tentemos re-estabelecer o controle da siuação, de uma maneira ou de outra.Para esses pesquisadores, quando não conseguimos re-estabelecer o controle da situação de maneira objetiva, nós o fazemos de forma perceptiva. Assim, quando não temos controle da situação, "vemos" padrões e correlações que não existem, e atráves dessa visão começamos a ter controle da situação. Os experimentos executados pelos pesquisadores tinham o objetivo geral de mostrar isso: que a falta de controle de uma situação é responsável pelo surgimento de padrões perceptuais ilusórios.No primeiro experimento, os pesquisadores tinham o objetivo de mostrar que a falta de controle cria a necessidade de "ver" padrões onde não existem. Para controlar "controle da situação" os pesquisadores utilizaram uma espécie de tarefa de identificação conceptual. Nessa tarefa, participantes tinham que explicar conceptualmente uma série de estímulos. No grupo "falta-de-controle", o feedback que os participantes recebiam não era consistente com as respostas. No grupo base nenhum feedback era dado aos participantes. Para acessar a necessidade de perceber padrões, os pesquisadores utilizaram a escala "Personal Need for Structure Scale". Os resultados mostraram que os participantes no grupo "falta-de-controle" demonstraram uma necessidade maior de perceber padrões.No segundo experimento, os pesquisadores utilizaram a mesma tarefa para manipular o "controle da situação" e verificaram em que medida as pessoas no grupo "falta-de-controle" enxergariam padrões inexistentes. Para acessar isso, os pesquisadores utilizaram uma versão modificada do "picture snowy task". Os resultados mostraram que os participantes no grupo "falta-de-controle" quando comparados com o grupo base, enxergaram mais padrões inexistentes.No terceiro experimento, os pesquisadores manipularam o controle da situação pedindo que os participante contassem uma situação onde eles tinham total controle ou não tinham controle algum. Após a recontagem, eles tinham que responder perguntas referentes à crenças supersticiosas. Os participantes que contaram uma situação onde não tinham controle tenderam a adotar uma posição muito mais superstisiosa que os participantes que contaram uma situação em que tinham controle.O experimento IV teve como objetivo mostrar que não é uma situação de "ameaça" que é responsável pela visão de padrões inexistentes, mas sim a falta de controle. Participantes contaram uma situação onde algo ameaçador aconteceu e então os pesquisadores manipularam o controle ou não da situação. Além da tarefa de identificar objetos (picture snowy task), os pesquisadores acessaram a percepção de conspiração. Assim como nos experimentos anteriores, os participantes do grupo "falta-de-controle", quando comparados com o grupo base, viram mais padrões inexistentes e endossaram mais teorias de conspiração.Nos últimos dois experimentos, os pesquisadores testaram a mesma hipótese, mas no campo das financias. Eles manipularam controle ou não da situação do mercado financeiro e verificaram se participantes tediam a ver duas afirmações não relacionadas, como relacionadas. Novamente, os resultados mostraram que a falta de controle levou os participantes a julgar frases não-relacionadas como relacionadas.Esses experimentos em geral são importantes por dois motivos principais: primeiro, eles mostram que é possível estudar, sob uma perspectiva experimental, assuntos que antes eram estudados apenas de maneira expeculativa. Segundo, eles mostram que pensar em superstições, crenças, teorias de conspiração sob uma perspectiva cognitiva não é algo "sem-noção". Muito pelo contrário, é uma área bastante promissora dentro das Ciências Cognitivas.Fique ligado para mais posts.Referência:Barrett, J. (2000). Exploring the natural foundations of religion Trends in Cognitive Sciences, 4 (1), 29-34 DOI: 10.1016/S1364-6613(99)01419-9... Read more »

  • July 3, 2009
  • 11:51 AM
  • 395 views

Ciências Cognitivas e Religião

by Andre Souza in ***Cognando***

Há alguns dias, eu estava assistindo a um documentário sobre uma tribo indígena da região amazônica brasileira. Em uma parte do programa, os repórteres acompanham uma espécie de ritual de passagem para a vida adulta: o jovem candidato à adultez tinha que ser picado por centenas de formiga "Bala". Só pra você ter uma idéia, as formigas "Bala" são número 2 no ranking "the 5 most horrifying bugs". O nome dessa formiga é "bala" não porque ela gosta de coisas doces, mas por que a sua picada é considerada uma das picadas mais dolorosas do reino animal e se assemelha à sensação de se levar um tiro. Enfim, no ritual, a pessoa deve ser picada por centenas dessa formiga por aproximadamente um minuto. Daí você está preparado para ser adulto.Esse programa me chamou atenção, pois está diretamente relacionado com uma linha de pesquisa que estou ativamente trabalhando recentemente. É o estudo da "religião" e "crenças" a a partir de um ponto de vista cognitivo. Durante muitos anos, o estudo da religião era algo executado por antropólogos e estudiosos culturais. Esses estudiosos, a partir de uma perspectiva émica, investigam as peculiaridades de certas religiões e rituais religiosos. Meu interesse (e das pessoas que trabalham com essa perspectiva) é: será que conceitos religiosos são fundamentalmente diferentes de conceitos não religiosos? De um ponto de vista cognitivo, em que nossas ações cotidianas se diferem das nossas ações ritualísticas?Essa nova Ciência Cognitiva da Religião surgiu a partir da vontade de se compreender as bases cognitivas que permitem que crenças religiosas surjam. E o mais importante: essas investigações são todas de caráter empírico (ver meu post sobre crenças e religião).O interesse geral dessa linha de pesquisa é: entender como conceitos religiosos são adquiridos, mantidos e como eles motivam ações humanas. A hipótese é de que, mesmo ações ritualísticas surpreendentes (como o ritual de passagem com as formigas bala) podem ser compreendidas a partir de um aparato cognitivo simples.Justin Barret, do Departamento de Psicologia do Calvin College nos Estados Unidos, publicou em 2000 uma revisão interessante sobre o que está rolando na área de Ciência Cognitiva da Religião. São estudos que envolvem (1) representação de conceitos sobre coisas naturais e sobrenaturais (2) o surgimento do pensamento religioso durante a infância, (3) a forma como conceitos religiosos/sobrenaturais co-existem com conceitos naturais e não-religiosos, etc.Justin Barret estará no próximo encontro da Cognitive Science Society em Amsterdam em um simpósio organizado pela professora Cristine Legare do Departamento de Psicologia da Universidade do Texas. Eles discutirão alguns trabalhos recentes que estão sendo desenvolvidos no mundo, inclusive um trabalho que Cristine e eu estamos desenvolvendo no Brasil. Assim que tivermos resultados mais concretos, eu postarei alguma coisa sobre esse nosso estudo aqui.Referência: Barrett, J. (2000). Exploring the natural foundations of religion Trends in Cognitive Sciences, 4 (1), 29-34 DOI: 10.1016/S1364-6613(99)01419-9... Read more »

  • June 30, 2009
  • 02:18 PM
  • 394 views

Flexibilidade Atencional e Representacional em Processos de Inferência

by Andre Souza in ***Cognando***

Há mais ou menos um ano, a Pixar lançava nos cinemas mundiais o filme Wall-e. Esse longa-metragem protagoniza um robôzinho muito simpático e suas aventuras num planeta Terra destruído e abandonado. Em uma das cenas do filme, Wall-e chega em sua casa e começa a "guardar" os objetos que recolheu ao longo do dia. Cada tipo de objeto tem seu lugar específico. Eis que então, Wall-e se depara com a dificuldade de guardar um "garfo" que ele encontra. Depois de oscilar entre "garfos" e "colheres", Wall-e desiste e coloca o objeto em local separado.

Pare um telespectador "normal", essa foi apenas uma cena engraçada. No entanto, para "malucos" como eu -- que não desliga de 'processos cognitivos' -- a cena como um todo é um exemplo espetacular de um processo cognitivo muito comum ao ser humano: categorização.

Os seres humanos são experts no processo de categorização. Fazemos isso o tempo inteiro. A partir dos processos de categorização criamos/aprendemos conceitos acerca dos objetos que nos cercam e com os quais interagimos. O estudo dos processos de categorização são antigos. Datam da década de 20, com estudos do psicólogo norte-americano Clark Leonard Hull.

Estudos mais recentes incorporaram aos estudos de categorização noções de atenção. A idéia básica é de que, para categorizar, precisamos alocar nossa atenção para traços que são relevantes no processo em questão. Obviamente, os traços relevantes para um processo de categorização varia de acordo com o contexto. Por exemplo: se precisamos distinguir entre "cerveja" e "refrigerante", um traço relevante pode ser o "teor alcóolico" e não o fato de serem líquidos (já que esse traço não os distingue. No entanto, para distinguir entre "cerveja" e "vinho", o traço "teor alcóolico" passa a não ser relevante e a atenção deve ser alocada para um outro traço.

O problema com essa visão é que, sempre que engajamos em processos de categorização, precisamos "re-aprender" sobre o objeto que categorizamos.

Aaron Hoffman do Departamento de Psicologia da Universidade do Texas e Bob Rehder do Departamento de Psicologia Universidade de Nova York exploraram, em um experimento muito interessante, os fatores atencionais envolvidos no processo de categorização. Mais especificamente, esses pesquisadores tinham interesse de saber (1) como que as pessoas sabem qual traço/informação é relevante para processos de categorização em contextos distintos e (2) e por quanto tempo as pessoas devem alocar a atenção para diferentes traços.

O experimento consistiu de uma série de tarefas de classificação e inferência. Nas tarefas de classificação, os participantes foram treinados acerca de duas categorias (A e B) e depois classificavam outros membros de acordo com os traços relevantes para a distinção entre A e B (no total foram manipulados três traços). Nas tarefas de inferência, os participantes tinham que prever os traços que estavam faltando entre duas categorias. Os pesquisadores utilizaram técnicas de rastreamento ocular (eye-tracking) para monitorar a alocação da atenção dos participantes durante as tarefas de classificação e inferência.

Os resultados são bem interessantes: apesar de os dois grupos (inferência e classificação) terem demonstrado aprendizagem nos blocos de treinamento, a classificação pareceu mais fácil que a inferência, com uma proporção maior de acertos por parte dos participantes. Existe um corpo grande de pesquisas mostrando que, em tarefas de inferência, as pessoas são mais sensíveis a traços internos às categorias (por exemplo, as pessoas seriam mais sensíveis aos traços que definem "cerveja" e não apenas aos traços que distinguem "cerveja" de outras bebidas). Assim, uma vez que os processos inferenciais são mais flexíveis que processos de categorização (já que requerem uma atenção global à TODOS os traços de uma categoria), os pesquisadores esperavam encontrar uma alocação da atenção mais distribuída nas tarefas de inferência (o olhar estaria mais distribuído que nas tarefas de classificação), e com isso, teriam uma representação mais flexível das categorias aprendidas.

Interessantemente, no entanto, os pesquisadores encontraram que, tanto nas tarefas de classificação quanto nas tarefas de inferência, os participantes fixaram o olhar em traços específicos. Segundo Aaron e Bob, o que distingue as tarefas de classificação das tarefas de inferência são as demandas atencionais de cada processo e não fatores motivacionais, como afirmam alguns estudiosos. A partir de algumas outras manipulações, os pesquisadores mostraram que tarefas de classificação podem ser mais flexível de uma maneira geral. Esse resultado, apesar de não corroborrar a hipótese inicial (de que tarefas de inferência são mais flexíveis), mostra que a alocação da atenção durante as tarefas de inferência é mais uma função do que é pedido na tarefa do que uma função do processo em si.

O estudo de processos de categorização que levam em consideração fatores atencionais são de extrema valia. Eu sei que Aaron Hoffman anda desenvolvendo outros estudos interessantes, assim, fiquem ligados aqui no blog! Logo logo vamos falar mais de atenção e categorização.

Ps.: O trabalho que comentei aqui não está publicado ainda. Será apresentado na próxima CogSci Conference em Amsterdam. Agradeço ao Aaron Hoffman que não só gentilmente me passou o trabalho como disse que não teria problema algum que eu o comentasse aqui no blog!

Referencia

Hoffman, A.B., & Rehder, B. (2009). Attentional and Representational Flexibility of Feature Inference Learning. CogSci... Read more »

Hoffman, A.B., & Rehder, B. (2009) Attentional and Representational Flexibility of Feature Inference Learning. Cognitive Science Society.

  • July 13, 2009
  • 11:07 AM
  • 377 views

O Bem-estar no Relacionamento: Tudo Depende do Tipo de Foco.

by Andre Souza in ***Cognando***

No último dia 7 de julho, a atriz brasileira Sthephany Brito casou-se, em uma cerimônia altamente luxuosa (coisa de princesa), como o atacante do Milan, Alexandre Pato. Luxuosidades à parte, hoje em dia, casamentos estão na moda. Muitas pessoas namoram por muito pouco tempo e já seguem o caminho do altar.Como fazer para garantir um bom relacionamento após o casamento? E mesmo antes de casar, como garantir que você e o(a) seu parceiro(a) estão em uma sintonia que garanta o bem-estar do relacionamento?Psicólogos sociais têm, desde de muito tempo, estudado o bem-estar psicológico de pessoas envolvidas em relacionamentos amorosos. Dentre as várias descobertas, estudiosos afirmam que uma variável importantíssima na construção de um relacionamento sadio é a quantidade de suporte que seu(sua) parceiro(a) te dá em momentos de dificuldade e de triunfo. Em outras palavras: se você vê seu(sua) parceiro(a) como alguém que apóia você em momentos marcantes da sua vida, a chance de que você terá um relacionamento legal é grande.Recentemente, pesquisadores têm investigado se o apóio dos parceiros com relação aos seus objetivos de vida tem influência na percepção do bem-estar do relacionamento: como você percebe a maneira como seu parceiro apóia seus objetivos?Em Psicologia Social existem dois tipos básicos de objetivos, ou melhor, dois tipos distintos de foco: foco preventivo e foco não-preventivo (essa tradução é péssima. Em inglês os termos são prevention focus e promotion focus). Foco não preventivo é aquele que focaliza nos "ganhos" futuros. Por exemplo: um estudante com foco não-preventivo foca na obtenção de um "A" no final do semestre, ou seja, ele foca no ganho de uma nota boa. Em contrapartida, o foco preventivo é aquele que focaliza nas "não-perdas". O mesmo aluno, por exemplo, ao invés de focar no "ganho" de um "A", ele focaliza no "não-ganho" de um "B". O foco preventivo "evita" resultados negativos ao passo que o foco não-preventivo "busca" resultados positivos.É interessante notar que o "resultado" final é o mesmo (o "A" no final do curso, por exemplo). Apenas a representação desse resultado final é que varia. Várias pesquisas têm mostrado que o tipo de foco tem impacto direto na maneira como nos executamos determinadas tarefas (mais no futuro, vou postar algums trabalhos que a pesquisadora Lisa Grimm -- College of New Jersey -- e o pesquisador Art Markman -- Universidade do Texas -- têm feito nessa área).Seguindo a mesma linha, Daniel Molden, da Northwestern University, e alguns colaboradores investigou como que o tipo de foco (preventivo vs. não-preventivo) influencia na maneira como as pessoas percebem (conceptualizam) o suporte do(a) parceiro(a).O estudo contou com casais casados e não-casados. Segundo os pesquisadores, casais não-casados teriam um foco não-preventivo. Segundo Molden e seus colegas, esses casais buscam "ganhar" intimidade e estabilidade no relacionamento, ao passo que casais casados, devido ao profundo investimento psicológico (e muitas vezes financeiro) apresentam um foco mais preventivo, ou seja, de manutenção da estabilidade e do envovimento com o(a) parceiro(a).Os pesquisadores, na verdade, acreditam que casais casados apresentam os dois tipos de foco de uma maneira balanceada (eles também buscam "ganhar" cada vez mais intimidade e respeito no relacionamento), ao passo que casais não-casados apresentariam um foco de caráter não-preventivo.A hipótese dos pesquisadores na presente pesquisa foi a seguinte: a percepção da participantes sobre o suporte do parceiro para focos não-preventivos seria um forte preditor do bem-estar do relacionamento para casais não-casados. E a percepção sobre o suporte do parceiro para os dois tipos de foco seriam bons preditores de bem-estar no relacionamento para casais casados. Em uma linguagem mais acessível: se você não é casado, a sensibilidade do seu parceiro com relação aos seus objetivos não-preventivos é um forte candidato para garantir o bem-estar do relacionamento. A sensibilidade com relação aos seus objetivos preventivos não importa. no entanto, se você é casado, a sensibilidade do seu(sua) parceiro(a) para seus objetivos preventivos E não-preventivos é que garante o bem-estar do casamento.Os resultados são confirmadores da hipótese. A partir de várias análises estatísticas e controles, os pesquisadores confirmaram o que eles esperavam: a associação entre percepção de suporte e bem-estar no relacionamente depende do tipo de foco. A percepção de suporte para foco não-preventivo apenas foi importante para o bem-estar do relacionamento para os casais não-casados. Já para os casais casados, a percepção de suporte para os DOIS tipos de foco foram importante para predizer o bem-estar do relacionamento.Pelos resultados, sabemos que o suporte que demonstramos aos nossos parceiros não pode ser qualquer um. Ele deve ser condizente com o contexto motivacional em que nosso parceiro se encontra. Outras pesquisas já mostraram resultados semelhantes em outras áreas da cognição humana (ver os trabalhos de Todd Maddox, Art Markman e Lisa Grimm). Acho que vale a pena um estudo de normatização mostrando que a idéia de que casais não-casados são não-preventivos em comparação à casais casados. A idéia é bastante pertinente, mas um estudo para normatizar isso seria bem interessante.No mais, fica o conselho para os casais por aí: avalie o contexto motivacional em que seu relacionamento se inclui, pois não é somente o suporte que conta, mas o suporte condizente ao tipo de foco/objetivo do(a) parceiro(a).Referência:Molden, D., Lucas, G., Finkel, E., Kumashiro, M., & Rusbult, C. (2009). Perceived Support for Promotion-Focused and Prevention-Focused Goals: Associations With Well-Being in Unmarried and Married Couples Psychological Science, 20 (7), 787-793 DOI: 10.1111/j.1467-9280.2009.02362.xMolden, D., Lucas, G., Finkel, E., Kumashiro, M., & Rusbult, C. (2009). Perceived Support for Promotion-Focused and Prevention-Focused Goals: Associations With Well-Being in Unmarried and Married Couples Psychological Science, 20 (7), 787-793 DOI: 10.1111/j.1467-9280.2009.02362.x... Read more »

  • July 14, 2009
  • 08:01 AM
  • 370 views

$%#$#@%: Falar Palavrão Pode Aliviar Dor Física!

by Andre Souza in ***Cognando***

Há alguns dias, eu estava assistindo ao show "Nóis na fita" de Leandro Hassum e Marcius Melhem e, em uma parte do show, os comediantes falam do papel catártico que palavrões exercem na nossa vida. Apesar de engraçado, temos a sensação de que isso é verdade. Quem nunca deu aquela topada na quina da cama e, ao soltar um palavrão (que parece ser uma resposta automática) parece ter a dor aliviada instantaneamente?Um grupo de pesquisadores da Escola de Psicologia da Universidade de Keele na Inglaterra (Richard Stephen, John Atkins e Andrew Kingston) resolveram investigar essa hipótese empiricamente. Eles investigaram em que medida falar palavrão afeta não só nossa perpepção da dor, mas também a nossa tolerância à dor.Os pesquisadores pediram que os participantes (homens e mulheres) colocassem a mão em um balde com água gelada e a mantivesse lá até que não aguentassem mais. O tempo total em que o participante mantinha a mão no balde foi a medida de tolerância à dor. Foram também acessadas a percepção da dor pelo participante (Perceived Pain Scale), batimento cardíaco, ansiedade (Spielberg State-trait Anxiety Index) e o medo de dor (Fear Pain Questionnarire).Antes de imergir a mão na água gelada, os pesquisadores pediram aos participantes que falassem cinco palavrões que eles falariam se martelassem o próprio dedo e cinco palavras que eles usariam para descrever uma mesa.Durante o experimento propriamente dito, os participantes na condição "palavrão", deveriam colocar a mão no balde de água gelada e repetir o primeiro palavrão da lista de cinco palavrões que escolheram. Na condição "controle", eles deveriam colocar a mão na água gelada e repetir a palavra que escolheram para descrever a mesa.Os resultados são interessantes: eles mostraram que o tempo de imersão na água gelada na condição "palavrão" foi maior que na condição controle, sugerindo que a tolerância à dor é maior quando se fala palavrão. Houve também um efeito do sexo: homens suportaram mais a dor do que as mulheres. No quesito percepção da dor, os pesquisadores encontraram que tanto homens quanto mulheres mostraram uma redução dessa percepção na condição "palavrão", mas a diferença foi maior para as mulheres. Os batimentos cardíacos foram maiores para a condição "palavrão", e muito maiores para as mulheres do que para os homens.De uma maneira geral, os resultados sugerem que, falar palavrão, além de desencadear uma resposta emocial, desencadeia também uma resposta física. O aumento do batimento cardíaco pode ser indício de agressividade. Existem estudos, por exemplo, que mostram que a agressividade diminui a sensação de dor. Os pesquisadores acreditam que, no passado, esse aumento de agressividade seria importante em situações de risco, pois aumentaria a tolerância à dor, o que facilitaria a luta contra um agressor.Importante, ou não, o que sabemos é que muitas vezes o palavrão sai de forma tão automática algumas situações de dor, susto, etc., que não é um absurdo sugerir que eles já fazem parte da nossa cognição. De qualquer forma, já temos respaldo científico para justificar o palavrão que sai depois da topada na quina da cama!Referência:Stephens, R., Atkins, J., & Kingston, A. (2009). Swearing as a response to pain NeuroReport, 20 (12), 1056-1060 DOI: 10.1097/WNR.0b013e32832e64b1... Read more »

Stephens, R., Atkins, J., & Kingston, A. (2009) Swearing as a response to pain. NeuroReport, 20(12), 1056-1060. DOI: 10.1097/WNR.0b013e32832e64b1  

  • August 3, 2009
  • 01:39 AM
  • 370 views

Efeitos de Uma Segunda Língua na Sua Língua Materna

by Andre Souza in ***Cognando***

Todo mundo sabe que saber falar uma língua estrangeira é bom. Na verdade, essa é uma habilidade fundamenal nos dias de hoje. Além de ser um diferencial importante na busca de bons empregos no mercado de trabalho, saber uma segunda língua traz mudanças cognitivas importantes para seus falantes. Vários estudos em Psicologia Cognitiva e Linguística têm mostrado isso. No campo da Psicologia, os estudos tem mostrado como falantes de duas ou mais línguas têm facilidades em tarefas cognitivas diversas. Já no campo da Linguística, as pesquisas tendem a enfatizar nos efeitos da língua materna no processo de aquisição da segunda língua.Uma pergunta interessante, no entanto, é: será que falar uma língua estrangeira afeta nossa habilidade linguística na língua materna? Em outras palavras: será que falar inglês, por exemplo, afeta nossa habilidade com a língua portuguesa?Um grupo de pesquisadores da Ghent University (Eva Van Assche, Wouter Duyck, Robert Hartsuiker e Kevin Diependaele), em um estudo bem simple, investigaram essa possibilidade. O artigo será publicado no periódico Psychological Science ainda esse ano.Em alguns estudos anteriores, pesquisadores encontraram que falantes bilíngues são mais rápidos no reconhecimento de palavras cognatas. Palavras cognatas são aquelas palavras que apresentam uma semelhança formal significativa em duas ou mais línguas. Por exemplo, as palavras feminism (inglês) e feminismo (português) são cognatas. Estudos mostram que falantes bilíngües são mais rápidos no reconhecimento de palavras cognatas em comparação ao reconhecmento de palavras não cognatas. A idéia é de que a apresentação de uma palavra em uma dada língua ativa a representação de todas as outras línguas conhecidas.No entanto, o reconhecimento de palavras é uma tarefa que, apesar da sua grande validade interna, tem pouca correspondência com as tarefas cognitivas com as quais bilíngües estão expostos no dia-a-dia (veja o conceito de Optimal Level of Fuzz do meu post anterior para entender por que isso pode ser um problema). No presente estudo, os pesquisadores analisaram o mesmo efeito de facilitação de palavras cognatas, porém em uma tarefa muito mais "automática" e pervasiva: LEITURA.Os quarenta e cinco estudantes bilíngües (Inglês-Dinamarquês) que participaram do estudo tinham a tarefa de ler algumas frases apresentadas em dinamarquês que incluíam uma palavra cognata (grupo experimental) ou uma palavra controle (frase controle). Eram frases do tipo:Exprimental: Ben heeft een oude oven gevonden tussen de rommel op zolder.Controle: Ben heeft een oude lade gevonden tussen de rommel op zolder.Os correspondentes em inglês eram:Experimental: Ben found an old oven among the rubbish in the attic.Controle: Ben found an old drawer among the rubish in the attic.Em português:Experimental: Ben achou um forno velho no meio das tralhas no sotão.Controle: Ben achou um gaveta velha no meio das tralhas no sotão.Para medir o tempo de leitura das palavras-alvo (em negrito), os pesquisadores utilizaram técnicas de rastreamento ocular (medidas específicas de fixações e foveamento).Os resultados são bem interessantes. Eles mostram que as medidas de tempo de leitura para as palavras cognatas, em comparação às outras, foi estatisticamente menor. Esses resultados são interessantes, uma vez que mostram que, mesmo em tarefas altmente entreincheiradas e em que o conhecimento da segunda língua não é necessariamente relevante, os falantes parecem ativar representações da língua não-dominante.Outros estudos, obviamente, precisam ser feitos para consolidar os achados dessa pesquisa. Mas, certamente, os resultados apresentados nesse estudo já são suficientemente interessantes para suscitar outros questionamentos.Van Assche E, Duyck W, Hartsuiker RJ, & Diependaele K (2009). Does Bilingualism Change Native-Language Reading? Cognate Effects in a Sentence Context. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS PMID: 19549082... Read more »

Van Assche E, Duyck W, Hartsuiker RJ, & Diependaele K. (2009) Does Bilingualism Change Native-Language Reading? Cognate Effects in a Sentence Context. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS. PMID: 19549082  

  • July 21, 2009
  • 10:44 PM
  • 367 views

The Optimal Level of Fuzz: O Equilíbrio na Pesquisa em Psicologia Cognitiva

by Andre Souza in ***Cognando***

... Read more »

Markman, A.B., Beer, J.S., Grimm, L.R., Rein, J.R., & Maddox, Todd W. (2009) The Optimal Level of Fuzz: Case Studies in a Methodology for Psychological Research. Journal of Experimental and Theoretical Artificial Intelligence .

  • June 28, 2009
  • 07:56 PM
  • 361 views

O Poder Simbólico do Dinheiro

by Andre Souza in ***Cognando***

No último sábado, dia 27, quatro sortudos passaram a ter, cada um, a quantia de R$ 13.904.065,20 na conta bancária. Esse foi o valor que cada um ganhou por ter acertado os seis números da Mega-Sena. Sempre que o prêmio da Mega-Sena se acumula, os brasileiros logo começam a imaginar como a vida mudaria caso ganhassem o grande prêmio: certamente comprariam casas maiores, carros de luxo, frequentariam lugares diferentes, fariam novas amizades, etc.Parece não haver dúvida de que, em geral, pessoas com dinheiro são bem aceitas socialmente. Mesmo aquelas que não são socialmente aceitas, se têm dinheiro, conseguem lidar bem com o estresse advindo da rejeição social.Já a algum tempo, a pesquisa em Psicologia Social vem mostrando que a relação entre dinheiro e aceitabilidade/popularidade social é algo real. A idéia é de que o dinheiro parece de alguma forma substituir as necessidades de aceitabilidade social. No último volume do periódico Psychological Sciences, um grupo de pesquisadores (Xinyue Zhou, Kathleen Vohs e Roy Baumeister) executou uma série de experimentos na China mostrando essa relação entre dinheiro e o impacto de eventos de rejeição e/ou aceitação social. Interessantemente, esses pesquisadores mostraram que até mesmo a percepção da "dor física" pode ser influenciada pelo simples pensamento de ter dinheiro. Pesquisas anteriores já mostraram que as bases neurais humanas que respondem à rejeição social são as mesmas envolvidas em episódios de dores físicas (a "dor" da rejeição social é semelhante à dor física).No primeiro experimento da série, os pesquisadores testaram a hipótese de que dinheiro pode substituir aceitabilidade social. Segundo eles, se dinheiro substitui aceitabilidade social, episódios de rejeição social devem aumentar o desejo pelo dinheiro. Setenta e dois estudantes foram divididos em grupos de quatro alunos. Cada grupo teve cinco minutos para se conhecer. Depois dessa atividade, cada estudante, individualmente, indicou com qual outro membro ele gostaria de trabalhar em uma atividade em par. Então, para metade dos alunos, o pesquisador disse que a atividade em par não poderia ser realizada pois ninguém o havia escolhido (rejeição social). Para a outra metade, o pesquisador disse que, como todos os outros membros o escolheram, a atividade em par não poderia ser realizada (aceitação social). O desejo pelo dinheiro foi acessado de três maneiras diferentes. Na primeira, os pesquisadores pediram que os participantes desenhassem uma moeda de 1 Iuane (moeda chinesa). Estudos anteriores demonstraram que pessoas que desejam/precisam de dinheiro tendem a fazer desenhos maiores de moedas. Na segunda, cada participante recebeu uma lista de coisas boas (chocolate, praia, pôr-do-sol, etc.) e depois indicaram quais dessas coisas (mais de uma opção era possível) eles trocariam por 10 milhões de Iuanes (o equivalente a 2 milhões de Reais). Por último, assim que os estudantes estavam saindo do laboratório, um outro pesquisador disfarçado pedia uma doação para um orfanato. Os resultados do primeiro experimento indicaram que os participantes rejeitados desenharam moedas maiores, trocariam mais coisas por dinheiro e doaram menos para o orfanato.Uma vez que existe evidência de que a dor física é semelhante à "dor" da rejeição social, o segundo experimento testou em que medida a idéia da dor física também influencia o desejo por dinheiro. Para ativar a idéia de dor, participantes executaram uma tarefa de completação de palavras. Um grupo completou 30 palavras representando conceitos neutros, enquanto o outro grupo completou 10 palavras relacionadas à dor (dor-de-cabeça, inflamação, dor-de-dente, etc.) e 20 palavras neutras. Para acessar o desejo pelo dinheiro, os participantes completaram uma tarefa envolvendo tamanho de moedas, e depois executaram uma tarefa semelhante à lista de coisas boas do experimento anterior. Os resultados mostraram que, comparado com o grupo neutro, o grupo "dor" escolheu moedas "maiores" e trocou mais coisas boas por dinheiro.O experimento III testou em que medida pensar sobre dinheiro diminui o sofrimento advindo de problemas, incluindo rejeição social. Para um grupo de participantes, os pesquisadores deram 80 notas de 100 dólares para contarem (grupo dinheiro) enquanto o outro grupo tinha a tarefa de contar 80 pedaços de papel em branco (grupo papel). Após essa tarefa, os participantes jogaram um jogo em que eram rejeitados (grupo rejeição) ou não (grupo aceitação). No final, os participantes responderam à escala Southampton Social Self-Esteem Scale, escala que mede estresse social. Os resultados mostraram que o grupo rejeição, assim como o grupo dinheiro, teve maiores escores na escala de estresse social. Segundo os pesquisadores, contar dinheiro ao invés de papel reduz o estresse causado pela rejeição social.O experimento IV testou em que medida contar dinheiro reduz a dor física, assim como reduziu a dor social. Assim como no experimento anterior, participantes contaram dinheiro ou papel. Para acessar dor física, participantes relatavam o tamanho da dor que sentiam ao colocar a mão em um pote com água muito quente (muita dor) ou em um pote com água mais-ou-menos quente (pouca dor). Assim como no experimento anterior, houve uma interação significativa entre o fator contar dinheiro e o fator temperatura da água: participantes que contaram dinheiro, relataram muito mais dor na condição muita dor do que os participantes que contaram papel.No experimento V, os pesquisadores testaram a hipótese de que a "perda" de dinheiro aumentaria o estresse causado pela rejeição social. Para um grupo de participantes, o pesquisador pediu que listassem os gastos dos últimos trinta dias. O outro grupo listou as condições do tempo dos últimos trinta dias. As outras medidas foram semelhantes às utilizadas no experimento III. Assim como nos outros experimentos, os resultados mostram que o grupo que listou os gastos teve o escore na escala de estresse social mais alto que o grupo que listou as condições do tempo.Finalmente, o experimento VI testou a hipótese de que a "perda" de dinheiro influenciaria a percepção de dor física, assim como no experimento IV. Com manipulações semelhantes, os pesquisadores mostraram que o grupo que listou os gastos relatou uma dor maior que o grupo que listou as condições do tempo.Todos esses experimentos juntos mostram evidência clara de que o dinheiro tem um papel importante na qualidade das relações sociais humanas. Uma vez que estresse social está intimamente ligado à auto-confiança dos membros de um grupo social, os experimentos mostram que, de alguma forma, a presença (e/ou ausência) de dinheiro influencia a auto-confiança das pessoas.Certamente, esses os resultados não podem ser tomados como conclusivos. A única certeza que podemos ter é a de que os cinco sortudos, ganhadores da Mega-Sena, não terão que se preocupar, por um longo período de tempo, com estresse de natureza financeira. Talvez o único estresse seja o de saber o que fazer com tanto dinheiro!Fique ligado para mais posts com experimentos bacanas realizados pelo mundo afora!Referência: Zhou, X., Vohs, K., & Baumeister, R. (2009). The Symbolic Power of Money: Reminders of Money Alter Social Distress and Physical Pain Psychological Science, 20 (6), 700-706 DOI: 10.1111/j.1467-9280.2009.02353.x... Read more »

  • September 28, 2009
  • 07:10 PM
  • 349 views

Embodied Cognition I: A Importância do Peso

by Andre Souza in ***Cognando***

Muitas vezes na vida, precisamos tomar decisões importantes. Muitas pessoas não gostam de tomar decisões sozinhos e acabam pedindo a opinião de amigos e parentes. Temos a intuição, no entanto, que algumas opiniões têm mais peso que outras. Em outras palavras, julgamos as opiniões de peso como sendo mais importantes que outras.Não estou interessado hoje, na dinâmica de tomada de decisões a partir da opinião de outras pessoas. Estou particularmente interessado na expressão "opinião de peso". Por que será que utilizamos tal expressão para conotar "opinião importante"? Por que associamos a noção física de "peso" à noção abstrata de "importância"?Uma das correntes teóricas recentes da Psicologia Cognitiva, conhecida como Embodied Cognition, tem tentado explicar esse fenômeno. NOTA: já encontrei na literatura em língua portuguesa várias traduções para o termo Embodied Cognition: Cognição Corporificada, Encorpada, Encarnada, Corporizada, e por aí vai. Como parece não haver consenso no termo em português, vou utilizar a expressão em inglês mesmo.De acordo com a posição adotada pela Embodied Cognition, os conceitos que populam o nosso conhecimento, ou seja, nossas representações mentais -- por mais abtratas que sejam -- estão fundamentadas no nosso sistema sensório-motor. Por exemplo, sabemos que para lidar com objetos pesados precisamos de mais energia, mais esforço físico e mais planejamento cognitivo. Assim, as pessoas parecem associar as experiências com objetos pesados com maior esforço físico e cognitivo. E uma vez que decisões importantes, na sua maioiria, requerem maior processamento cognitivo, há a possibilidade de que a nossa concepção abstrata de importância esteja ainda fundamentada nas nossas experiências sensório-motoras com objetos pesados.Para testar essa idéia, Nils Jostmann (University of Amsterdã), Daniël Lakens (Ultrecht University) e Thomas Schubert (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - Portugal) fizeram uma série de exprimentos super interessantes. O estudo foi publicado no periódico Psychological Science de Setembro. Basicamente, os pesquisadores estavam interessados em verificar em que medida a noção de importância é uma noção corporificada e fundamentada na noção de peso.No primeiro estudo, os pesquisadores pediram a um grupo de estudantes que julgassem o valor monetário de várias moedas de vários países. Por exemplo: eles tinham que dizer quantos Euros eram necessários para comprar 200 Ienes, ou 1 Franco Suiço, etc.). No entanto, metade dos estudantes responderam ao questionário segundo uma prancheta que pesava 675 gramas, enquanto a outra metade segurava uma prancheta pesando 1 quilo.Surpreendentemente, os pesquisadores encontraram que a média de valor monetário atribuída pelos estudantes segurando a prancheta de 1 quilo foi significativamente maior que a média de valor monetário atribuído pelo grupo de estudantes que segurava a prancheta mais leve. Os resultados sugerem que a experiência física com a prancheta pesada influenciou o julgamento de valor monetário dos partipantes da pesquisa.No estudo II, os pesquisadores investigaram a mesma coisa, porém com o conceito abstrato de justiça. Os participantes tinham que julgar o quão importante eles achavam que era ter a voz ouvida em uma situação de tomada de decisão. A manipulação das pranchetas foi a mesma do estudo I. Novamente, os resultados mostraram que o grupo que utilizou a prancheta pesada julgou a participação em tomadas de decisões como sendo mais importantes que o grupo da prancheta leve.No estudo III, com a mesma manipulação, os pesquisadores investigaram em que medida a prancheta pesada influenciaria os participantes a utilizarem estratégias cognitivas mais elaboradas. Para medir o grau de elaboração, os pesquisadores acessaram o grau de consistência entre julgamentos distintos, porém relacionados: os participantes tinham que julgar o nível de satisfação com (1) administração da cidade e (2) nível de satisfação com o prefeito da cidade.Novamente, os participantes com a prancheta pesada mostraram uma consistência muito maior nos julgamentos do que os participantes da prancheta leve.O estudo IV foi bem semelhante ao III, no entanto os participantes tinham que indicar o grau de concordância com uma série de argumentos relacionados à uma construção de natureza controversa que estava ocorrendo na cidade na época da coleta de dados. A hipótese era de que, os participantes com a prancheta pesada fossem concordar mais com os argumentos "mais fortes" e discordar mais dos argumentos "mais fracos". Nesse estudo, os participantes foram entrevistados na rua ao invés do laboratório. Novamente, os resultados foram consistentes com os outros estudantes. Os participantes com a prancheta pesada tenderam a concordar mais com os argumentos positivos mais fortes e discordar mais dos argumentos mais fracos.Todas as diferenças acima foram estatisticamente significativas!Em conjunto, os resultados sugerem que a experiência física com peso parece sim fazer parte da nossa representação de conceitos. No final das contas, as forças gravitacionais (que têm papel importante na constituição do peso dos objetos) parecem nos afetar muito além das nossas ações físicas. Afetam também nossas representações mais abstratas.Nos próximos posts vou falar mais de sobre Embodied Cognition e as pesquisas legais que rolam nessa área.Stay tuned! ;-)Referência:Jostmann NB, Lakens D, & Schubert TW (2009). Weight as an embodiment of importance. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 20 (9), 1169-74 PMID: 19686292... Read more »

Jostmann NB, Lakens D, & Schubert TW. (2009) Weight as an embodiment of importance. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 20(9), 1169-74. PMID: 19686292  

  • September 25, 2009
  • 12:27 PM
  • 345 views

Infidelidade: Como funciona nossa cognição quando desconfiamos que estamos sendo traídos?

by Andre Souza in ***Cognando***

... Read more »

Maner JK, Miller SL, Rouby DA, & Gailliot MT. (2009) Intrasexual vigilance: the implicit cognition of romantic rivalry. Journal of personality and social psychology, 97(1), 74-87. PMID: 19586241  

  • November 19, 2009
  • 12:00 AM
  • 297 views

Intervalo de Estudo e Retomada de Atenção

by Andre Souza in ***Cognando***

É interessante notar como o comportamento humano se repete a cada ano: todo final de semestre letivo, por exemplo, é a mesma história: professores cheios de provas e trabalhos para corrigir e estudantes cheios de trabalhos para fazer e provas para estudar.... Read more »

  • March 21, 2010
  • 04:44 AM
  • 290 views

As Vantagens Cognitivas de um Programa de Imersão em Língua Estrangeira

by Andre Souza in ***Cognando***

Uma das minhas principais linhas de pesquisa é aquisição da linguagem. É por isso que uma das coisas que mais gosto de fazer é observar a maneira como crianças aprendem a falar. É ainda mais fascinante para mim -- e super intrigante -- a rapidez com que crianças pequenas se tornam proficientes em uma língua estrangeira. Com praticamente um ano -- ou até menos -- de "contato" com uma língua estrangeira, os pequenos já se comunicam na língua estrangeira (e obviamente na materna) com uma facilidade e proficiência que assustam.É grande, em psicolingüística, o número de pesquisas sobre os processos que ocorrem na cabeça de um falante bilíngue. Essas pesquisas têm cada vez mais mostrado evidência de que esses falantes ativam as duas línguas (L1 - língua materna e L2 - língua estrangeira) simultaneamente durante a leitura, escuta e, surpreendentemente, durante a fala. Basicamente o que essas pesquisas mostram é que não existe uma estratégia cognitiva automática que "desliga" uma língua enquanto a outra está sendo usada. É por isso que falantes bilíngues, na verdade, enfrentam um "desafio" cognitivo quando usam uma das línguas que sabe. De certa maneira, é esse desafio cognitivo enfrentado pelo falante bilíngue que faz com que falantes bilíngues tenham certas vantagens cognitivas (em termos de funções executivas) quando comparados com falantes monolíngues. Em outras palavras, falar mais de uma língua faz bem traz vantagens cognitivas a longo prazo.Ao mesmo tempo que observamos crianças aprendendo uma língua estrangeira numa facilidade e rapidez assustadora, notamos que falantes adultos apresentam uma dificuldade muito grande em se tornarem proficientes em uma língua estrangeira. Muita gente acredita no que chamamos de "período crítico", ou seja, se não aprender uma língua estrangeira até uma certa idade, as chances de se tornar proficiente nessa língua são poucas, quando nenhuma. É como se existisse uma "ampulheta biológica" para aprender uma língua estrangeira. Uma vez que a areia caiu toda, seu prazo venceu.No entanto, o que pode criar essa dificuldade na aquisição de uma língua estrangeira para o adulto, pode não ser um portal biológico que se fecha depois de certo tempo, e sim uma competição cognitiva entre as duas línguas. Em outras palavras, é mais difícil para um adulto "desligar" a ativação da sua L1, dificultando assim o uso da L2.Muitas pessoas têm a crença de que para que um adulto se torne proficiente em uma língua estrangeira é necessário que esse adulto esteja imerso em um ambiente onde a língua estrangeira em questão é falada o tempo todo. Em outras palavras, um brasileiro adulto se torna mais proficiente em inglês se morar nos Estados Unidos ou na Inglaterra, por exemplo. Por que será que isso ocorre? Uma hipótese seria que um ambiente de imersão facilita a inibição (desligamento) da L1, consequentemente, a ajuda no desenvolvimento da L2.Jared Linck, Judith Kroll -- do Departamento de Psicologia da Universidade do Estado da Pensilvânia -- e Gretchen Sunderman -- do Departamento de Línguas Modernas da Universidade do Estado da Flórida nos Estados Unidos -- fizeram um estudo (publicado na Psychological Science) para testar essa hipótese. Basicamente eles testaram dois grupos de aprendizes de espanhol (falantes nativos de inglês): um grupo que estudou espanhol durante seis meses na Espanha e um grupo que estudou espanhol durante seis meses em uma universidade dos Estados Unidos. Cada grupo participou de uma tarefa de compreensão conhecida como translation recognition task e de uma tarefa de produção (verbal fluency task). Além disso, os participants fizeram tarefas de memória (reading-span) e de controle inibitório (Simon effect task).A tarefa de compreensão consiste na apresentação de uma série de pares de palavras -- uma na língua estrangeira e sua tradução na língua materna (i.e., cara-face). Ao ver o par, o participante deve indicar se a tradução está correta ou não. No entanto, durante a tarefa são introduzidos alguns pares que:(1) apresentam uma tradução incorreta, porém a tradução é parecida com a palavra na língua materna (i.e., cara-card)(2) apresentam uma tradução incorreta, porém a tradução é semanticamente relacionada com a palavra na língua materna (i.e., cara-head)(3) apresentam uma tradução incorreta, porém a tradução é fonologicamente semelhante a tradução correta na língua estrangeira (i.e., cara-fact)Pesquisas mostram que falantes proficiente em uma língua estrangeira são menos sensíveis a distratores do tipo (3). Isso ocorre pois falantes proficientes devem ser mais capazes de "inibir" a língua materna.A tarefa de produção verbal consiste na produção de o máximo de palavras possíveis de uma dada categoria. Por exemplo, em 30 segundos, os participantes tinham que falar o maior número possível de animais. Pesquisas mostram que falantes bilíngues produzem menos palavras por categoria, tanto na língua materna quanto na língua estrangeira.A tarefa de memória (reading-span) é clássica e consiste em mostrar os participantes uma série de frases e palavras para serem lembradas. O número de palavras lembradas corresponde ao "tamanho" da memória de curto-prazo. A tarefa de controle inibitório é parecida com o famoso Stroop test, onde você vê a palavra VERDE escrita de vermelho e precisa dizer o nome da cor da letra e não o que está escrito. Em outras palavras, você precisa inibir um processo para engajar em outro.Os resultados do estudo mostraram que em todas as tarefas linguísticas, o acesso a L1 foi menor para o grupo que participou da imersão. Esse padrão continuou mesmo após o controle de outras variáveis, tais como proficiência e experiência linguística com a língua estrangeira anterior ao programa de imersão (vale a pena dar uma olhada no estudo original e na técnica estatística utilizada pelos autores -- Multilevel Modeling). Muita gente pode pensar que esse resultado ocorreu não por que houve inibição da língua materna e sim por que houve uma maior exposição à língua estrangeira (um efeito de frequência, quase). Para controlar isso, os autores testaram uma amostra dos participantes que fizeram o programa de imersão seis meses depois que retornam aos Estados Unidos. O padrão dos resultados foi praticamente o mesmo. Se somente o contato com a língua estrangeira fosse responsável pelo padrão de resultado, esperaria-se que ao retornarem aos Estados Unidos a inibição da língua materna seria novamente dificultada.Outros controles interessantes e outras análises foram feitas no estudo. Vale a pena dar uma olhada. Basicamente o estudo mostra que, a vantagem que um programa de imersão tem para a aquisição de uma língua estrangeira não está na simples exposição à essa língua, e sim no impacto que essa exposição tem no controle inibitório da sua língua materna. Mais uma vez, não há dúvidas de que a exposição à uma língua estrangeira traz vantagens cognitivas que nenhuma outra tarefa pode trazer.A mensagem que fica é: quando não estiver lendo o ***Cognando*** vá estudar uma língua estrangeira! :)Linck JA, Kroll JF, & Sunderman G (2009). Losing Access to the Native Language While Immersed in a Second Language: Evidence for the Role of Inhibition in Second-Language Learning. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS PMID: 19906121... Read more »

  • September 24, 2010
  • 09:27 PM
  • 266 views

Terminar ou Perdoar? Veja Como Homens e Mulheres Agem Quando Descobrem Que Foram Traídos.

by Andre Souza in ***Cognando***

O que você faria se descobrisse que está sendo traído? Vamos ser mais específico: o que você faria se descobrisse que seu namorado está sexualmente envolvido com uma outra garota? Ou se descobrisse que sua namorada está emocionalmente envolvida com outro rapaz? Infidelidade -- seja ela sexual ou emocional -- é um problema enfrentado por muitos casais. Quando uma pessoa descobre a infidelidade do parceiro(a), ela deve enfrentar e tomar uma importante decisão: perdoar ou terminar o relacionamento?De acordo com a teoria evolucionista, homens e mulheres enfrentaram pressões diferentes ao longo da história no que diz respeito à infidelidade. E por isso, homens e mulheres tendem a agir de maneira distinta quando descobrem a infidelidade do parceiro.Todd Shackelford (Florida Atlantic University), David Buss (University of Texas at Austin) e Kevin Bennett (University of New Mexico) investigaram essas diferenças em um estudo publicado em 2001. Esses pesquisadores exploraram a idéia de que (1) homens tendem a achar mais difícil perdoar traições sexuais do que traições emocionais e (2) homens tendem a terminar o relacionamento depois de uma traição. Mulheres, ao contrário, tendem a perdoar mais traições sexuais do que traições emocionais.No estudo, os pesquisadores apresentaram o seguinte dilema aos participantes:Pense em um relacionamento sério que já teve no passado, que tem atualmente ou que pretende ter no futuro. Imagine que você descubra que a pessoa com quem está tendo o relacionamento está seriamente envolvida com outra pessoa. Para cada uma das perguntas, circule apenas uma resposta (A) ou (B):O que te deixaria com mais raiva?(A) Imaginar seu parceiro(a) tendo relação sexual com a outra pessoa.(B) Imaginar seu parceiro(a) apaixonado (emocionalmente envolvido) com a outra pessoa.Para esse dilema, os pesquisadores encontraram que mulheres ficam com muito mais raiva de traíções emocionais (imaginando o parceiro emocionalmente envolvido com outra pessoa) do que traições sexuais. Homens, ao contrário, ficam muito mais balançados com a parceira mantendo relações sexuais com outro homem do que qualquer tipo de envolvimento emocional. Daqui a pouco explico por que isso acontece.O outro dilema apresentado pelos pesquisadores foi:Pense em um relacionamento sério que já teve no passado, que tem atualmente ou que pretende ter no futuro. Imagine que você descubra que a pessoa com quem está tendo o relacionamento está seriamente envolvida com outra pessoa. Para cada uma das perguntas, circule apenas uma resposta (A) ou (B):O que você acha mais difícil de perdoar?(A) Saber que seu parceiro(a) manteve relação sexual com a outra pessoa.(B) Saber que seu parceiro está apaixonado(a) pela outra pessoa.O que te faria terminar o seu relacionamento com o seu parceiro(a)?(A) Saber que seu parceiro(a) manteve relação sexual com a outra pessoa.(B) Saber que seu parceiro está apaixonado(a) pela outra pessoa.O mesmo padrão de resultado apareceu aqui. Homens acham mais difícil perdoar traição sexual do que traição emocional. E homens tendem a terminar o relacionamento quando o tipo de traição é sexual. As mulheres apresentaram comportamento oposto: acham mais difícil perdoar parceiros que se envolveram emocionalmente com outra mulher e tendem a terminar o relacionamento quando esse é o tipo de traição que descobrem.A pergunta é: por que mulheres e homens agem dessa diferentemente a depender do tipo de traição? A explicação evolucionista é a seguinte: durante a evolução da espécie humana, tanto homens quanto mulheres enfrentaram os custos de uma infidelidade. Para o homem, ter uma mulher infiél significava que ele poderia estar investindo suas fontes de energia em um filho que não é dele. E como filhos são resultados de atos sexuais, para o homem, a mulher manter relações sexuais com outros homens era um risco muito maior do que o envolvimento emocional da mulher com outro homem (o que não resulta necessariamente em reprodução).Já para a mulher, um envolvimento emocional do parceiro significa que a fonte de compromentimento e investimento para cuidar do filho está ameaçada. É como se a fonte de comprometimento e investimento estivesse agora sendo direcionada à um outro produto da reprodução.Para a Psicologia Evolucionista, essas características da evolução desenvolveram mecanismos cognitivos que moldam, até hoje, o comportamento de homens e mulheres no que diz respeito ao seu comportamento sexual e amoroso. Socialmente homens são conhecidos como mais "sexualmente" direcionados, ao passo que mulheres são mais "emocionalmente" envolvidas em relacionamentos. Parte dessas características é "explicada" pela Psicologia Evolucionista.No final das contas, não fique supreso se o seu parceiro(a) agir de uma forma diferente do que você agiria, caso a infidelidade venha à tona. A culpa não é totalmente dele(a), mas também dos seus ancestrais.Referência:Shackelford, T., Buss, D., & Bennett, K. (2002). Forgiveness or breakup: Sex differences in responses to a partner's infidelity Cognition & Emotion, 16 (2), 299-307 DOI: 10.1080/02699930143000202... Read more »

  • April 22, 2011
  • 02:01 AM
  • 253 views

Supercalifragilisticexpialidocious ou Dociousaliexpisticfragicalirepus?

by Andre Souza in ***Cognando***

Vou começar com uma confissão: o clássico da Disney "Mary Poppins" é sim um dos meus filmes favoritos. Fazer o que? Existe um fato curioso da minha relação com o filme: lembro de passar horas e  horas e horas tentando aprender a falar a palavra supercalifragilisticexpialidoucious (para quem quiser tentar, clique aqui). Sem saber, eu fazia o que fazem os experimentos clássicos de memória. Assistia à cena várias vezes, desligava a TV e tentava repetir a palavra. Por meses, sem sucesso!Palavras longas são mesmo difíceis de serem lembradas. Lembro que antes de estudar alemão, eu tinha a impressão de que seria preciso uma memória extraordinária para lembrar todas aquelas palavras gigantes (erfrischungsgetränk ainda é a minha favorita). No entanto, quem fala alemão fluentemente (obviamente incluindo os falantes nativos), sabe que não é necessário nenhum esforço sobre-humano para se comunicar em alemão.Em Psicologia Cognitiva, um dos tópicos mais estudados é a memória humana. Acho que todo mundo, pelo menos uma vez na vida, já ouviu falar nos termos memória de trabalho (ou memória de curto-prazo) e memória de longo-prazo. Sendo bem sucinto, quando se trata de informação verbal, a memória de curto-prazo utiliza um mecanismo (cunhado por Alan Baddeley e Graham Hitch em 1974) conhecido como "volta fonológica" (phonological loop). Basicamente ele diz que a capacidade limitada da memória de curto prazo está relacionada com a capacidade de reter traços fonológicos. É por esse motivo que lembrar palavras longas é muito mais difícil do que lembrar palavras mais curtas: simplesmente palavras longas têm mais sons e consequentemente envolve mais informação para ser lembrada.No entanto, algumas pesquisas têm sugerido que a representação fonológica envolvida na "volta fonológica" não está totalmente dissociada das representações semânticas (de significado) guardadas na memória de longo-prazo. Em outras palavras, se sabemos o significado da palavra, não importa o tamanho da palavra: vamos lembrá-la de qualquer maneira. É por isso que para mim -- um falante nativo da língua portuguesa -- é mais fácil aprender a palavra "otorrinolaringologista" do que aprender a palavra "erfrischungsgetränk". E aprender "erfrischunsgetränk" é muito mais fácil do que aprender "supercalifragilisticexpialidocious".Um estudo recente (e muito bacana) desenvolvido por Liz Jefferies, Clive Frankish e Katie Nobel (todos na Inglaterra) mostrou mais evidência em favor disso. Na verdade eles mostraram que, a depender de como você apresenta uma lista de palavras (misturada com pseudo-palavras - tipo NOGUM) ou associadas semanticamente (tipo: MESA e CADEIRA), palavras longas são lembradas mais facilmente que palavras pequenas. Em outras palavras: no estudo deles, as palavras longas eram lembradas muito mais facilmente do que as pseudo-palavras curtas, mostrando que saber o significado da palavra tem sim um papel super importante em como os traços fonológicos são representados na memória de curto-prazo.Com isso em mente, minha meta agora é aprender a palavra supercalifragilisticexpialidocious ao contrário. Talvez basta eu associar um significado à ela???Referência:Jefferies, E., Frankish, C., & Noble, K. (2011). Strong and long: Effects of word length on phonological binding in verbal short-term memory The Quarterly Journal of Experimental Psychology, 64 (2), 241-260 DOI: 10.1080/17470218.2010.495159... Read more »

  • March 15, 2010
  • 02:46 PM
  • 251 views

Infidelidade Sexual e Emocional Através da Internet.

by Andre Souza in ***Cognando***

Devido ao interesse das pessoas na minha última postagem (e obviamente meu interesse no assunto), resolvi postar novamente sobre relacionamentos, ciúmes e o papel da internet nessa mistura. Algumas pessoas me escreveram com perguntas sobre o que realmente é esse sentimento chamado "ciúme" e por que a gente sente isso. Em psicologia, existem várias definições distintas para o que é e pra que serve o sentimento de ciúme. Popularmente, é muito comum que as pessoas digam que "um pouco de ciúme no relacionamento é bom uma vez que isso mostra que gostamos do nosso parceiro".Para psicologia evolucionista, no entanto, o motivo e a função do sentimento de ciúme é outro. Para eles, ciúme é uma reação negativa que um dos membros de um relacionamento tem em relação ao envolvimento sexual e emocional do parceiro com outra pessoa. Vale a pena mencionar que esse envolvimento pode ser real ou mesmo imaginário. Mas pra que serve esse sentimento? Basicamente, ciúme é um mecanismo que se desenvolveu através da evolução do ser humano para proteger os casais de possíveis rivais. Em outras palavras, a possibilidade de seu parceiro estar envolvido, tanto emocional quanto sexualmente com outra pessoa, traz um "risco" para o bem-estar do casal. O sentimento de ciúme é um mecanismo que protege o casal e evita que esse "risco" se torne uma realidade e, consequentemente, acabe com o relacionamento amoroso do casal.O que é interessante notar é que homens e mulheres demonstram tipos diferentes de ciúmes. Vários estudos mostram que homens são mais sensíveis (e sentem mais ciúmes) do envolvimento sexual da parceira com outra pessoa. Em outras palavras, homens se preocupam com a ameaça da parceira se envolver em relações sexuais com outros homens. Já a mulher é mais sensível ao envolvimento emocional do parceiro com outras mulheres. Assim, mulheres sentem mais ciúmes quando o parceiro dedica mais tempo e energia a uma outra mulher (gasta mais dinheiro, ajuda no trabalho, ou mesmo quando carrega uma bolsa ou ajuda com uma mudança, por exemplo). Segundo os psicólogos evolucionistas, essa diferença é causada pelas diferentes pressões sociais que homens e mulheres sofrem.O que vem me chamando atenção recentemente, no entanto, é como a internet cada vez mais influencia (para o bem e para o mal) o bem-estar de casais. Na postagem anterior, eu falei um pouco sobre o papel de sites de relacionamento tais como Orkut e Facebook na incidência de casos de ciúme. Na presente postagem, vou falar de uma pesquisa, desenvolvida na Holanda, que mostra como homens e mulheres vêem a "traição online". A pergunta básica foi: será que as mesmas pressões sociais envolvidas na ameaça de traição offline estão envolvidas na traição online?Antes de falar da pesquisa em si, os autores (Hinke Groothof, Pieternel Dijkstra e Dick Barelds) abordam um assunto que parece muito interessante, e que eu vejo MUITOS casais conversando sobre isso. Se o seu namorado ou namorada se envolve em conversas online de caráter sexual, isso conta como traição? Outra coisa: se o seu parceiro ou parceira se masturba durante uma conversa online de caráter sexual, isso conta como traição? E se ele se envolve apenas emocionalmente com alguém online? Seria isso traição?Várias pesquisas mostram que quase 85% dos casais acham que esses tipos de atividades virtuais SÃO traições, mesmo que não envolvam nenhum tipo de contato físico. Interessante notar que, para mulheres, apenas uma conversa mais íntima ou emocional (sem conotações sexuais necessariamente) já são consideradas atos de traição. O estudo de Hinke Groothof e colaboradores investigou se os mesmo padrão de ciúme encontrados em relacionamentos offline também ocorrem no ambiente online.Basicamente, os participantes da pesquisa leram uma série de dilemas envolvendo traição sexual (uma pessoa se masturbando pela webcam) e traição emocional (uma pessoa emocionalmente se relacionando com outra pessoa pela internet). Os resultados mostraram que, assim como em outras pesquisas, 86% dos homens sentiram mais ciúmes da traição sexual do que da traição emocional. No entanto, foi interessante notar que as mulheres sentiram mais ciúmes da traição sexual, quando essas envolviam o parceiro dizendo que estaria disposto a tentar "posições sexuais diferentes" com a parceira virtual. De uma maneira geral, os padrões de ciúmes para traição virtual parece ser o mesmo que o padrão de ciúmes para traição offline.Basicamente, o estudo sugere que o mecanismo psicológico envolvido na emergência do sentimento de ciúme para traições online é o mesmo envolvido na emergência de ciúmes em traições offline. Uma possibilidade que pode explicar isso é que, talvez, o nosso cérebro registra atos físicos (reais) e virtuais de maneira semelhante. Uma outra possibilidade que pode explicar esse padrão é o fato que de, na verdade, os participantes vêem as traições virtuais como o começo e a possibilidade de uma traição "real"ou offline. Existem muitos casos de casais que começaram o relacionamento de maneira virtual. Pode ser que, na verdade, as pessoas vêem a traição online como o começo de uma traição offline.Mais uma vez, o que um estudo como esse deixa de lição pra gente é que devemos saber e entender o impactos que as novas mídias, tais como internet, sites de relacionamento, etc. têm no bem-estar do nosso relacionamento. É importante saber de onde vêm os sentimentos de ciúmes e, de alguma forma, tentar amenizá-los de forma que o sentimento não cresça o suficiente para fazer com que a vida amorosa do casal vire um inferno! :-)Groothof, H., Dijkstra, P., & Barelds, D. (2009). Sex differences in jealousy: The case of Internet infidelity Journal of Social and Personal Relationships, 26 (8), 1119-1129 DOI: 10.1177/0265407509348003... Read more »

Groothof, H., Dijkstra, P., & Barelds, D. (2009) Sex differences in jealousy: The case of Internet infidelity. Journal of Social and Personal Relationships, 26(8), 1119-1129. DOI: 10.1177/0265407509348003  

  • March 13, 2010
  • 01:35 PM
  • 246 views

Orkut, Facebook e os Problemas no Relacionamento

by Andre Souza in ***Cognando***

Muito tempo sem postar nada! Na verdade, essa é a minha primeira postagem de 2010. Assim sendo: Feliz Ano Novo!!! Muita paz e amor pra todo mundo!!!E por falar em amor, eu decidi postar sobre um assunto que parece ser bem interessante e, de certa forma, bem contemporâneo. Todos nós conhecemos casos de ciúme em relacionamentos: sabemos de casos de um ex-namorado que assombra a paz de um casal, ou é um amigo ou amiga que, devido ao excesso de intimidade ou por causa de uma amizade "muito próxima", tem problemas em estabelecer limites claros entre o que é aceitável em uma amizade e o que não é.Episódios de ciúme em relacionamentos amorosos certamente são, a longo-prazo, altamente prejudiciais para a harmonia do casal. Esses episódios aumentam a desconfiança entre casal, aumenta a probabilidade de haver mentiras e segredos entre os casais e, consequentemente, aumenta a possibilidade de infidelidade.Atualmente, uma fonte muito comum de atritos em relacionamentos amorosos (principalmente atritos relacionados com ciúmes e insegurança de infidelidade) são os conhecidos sites de relacionamento, tais como Orkut e Facebook. O principal objetivo desses sites de relacionamento é manter uma rede de "amigos", onde a comunicação é facilitada e, principalmente, a distância entre as pessoas é reduzida. No entanto, o surgimento desses tipo de relacionamentos de amizade trouxe também mudanças importantes em termos de como as pessoas se relacionam com os membros do seu círculo de amizade. Talvez a mudança mais crucial está em como essas relações de amizade são expostas e compartilhadas com outras pessoas, incluindo parceiros amorosos. Basicamente, o que antigamente fazia parte da vida particular de uma pessoa (a forma como seu amigo de trabalho o cumprimenta pela manhã, ou a forma com se deseja um "Feliz Aniversário") passa, através dessas redes de relacionamento, a fazer parte do espaço público.Consequentemente, não é surpreendente que sites tais como Orkut e Facebook são constantemente referidos como as principais causas de brigas e desavenças amorosas. Na maioria das vezes causada por ciúmes de uma das partes. Aualmente, Orkut indiretamente causa mais desavenças em relacionamento do que ex-parceiros amorosos, ou amigos muito próximos.Existem vários estudos em psicologia que tentam entender as bases e causas desse sentimento conhecido como "ciume". Vários estudos mostram que sentimentos de ciúme variam a depender:(a) do nível de confiança entre os parceiros, ou seja, quanto menor a confiança, maior o número de episódios de ciúmes.(b) da crença na falta de envolvimento de um dos parceiros no relacionamento. Em outras palavras, se há uma crença de que um dos parceiros não está 100% envolvido e compromentido com o relacionamento, geralmente o número de episódios de ciúme são maiores(c) do nível de auto-estima. Pessoas com baixa auto-estima tendem a sentir mais ciúmes dos parceirosUm estudo interessante feito na Universidade de Guelph no Canadá (conduzido por Amy Muise e colaboradores) explorou o papel de sites de relacionamento, tais como Facebook e Orkut, no aumento do sentimento de ciúmes e, consequentemente, desavenças entre casais. Esses pesquisadores desenvolveram uma medida da "quantidade de ciúme" que esses sites provocam e também mediram o nível de confiança, auto-estima e tendência a sentir ciúmes.Os dados descritivos são bem interessantes. Em média, as pessoas gastam de 30 a 40 minutos nessas redes sociais. Quase 80% das pessoas adicionam namorados e parceiros antigos à sua rede de amigos. Geralmente mulheres gastam mais tempo navegando por esses sites do que homens. Essa diferença foi estatisticamente significativa. Também interessante notar que as mulheres tendem a sentir mais ciúmes do que os homens ao navegar no Facebook ou Orkut.Uma análise de Regressão Múltipla revelou resultados interessantes. Primeiramente, quanto mais tempo uma pessoa gasta navegando por esses sites de relacionamento, mais ciúme a pessoa tende a sentir do parceiro(a) amoroso(a). Apesar de fatores de personalidade também contribuirem para o sentimento de ciúme, esses fatores contribuíram, juntos, apenas 2%.Por que será que quanto maior o tempo de navegação nesses sites, maior a tendência de sentir ciúmes? Uma das possibilidades discutidas pelos autores é o fato de que um maior tempo de exposição aos sites aumenta a quantidade de informação que você pode ter acesso com relação so seu parceiro ou parceira. Ou seja, quanto mais informação sobre quem são os amigos(as) e o que eles dizem e fazem, maior a probabilidade dessas informações causarem sentimentos de ciúmes.Um outro fato interessante apontado pelos pesquisadores é isso pode ser um círculo vicioso, ou seja, quanto mais tempo navegando pelo site Orkut ou Facebook, mais informação você obtém sobre o seu parceiro(a) e quanto mais informação você tem, maior a tendência de navegar por mais tempo. Em outras palavras, o sentimento de ciúme para estar preso a esse círculo em que o tempo aumenta a quantidade de informação e esse por sua vez aumenta o tempo de navegação.Em suma, o estudo é bem interessante e a mensagem que ele deixa é a seguinte: se você é do tipo de pessoa que tem uma tendência a sentir ciúmes do seu parceiro(a) e quer o bem estar do relacionamento, diminua o tempo de exposição/navegação nos sites de socialização. Passe menos tempo monitorando seu namorado(a) no Orkut ou Facebook, uma vez que esses sites contém informações sobre eles que não são necessariamente as informações que você gostaria de saber e ter.Aproveite o tempo que passaria navegando no Orkut ou Facebook para tomar um chá, ou então ler o blog ***Cognando*** :-)Muise A, Christofides E, & Desmarais S (2009). More information than you ever wanted: does Facebook bring out the green-eyed monster of jealousy? Cyberpsychology & behavior : the impact of the Internet, multimedia and virtual reality on behavior and society, 12 (4), 441-4 PMID: 19366318... Read more »

  • November 15, 2010
  • 08:54 AM
  • 245 views

Por que Fazemos Sexo?

by Andre Souza in ***Cognando***

Viver com uma outra pessoa é complicado. Ter uma relação afetiva madura é difícil. Ter uma vida sexual harmoniosa é mais complicado ainda. Vários casais sofrem com questões relacioandas à vida sexual. As vezes um quer, mas o outro não quer. Hoje ela está com dor de cabeça. Ontem ele estava cansado e dormiu. Como diz a psicóloga Silvana Martani, após um dia corrido de preocupações e trabalhos, homens e mulheres não conseguem encarar a atividade sexual como algo prazeroso -- o que algumas pessoas chamam de preguiça sexual. Um outro problema comum é a falta de apetite sexual que alguns casais enfretam com o passar dos anos de casados. Quanto mais tempo junto, menos se quer a outra pessoa. É por esse motivo que a Internet está cheia de dicas de como "apimentar" a vida sexual de casais casados e/ou juntos a muito tempo. A idéia básica é: a rotina é a principal inimiga de uma vida sexual ativa.Muita gente acredita que esses problemas na vida sexual ocorrem por que homens e mulheres vêem sexo de maneira diferente. Para os homens sexo é a busca do prazer físico. Não precisa ter amor. Se a mulher é bonita e a oportunidade surge, essa é a hora de fazer sexo. Já as mulheres são mais ligadas às facetas emotivas e afetivas da relação sexual. Desde que o homem lhe transmita confiança e seja uma pessoa com quem ela sente um afeto e carinho muito grande, essa á a hora de fazer amor. No final das contas, a pergunta real que devemos nos fazer é: por que fazemos sexo? Quais são os motivos que realmente nos levam a fazer sexo?Durante muito tempo, psicólogos achavam que os motivos eram poucos e psicologicamente simples. Não tem nada de muito complicado não: as pessoas fazem sexo para (1) fins reprodutivos, (2) sentir prazer e (3) aliviar a tensão sexual. No entanto, o ser humano é uma máquina altamente complexa. Somos complicados. Parece muito contra-intuitivo dizer que as razões que motivam o ser humano a se engajar em atividades sexuais sejam simples e poucas. Por esse motivo, alguns psicólogos começaram a sugerir que essas motivações eram mais variadas e psicologiacamente mais complexas.Os pesquisadores Cindy Meston e David Buss, ambos do Departamento de Psicologia da Universidade do Texas em Austin, investigaram, em um estudo super interessante, as razões que motivam o ser humano a fazer sexo. Foram dois estudos simples, mas com implicações importantes para a discussão sobre a qualidade da vida sexual de casais em geral.No primeiro estudo, os pesquisadores simplesmente pediram aos participantes (em torno de 440 pessoas) para listar todos os motivos que o levaram a fazer sexo com alguém. Eles podiam listar quantos motivos desejassem. Um total de 715 motivos foram coletados. Após uma triagem para exclusão de motivos parecidos e/ou idênticos, um total de 237 motivos distintos foram encontrados. Mesmo sem nenhum tratamento estatístico, o estudo incial já mostrou resultados interessantes. Os motivos foram os mais variados possíveis. Desde de motivos simples como "faço sexo por que é bom", ou "faço sexo quando me sinto atraído(a) pela outra pessoa", até motivos mais estranhos como "faço sexo pra me sentir perto de Deus" ou "faço sexo para transmitir DST para outras pessoas".No segundo estudo, os pesquisadores estavam interessados em investigar as diferenças entre homens e mulheres no que diz respeito aos motivos que os levam a fazer sexo. Basicamente eles mostraram os 237 motivos listados no primeiro estudo para um grupo de 1500 pessoas e essas pessoas tinham que responder, em uma escala de 1 a 5, o nível de concordância com cada um dos motivos. O interessante foi que os pesquisadores mostraram que, dos 10 motivos mais frequentes, 8 foram compartilhados por homens e mulheres. Em outras palavras, homens e mulheres elegeram os mesmos motivos de uma maneira geral. E mais interessante ainda: a grande maioria desses motivos eram de base física ("fiz por que estava excitado(a)", "queria ter prazer físico" ou "me senti atraído pela outra pessoa"). Mesmo mulheres -- consideradas pelo senso comum menos carnais e mais emotivas -- listaram objetivos como esses, como sendo os grandes motivadores da atividade sexual.Após essas primeiras constatações, os pesquisadores realizaram uma série de análises estatísticas (Factor Analysis e PCA) e agruparam os 237 motivos em sub-grupos e categorias. Essas outras análises -- que não vou entrar em detalhes aqui -- revelaram uma complexidade psicológica nas razões que motivam a atividade sexual. Por exemplo, o estudo mostrou que um motivo que pode ser visto pela população geral como sendo raro ("ficar próximo de Deus" ou "queria machucar a outra pessoa") são psicologicamente importantes para as pessoas que os escolheram.Quando as diferenças entre homens e mulheres foram analisadas de maneira mais sistemática, Cindy e David encontraram o que alguns pesquisadores já haviam antecipado: as motivações femininas são mais ligadas à emoção ("fiz para mostrar que amo meu parceiro") e elas preferem atividades sexuais com parceiros fixos (namorados ou marido). Já os homens escolheram motivações mais carnais e não mostraram preferência por relações duradouras.Vale ressaltar que  o prazer físico foi motivo válido tanto para os homens quanto para as mulheres. No entanto, para as mulheres o prazer físico deve ser necessariamente acompanhado de afeto e relacionamento duradouro, ao passo que para o homem, o fator afeto e relacionamento duradouro não faz tanta diferença.Mais uma vez, a mensagem que fica é: devemos buscar conhecer as motivações -- cognitivas ou não --  que impulsionam nossas ações (e as ações de nossos parceiros). A vida a dois já não é fácil. A não compreensão do que motiva as ações do seu(sua) parceiro(a) pode complicar ainda mais a relação.A outra dica que fica é: dor de cabeça não convence mais! :-)Referência:Meston, C., & Buss, D. (2007). Why Humans Have Sex Archives of Sexual Behavior, 36 (4), 477-507 DOI: 10.1007/s10508-007-9175-2... Read more »

Meston, C., & Buss, D. (2007) Why Humans Have Sex. Archives of Sexual Behavior, 36(4), 477-507. DOI: 10.1007/s10508-007-9175-2  

  • November 24, 2010
  • 10:07 PM
  • 242 views

Deixem Que as Crianças Perguntem.

by Andre Souza in ***Cognando***

Nós seres humanos gostamos de saber o porquê de tudo. Quem de nós nunca conversou com uma criança curiosa em saber por que o céu á azul, ou por que a luz acende quando apertamos o interruptor? Em outras palavras, desde cedo queremos sempre saber a causa das coisas. E mais interessante ainda, já aos três anos já explicamos as causas das coisas, ou o porquê que as coisas acontecem (pergunte a uma criança de três anos por que o céu é azul e tenho certeza que terá uma explicação bem pláusível -- pelo menos para ela).Explicar o porquê que as coisas acontecem é, na verdade, uma atividade intelectual muito boa e importante para o desenvolvimento da criança. Vários estudos mostram, por exemplo, que as crianças apredem matemática muito mais facilmente quando "explicam" um conceito, em oposição a quando elas apenas "lêem" ou "escutam" uma explicação sobre esse conceito. Por isso é importante que desde cedo incentivar o ato de criar explicações.Basicamente, existem dois tipos de eventos que as crianças podem explicar. Um evento que é consistente com o conhecimento anterior que a criança já possui e um acontecimento que é inconsistente com o conhecimento que a criança tem. Um exemplo: imagine que uma criança veja você apertar o interruptor para acender a luz do quarto. Como ela já viu você fazendo isso várias vezes antes, é parte do conhecimento prévio dela que a luz vai acenda. Isso é um acontecimento consistente com o conhecimento prévio da criança. Imagine, no entanto, que ao apertar o interruptor, a televisão ligue. Isso é um acontecimento que é inconsistente com o conhecimento prévio da criança.Um estudo recente publicado esse ano no periódico Child Development pelos pesquisadores Cristine Legare, Susan Gelman e Henry Wellman investigou que tipo de acontecimento (consistente ou inconsistente) incentiva mais explicações das crianças. Nesse estudo, as crianças viam uma caixa que se acendia (ou não) quando uma outra peça era colocada em cima dela. Os pesquisadores mostravam para a criança duas dessas caixas e mostravam como as caixas funcionavam (por exemplo, se colocar o cubo azul sobre a caixa ela acende, mas se colocar uma outra peça, ela não acende). Logo após a apresentação das duas caixas, as crianças tinham a oportunidade de fazer as caixinhas funcionarem. No entanto, quando elas tentavam, uma das caixinhas não funcionava de acordo com o que elas viram antes. O estudo mostrou que as crianças se interessaram muito mais pelos acontecimentos inconsistentes do que com os acontecimentos consistentes. Ou seja, preferiam explicações que tinham haver com o acontecimento inconsistente. E mais ainda. Os acontecimentos inconsistentes foram muito mais propícios a receber uma explicação causal por parte da criança. Em outras palavras, as crianças ficaram muito mais interessadas na "causa" do acontecimento inconsistente do que do acontecimento consistente.O que isso quer dizer? Bom, muitos pais -- principalmente mães :-) -- tem uma mania muito feia de "preparar" o ambiente da criança o suficiente para que ela nunca encontre uma situação ou acontecimento que seja inconsistente com o que ela ja sabe. Para muitos pais, as crianças se sentem mal e não gostam de situações inconsistentes e adversas. E com isso controlam também as chances que as crianças têm de viver situações que incentivem explicações de natureza mais causal. O interessante de explicações causais é que elas, muitas vezes, não se baseiam apenas em característica superficiais (aparências), o que leva as crianças a buscarem as essências dos acontecimentos que vivenciam. Buscar essências acaba sendo uma característica intelectual importante na vida adulta.É muito importante saber e entender a importância que nossos comportamentos diários com nossas crianças acabam, de uma forma ou de outra, influenciando o desenvolvimento intelectual e social delas.E para aqueles que eu tenho certeza que ficaram curiosos para saber por que o céu é azul, aqui vai a explicação: existe um fenômeno conhecido como Rayleigh Scattering, que basicamente é uma forma de espalhamento da luz e de outras ondas eletromagnéticas. A luz do sol é formada por várias cores diferentes -- com ondas de diferentes tamanho --, mas devido à algumas substâncias presentes na nossa atmosfera, cores com ondas mais curtas (ex.: azul) são 'espalhadas' mais facilmente do que cores com ondas mais largas. Mas tenho certeza que vai te dar um pouco de trabalho para explicar isso para seu filho de 4 anos! :-)Referência:Legare CH, Gelman SA, & Wellman HM (2010). Inconsistency with prior knowledge triggers children's causal explanatory reasoning. Child development, 81 (3), 929-44 PMID: 20573114... Read more »

  • July 19, 2010
  • 02:14 PM
  • 241 views

The Miseries of Idleness: Pessoas Ocupadas são mais Felizes

by Andre Souza in ***Cognando***

Desde que entrei para a universidade, lido com um problema que acredito ser comum no meio acadêmico: estou sempre ocupado. Não tenho muito tempo livre para as atividades extra-acadêmicas. Algumas pessoas do meu círculo de convívio dizem que o problema é que eu não sei dizer "não". Sempre aceito as propostas que me são oferecidas. Se me ligam e me pedem para revisar um manuscrito, eu aceito. Se me pedem um parecer, eu aceito. Se me pedem auxílio estatístico e metodológico, eu aceito. Chegam a me dizer que esse tanto de trabalho pode causar estresse e infelicidade. Será que é isso mesmo?Um grupo de pesquisadores da Escola de Administração e Negócios da Universidade de Chicago, juntamente com um grupo de pesquisadores da Escola de Administração da Universidade de Shangai publicaram recentemente (Julho/2010), um estudo que sugere o seguinte:(1) nós seres humanos não gostamos de ficar à toa. O sentimento causado pela ociosidade é ruim, e se pudermos escolher, e tivermos uma justificativa -- mesmo que ruim -- escolheremos ficar ocupados.(2) pessoas ocupadas são mais felizes que pessoas ociosas. E isso é verdade mesmo que a ocupação seja obrigatória.Para testar essas duas hipóteses, foram recrutados 98 participantes. Os pesquisadores disseram aos participantes que eles iriam participar de uma pesquisa confidencial sobre a universidade em que eles estudavam. A pesquisa consistia de dois questionários. Após terminar o primeiro questionário, o pesquisador dizia ao participante que o segundo questionário ainda não estava pronto e que ele deveria aguardar 15 minutos até que o segundo questionário ficasse pronto. No entanto, ele deveria entregar o primeiro questionário em um local específico. Havia duas opções de local para a entrega do primeiro questionário. Um local próximo ao local onde o questionário foi respondido e um local mais afastado (uma caminhada de 12 a 15 minutos ida-e-volta).Os participantes tinham a opção de entregar o questionário no local próximo e esperar o resto do tempo pelo segundo questionário (escolha pelo tempo ocioso) ou entregar o questionário no local mais afastado e esperar menos tempo pelo segundo questionário (escolha pelo tempo ocupado). Nos dois casos os participantes recebiam uma barra de chocolates como "agradecimento" pela entrega do questionário.Para manipular o tipo de justificativa, os pesquisadores criaram duas condições: em uma delas, nas duas localidades (longe e perto) os participantes podiam escolher entre dois tipos de barra de chocolate (chocolate ao leite e chocolate puro). Na outra condição, cada localidade oferecia um tipo de chocolate específico (ou ao leite ou puro).A idéia básica do experimento foi: na condição em que o mesmo chocolate é oferecido nas duas localidade, não há justificativa aparente para a escolher o local mais longe (se os dois locais oferecem o mesmo brinde, pra que caminhar até o local mais longe?). Já na condição em que chocolates diferentes são oferecidos pelas duas localidades, há uma justificativa (mesmo que pequena) para a escolha entre caminhar até o local mais longe, ou ficar e entregar o questionário no lugar mais próximo.Após os 15 minutos, os participantes responderam a um questionário que perguntava "Como você se sentiu nos últimos 15 minutos". Essa pergunta mediu o nível de satisfação dos participantes.Os resultados confirmaram as duas hipóteses apresentadas anteriormente: os participantes que foram colocados na condição em que os locais diferentes ofereciam chocolates diferentes, preferiram ir ao local mais longe (independente da barra de chocolate que era oferecida lá). Em outras palavras, mesmo com uma justificativa pequena, as pessoas preferiram se ocupar a ficar esperando pelo segundo questionário. Os resultados confirmaram também a segunda hipótese: as pessoas que foram ao local mais longe demonstraram uma maior satisfação e felicidade. Mesmo os participantes que foram colocados na condição em que o brinde era o mesmo nos dois locais e que preferiram ir ao mais longe, demonstram uma maior satisfação e felicidade. Os resultados sugerem que pessoas ocupadas são de fato mais felizes.No entanto, no nosso dia-a-dia, por muitas vezes nos ocupamos não por que escolhemos, mas sim por que somos obrigados. Temos obrigações financeiras, por exemplo, que nos obrigam a trabalhar e nos ocupar. Será que mesmo uma ocupação forçada nos faz mais felizes? O segundo experimento tentou responder exatamente essa pergunta.O procedimento foi exatamente o mesmo do primeiro experimento, no entanto, eles não escolhiam o local da entrega e sim o pesquisador o fazia. Os resultados foram os mesmos: as pessoas forçadas a ir ao local mais afastado demonstraram uma maior felicidade quando comparadas com as pessoas que foram forçadas a ficar e esperar.No geral, a pesquisa corrobora resultados de várias outras pesquisas na área de Psicologia Cognitiva que sugerem que (1) ociosidade é prejudicial para a sobrevivência, (2) nós seres humanos estamos em uma busca constante de significado, tentando justificar todas nossas ações e atitudes e, finalmente (3) o trabalho -- uma forma de ocupação -- traz benefícios diversos para o bem-estar do ser humano.Agora, quando me falarem que não sei dizer "não", vou apenas dizer que o que eu quero mesmo é ser feliz! :-)Referência:Hsee CK, Yang AX, & Wang L (2010). Idleness aversion and the need for justifiable busyness. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 21 (7), 926-30 PMID: 20548057... Read more »

Hsee CK, Yang AX, & Wang L. (2010) Idleness aversion and the need for justifiable busyness. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 21(7), 926-30. PMID: 20548057  

join us!

Do you write about peer-reviewed research in your blog? Use ResearchBlogging.org to make it easy for your readers — and others from around the world — to find your serious posts about academic research.

If you don't have a blog, you can still use our site to learn about fascinating developments in cutting-edge research from around the world.

Register Now

Research Blogging is powered by SMG Technology.

To learn more, visit seedmediagroup.com.