Reinaldo Lopes

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Jornalista de ciência especializado em antropologia e arqueologia, escrevendo nos principais veículos brasileiros desde 2001.

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  • March 7, 2010
  • 06:00 AM
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Neandertais: simplesmente um luxo. Ou não?

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Não é de hoje que eu acompanho as peripécias de João Zilhão, arqueólogo português de sobrenome aparentemente piada pronta que, na verdade, é um dos sujeitos mais batalhadores e inteligentes a estudar a transição de neandertais para humanos modernos na Europa paleolítica. Zilhão defende, entre outras coisas, que o abismo de capacidade mental entre os Homo sapiens e nossos primos neandertais era bem menor do que se costuma acreditar. Agora, ele parece ter conseguido a evidência definitiva disso: a invenção independente de adornos corporais por essa espécie europeia de hominídeo.

Grife na sua cabeça a palavra "independente" da frase acima, porque já se sabe há tempos que ao menos alguns neandertais andavam por aí com colares feitos de dentes de animais. Trata-se da chamada cultura chatelperroniana, assim batizada por causa do sítio francês onde ela foi detectada. A questão, porém, é que a cultura chatelperroniana parecia coincidir temporalmente com a chegada dos primeiros humanos modernos ao continente europeu.

Os defensores da supremacia H. sapiens usavam esse dado para argumentar que se tratava de pura imitação pós-contato: vendo seus primos anatomicamente modernos (o termo politicamente correto é esse) já adotando adornos com valor simbólico, os neandertais teriam simplesmente se aculturado, copiando a ideia.

Rebeldia
Zilhão, que hoje trabalha na Universidade de Bristol (Reino Unido), contesta isso há tempos. Num artigo recente na revista científica "PNAS", ele e seus colegas conseguiram achar indícios de adornos corporais no sítio neandertal de Cueva de los Aviones, na região espanhola de Múrcia. A datação é clara: cerca de 50 mil anos -- definitivamente anterior ao contato entre as duas espécies de hominídeos, já que os humanos modernos só foram dar as caras na Europa Ocidental em torno de uns 35 mil anos atrás, e talvez ainda mais tarde na Espanha.

Os indícios? Conchas. Conchinhas dos gêneros Acanthocardia e Glycymeris que parecem ter sido perfuradas para montar colares. É exatamente o mesmo tipo de evidência que acompanha os sítios arqueológicos de humanos modernos e documentaria o surgimento de capacidade simbólica -- como a capacidade de usar adornos para reforçar sua aparência ou status. De mais a mais, há sinais da aplicação de pintura sobre as conchas.

Tudo interessantíssimo, mas é importante mencionar um senão que andou não aparecendo nas reportagens sobre o tema. Não deu para comprovar categoricamente que os buracos nas conchas foram feitos por mão humana (ou quase humana...). Em tese, poderiam ser de origem natural, de forma que as conchas teriam sido carregadas já prontas para os abrigos habitados pelos neandertais.

Resta saber o que os defensores da supremacia cognitiva dos humanos modernos dirão sobre os achados.

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Zilhao, J., Angelucci, D., Badal-Garcia, E., d'Errico, F., Daniel, F., Dayet, L., Douka, K., Higham, T., Martinez-Sanchez, M., Montes-Bernardez, R., Murcia-Mascaros, S., Perez-Sirvent, C., Roldan-Garcia, C., Vanhaeren, M., Villaverde, V., Wood, R., & Zapata, J. (2010). Symbolic use of marine shells and mineral pigments by Iberian Neandertals Proceedings of the National Academy of Sciences, 107 (3), 1023-1028 DOI: 10.1073/pnas.0914088107

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Zilhao, J., Angelucci, D., Badal-Garcia, E., d'Errico, F., Daniel, F., Dayet, L., Douka, K., Higham, T., Martinez-Sanchez, M., Montes-Bernardez, R.... (2010) Symbolic use of marine shells and mineral pigments by Iberian Neandertals. Proceedings of the National Academy of Sciences, 107(3), 1023-1028. DOI: 10.1073/pnas.0914088107  

  • February 11, 2010
  • 06:47 AM
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Inuq, o retrato falado genômico

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Sem mais delongas, confiram a minha reportagem na "Folha" de hoje.

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O tufo de cabelos passou 4.000 anos preso debaixo do permafrost, o solo congelado do Ártico, antes que cientistas dinamarqueses o usassem como base para decifrar o primeiro genoma quase completo de um ser humano pré-histórico. E o DNA, dizem eles, permitiu reconstruir a saga de uma migração esquecida e traçar o "retrato falado" de seu portador.

Apesar da cara de poucos amigos na concepção artística do último post, Inuq (apelido que significa simplesmente "ser humano" na língua nativa da Groenlândia) tem as marcas genéticas de um sujeito comum: tendência à calvície, propensão a acumular gordura (provável adaptação ao frio extremo), moreno, sangue tipo A positivo.

Todos esses dados, obtidos pela equipe de Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, derivam da comparação do genoma de Inuq com o de populações modernas. Em artigo na revista científica "Nature" de hoje, o grupo calcula ter "soletrado" 80% do DNA do antigo habitante da Groenlândia, obtendo dados de qualidade comparável à de qualquer genoma de alguém vivo hoje.

"É preciso levar em conta que os únicos restos que tínhamos do povo ao qual esse indivíduo pertencia eram quatro tufos de cabelo e quatro pedacinhos de osso", explica Willerslev. "Havia numerosos instrumentos [como arpões para caçar focas] nos sítios arqueológicos, mas nós não tínhamos a menor ideia de quem eram essas pessoas", afirma ele.

A análise genômica indica que Inuq e sua tribo não tinham parentesco próximo nem com os atuais inuítes (ou esquimós, nome hoje considerado pejorativo), nem com as tribos indígenas que povoaram as Américas ao sul do Ártico.

Ao que parece, eles representariam uma migração independente a partir do nordeste da Sibéria, que teria se separado das populações asiáticas há 5.500 anos. Os atuais nativos americanos também teriam vindo do tronco siberiano, mas a partir de linhagens diferentes e em épocas diferentes. A população de Inuq provavelmente era pequena, a julgar pela diversidade genética relativamente baixa em seu DNA: é como se ele fosse filho de um casal de primos de primeiro grau.

"A pesquisa é um "tour de force" [façanha], um trabalho espetacular", elogia o geneticista brasileiro Sergio Danilo Pena, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Para ele, a genômica arqueológica deve avançar ainda mais nos próximos anos, impulsionada por fatores como a facilidade cada vez maior de "ler" o DNA.

"Agora, não é um caso normal. É preciso levar em conta a preservação das amostras. Casos como esse não vão virar arroz-de-festa", diz Pena, que colabora com o grupo dinamarquês em outros estudos.

Willerslev se diz mais esperançoso. Como a contaminação por DNA moderno é mais rara quando se trata de material genético no interior de fios de cabelo, seria possível repetir a façanha com múmias sul-americanas ou outros restos com tecido capilar preservado.

"Já trabalhei com cabelo, e não é tão simples assim", ressalva Pena. Ele também critica a associação entre genes e aparência de Inuq, porque dados a esse respeito sobre populações siberianas ainda são incertos.

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Rasmussen, M., Li, Y., Lindgreen, S., Pedersen, J., Albrechtsen, A., Moltke, I., Metspalu, M., Metspalu, E., Kivisild, T., Gupta, R., Bertalan, M., Nielsen, K., Gilbert, M., Wang, Y., Raghavan, M., Campos, P., Kamp, H., Wilson, A., Gledhill, A., Tridico, S., Bunce, M., Lorenzen, E., Binladen, J., Guo, X., Zhao, J., Zhang, X., Zhang, H., Li, Z., Chen, M., Orlando, L., Kristiansen, K., Bak, M., Tommerup, N., Bendixen, C., Pierre, T., Grønnow, B., Meldgaard, M., Andreasen, C., Fedorova, S., Osipova, L., Higham, T., Ramsey, C., Hansen, T., Nielsen, F., Crawford, M., Brunak, S., Sicheritz-Pontén, T., Villems, R., Nielsen, R., Krogh, A., Wang, J., & Willerslev, E. (2010). Ancient human genome sequence of an extinct Palaeo-Eskimo Nature, 463 (7282), 757-762 DOI: 10.1038/nature08835

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  • February 3, 2010
  • 12:27 PM
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Peru para o povo

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Promessa é dívida. Segue abaixo a reportagem sobre a domesticação dos perus na América do Norte pré-colombiana, originalmente publicada na "Folha" de hoje. E com um enigma adicional que não coube no texto impresso.

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Os indígenas da América do Norte antes de Colombo não celebravam o Natal, obviamente, mas criar perus parece ter sido tão importante para eles que o bicho foi domesticado na região duas vezes, de forma separada, indica um novo estudo.

Mais ou menos na mesma época, há cerca de 2.200 anos, tanto os moradores do vale de Tehuacán (no sul do México) quanto as tribos do sudoeste dos Estados Unidos passaram a criar a ave, revela um artigo publicado na revista científica americana "PNAS".

Análises de DNA mostraram que os perus domésticos dos EUA eram geneticamente distintos dos mexicanos, derrubando a ideia de que os indígenas americanos teriam importado seu plantel da espécie junto com o resto do pacote agropecuário do México (que incluía milho, abóbora e feijão, entre outras culturas).

Dongya Yang, especialista em DNA antigo da Universidade Simon Fraser, no Canadá, contou à Folha que a pesquisa surgiu quando ele se deu conta de que colegas de outra instituição, a Universidade do Estado de Washington (EUA), também andavam bisbilhotando o passado dos perus domésticos.

"Nós estávamos estudando ossos de peru, enquanto eles trabalhavam com coprólitos [fezes fossilizadas]. Então, nada mais natural do que juntarmos esforços", explica.

Os restos foram obtidos em locais relativamente altos, frios e secos de cinco Estados americanos (Utah, Colorado, Arizona, Novo México e Texas), o que facilitou a preservação do DNA dos animais, afirma Yang.

Abundância fecal
O grupo usou indicadores arqueológicos para confirmar que os perus eram mesmo domesticados, como a presença de cercados ou de grandes quantidades de esterco ou cascas de ovo.

Uma vez obtido o material genético, ele foi comparado com o de perus criados comercialmente hoje nos EUA e o de espécimes de museu dos perus selvagens do sul do México (esses bichos estão extintos hoje, ao contrário dos perus selvagens americanos).

Yang e companhia descobriram que os perus domésticos do sudoeste dos EUA podiam ser classificados em dois grandes subgrupos genéticos --nenhum dos quais batia com o DNA dos mexicanos.

Por enquanto, contudo, ainda não dá para saber de qual região americana os animais domésticos vieram, afirma o pesquisador.

O certo, de qualquer modo, é que os perus comercializados todo santo Natal mundo afora descendem da raça mexicana, que foi levada para a Europa pelos espanhóis no século 16.

Apesar da dúvida, a pesquisa também sugere a presença de técnicas relativamente sofisticadas de criação de animais. Parece que, após o estabelecimento inicial do plantel, os indígenas do sudoeste dos EUA capturaram formas selvagens da vizinhança.

"Pode ter sido um jeito de criar híbridos mais produtivos, mas isso ainda é especulação", diz Yang.

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Agora, o enigma: existe um caminhão de subespécies norte-americanas do peru selvagem, cuja diversidade genética já foi estudada. Acontece que, embora o sudoeste dos EUA pareça ser um segundo centro de domesticação do bicho, "empatando" com o sul do México, o DNA da maior parte (cerca de 85%) dos bichos encontrados em sítios arqueológicos de lá NÃO BATE com o da subespécie selvagem da região.

Grosso modo, as explicações possíveis são duas. Ou os bichos domesticados no sudoeste americano representam uma fatia da diversidade genética selvagem que não está mais presente na população não-doméstica, ou eles originalmente foram parar no cativeiro EM OUTRA REGIÃO. A semelhança genética maior, nesse caso, é com a subespécie do leste dos EUA (que vive na Flórida, por exemplo). Só que, pelo que se sabe, os índios desse pedaço dos Estados Unidos NÃO domesticaram os perus vizinhos.

Yang me disse que só mais dados vão poder desembaraçar o mistério dos perus "fantasmas", o qual, por enquanto, soa um bocado bizarro.

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Speller, C., Kemp, B., Wyatt, S., Monroe, C., Lipe, W., Arndt, U., & Yang, D. (2010). Ancient mitochondrial DNA analysis reveals complexity of indigenous North American turkey domestication Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.0909724107

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  • November 27, 2009
  • 08:05 AM
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Fim da megafauna: sai um mistério, entra outro

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14



O sumiço de dezenas de gêneros de grandes mamíferos americanos (e de TODOS os bichos com mais de uma tonelada) do nosso continente provavelmente é o maior dos mistérios do fim do Pleistoceno, a Era do Gelo. Uma pesquisa recente parecia ter dado um jeito no mistério -- mas só parecia. O estudo deixa em aberto tantas perguntas quanto as que responde, ou até mais.

Que fezes, diria você. E, sim, fezes aqui é a palavra apropriada, porque a equipe capitaneada por Jacquelyn L. Gill, da Universidade de Wisconsin em Madison, conseguiu refinar a linha do tempo da megafauna da América do Norte -- formada por mamutes, mastodontes, preguiças gigantes e outros bichões -- usando um fungo especializado em crescer no cocô de grandes herbívoros.

Trata-se do Sporormiella, cuja presença e abundância tem uma excelente correlação com a presença de megafauna. Estudando sedimentos anteriormente, os cientistas já tinham se dado conta de que os esporos do fungo estavam por toda parte na América do Norte da Era do Gelo, tomam chá de sumiço com a chegada do Holoceno (a nossa era geológica, já tristemente quase sem megafauna nas Américas) e retornam quando os europeus reintroduzem grandes rebanhos de herbívoros avantajados, na era colonial.

Árvores e meteoritos
Ora, esporos do fungo, junto com pólen, carvão e outros indicadores ambientais, tendem a ficar depositados no leito de lagos de maneira regular, formando um registro temporal bem sequenciado do ambiente circundante. Gill e companhia usaram dados do lago Appleman, em Indiana (EUA), e de vários outros sítios dos EUA, para mostrar duas coisas.

O declínio populacional da bicharada graúda começou cedo, há pouco menos de 15 mil anos, e não há 13 mil, como se achava; e uma transformação ambiental intrigante -- o surgimento de grandes matas que misturavam árvores de regiões temperadas e boreais no lugar de uma espécie de estepe -- veio depois, e não antes, do começo do fim da megafauna.

De cara, isso desmonta três ideias: a de que a mudança na vegetação teria deixado os bichos sem comida, levando-os a sumir; a de que um suposto meteorito teria caído há 13 mil anos e alterado o ambiente, desencadeando a extinção; e a de que os caçadores de grandes mamíferos da cultura Clovis, que também aparecem nessa época, teriam rapidamente exterminado os monstrengos na base da lança.

OK, mas o que acabou com a megafauna, então? Realmente há a coincidência de uma fase quente com o início do declínio abrupto de população, mas fica difícil imaginar que a mudança climática levasse ao extermínio sem alterar o habitat. Uma possibilidade é a chegada mais antiga de humanos caçadores -- de fato, eles aparecem em Monte Verde, no Chile, antes da cultura Clovis, o que significa que estavam na América do Norte muito antes ainda. Mas há pouquíssimos indícios deles, sugerindo uma população pequena e pouco especializada em caça. Será que poderiam mesmo ter feito tanto estrago e não deixar rastros?

A única conclusão firme é a de que a extinção da megafauna foi bem mais gradual do que se imaginava. Sinceramente, esse negócio está começando a ficar irritante.

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Gill, J., Williams, J., Jackson, S., Lininger, K., & Robinson, G. (2009). Pleistocene Megafaunal Collapse, Novel Plant Communities, and Enhanced Fire Regimes in North America Science, 326 (5956), 1100-1103 DOI: 10.1126/science.1179504

Johnson, C. (2009). Megafaunal Decline and Fall Science, 326 (5956), 1072-1073 DOI: 10.1126/science.1182770 Read the comments on this post...... Read more »

  • October 27, 2009
  • 03:02 PM
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Essa era tísica, doutor

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

"Tísica", crianças, é um jeito mais velho do que andar pra frente de dizer que a pobre pessoa tem tuberculose. Velho, sem dúvida, mas não velho o suficiente para os padrões da senhora Irtyersenu, morta por volta de 600 a.C., a primeira múmia a passar por um exame paleopatológico em 1825. Acontece que erraram o diagnóstico: em vez de morrer de um câncer de ovário, a pobre faleceu mesmo foi de tuberculose, indica nova análise.

O estudo liderado por Helen Donoghue, do University College de Londres, revisitou os restos mortais de Irtyersenu, originalmente descritos para a Royal Society pelo Dr. Augustus Bozzi Granville. Conclusão número 1: o tal câncer era um cistadenoma benigno, insuficiente para fazer a infeliz egípcia bater as botas.

Conclusão número 2: o tecido pulmonar da pobre revelou uma secreção potencialmente fatal.

Conclusão número 3: os pesquisadores conseguiram extrair DNA de Mycobacterium tuberculosis, bactéria da doença quase homônima, desses tecidos, e obtiveram também moléculas que compõem a parede celular do microrganismo.

E, assim, esse caso de House da Antiguidade parece estar resolvido. E não era lúpus.

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Donoghue HD, Lee OY, Minnikin DE, Besra GS, Taylor JH, & Spigelman M (2009). Tuberculosis in Dr Granville's mummy: a molecular re-examination of the earliest known Egyptian mummy to be scientifically examined and given a medical diagnosis. Proceedings. Biological sciences / The Royal Society PMID: 19793751 Read the comments on this post...... Read more »

  • October 24, 2009
  • 12:09 PM
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A queda do lêmur marqueteiro?

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Esta semana pode ter marcado o fim de um dos capítulos potencialmente mais constrangedores da interação entre ciência e mídia dos últimos tempos. O pomo da discórdia está aqui do lado -- é Ida, ou Darwinius masillae, primatinha de 47 milhões de anos que foi trombeteado como o mais primitivo membro da linhagem de mamíferos que desembocou na gente.

Escrevi a respeito na Folha desta semana (reportagem original depois do break, pra quem se interessar). Ao que tudo indica, uma análise bem mais completa do que a feita pelos autores originais da descrição de Ida, publicada na "Nature", mostrou que ela é só um primo dos lêmures. Nisso, porém, o dano já estava feito: circo midiático, paleontólogos comparando o bicho ao Santo Graal, aparente relaxo na revisão por pares do artigo, o diabo.

Eu acho que o caso expõe uma série de problemas meio sérios sobre a maneira como a paleontologia, e a área da evolução humana em particular, tem funcionado nos últimos tempos. A saber:

1)"Veja o filme, leia o paper": é meio bizarro que um pacote completo de livro, documentário e site interativo sobre um novo fóssil esteja pronto antes de a descrição científica do bicho seja publicada. Desse jeito, os autores do estudo tentam controlar fortemente o que a opinião pública vai pensar do seu achado antes de a comunidade científica avaliá-lo.

2)As mazelas do embargo: supostamente, o sistema de embargo pra imprensa -- eu, por exemplo, tive acesso ao novo artigo na "Nature" com uma semana de antecedência -- deveria ajudar no preparo de reportagens mais fundamentadas. Não é o que acontece. O efeito principal parece ser a publicação simultânea da descoberta no mundo inteiro, aumentando apenas o impacto midiático dela.

3)Peer-review que nem o seu nariz: é difícil evitar a desconfiança de que alguns artigos são revisados com menos rigor que outros por causa do potencial de embasbacar o grande público.

4)Ciência pobre em dados: o problema de lidar com fósseis é o caráter fragmentário dos dados, por definição. Diante disso, não é incomum que pesquisadores tentem ir além do que o material fossilizado está dizendo e se apeguem a suas interpretações "de estimação" dele. E isso é péssimo para a ciência e para a educação científica, claro.

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Seiffert, E., Perry, J., Simons, E., & Boyer, D. (2009). Convergent evolution of anthropoid-like adaptations in Eocene adapiform primates Nature, 461 (7267), 1118-1121 DOI: 10.1038/nature08429

Franzen JL, Gingerich PD, Habersetzer J, Hurum JH, von Koenigswald W, & Smith BH (2009). Complete primate skeleton from the Middle Eocene of Messel in Germany: morphology and paleobiology. PloS one, 4 (5) PMID: 19492084

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Segue a minha matéria na Folha. Read the rest of this post... | Read the comments on this post...... Read more »

  • September 16, 2009
  • 04:56 PM
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Poluição inca

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Depois que os espanhóis chegaram, Huancavelica, na região central do Peru, ganhou o apelido de mina de la muerte. Mas bem que ela merecia ter o mesmo nome nas muitas línguas indígenas faladas nos Andes antes do Descobrimento. O motivo? Huancavelica, como mostra um estudo recente na revista científica "PNAS", foi uma fonte considerável de poluição por mercúrio ao longo de milênios de pré-história andina.

Os dados foram levantados pela equipe cujo líder é Colin Cooke, da Universidade de Alberta, no Canadá. Que Huancavelica tinha ajudado a poluir os Andes a partir do domínio espanhol todo mundo já sabia, principalmente porque o mercúrio era o principal meio para se minerar prata durante a era colonial -- o metal líquido era amalgado ao minério de prata. Não se imaginava, contudo, que as civilizações pré-colombianas da região também tivessem produzido tanta poluição.

Está tudo nos lagos
Foi o que Cooke e companhiam descobriram ao examinar sedimentos depositados no fundo de lagos da região. As camadas desses sedimentos formam um registro bastante completo do que andava acontecendo na superfície vizinha, e elas podem ser datadas por meio de isótopos radioativos, entre eles o famigerado carbono-14.

O que essas fatias de sedimentos lacustres revelam é, primeiro, um longo período de acúmulo lento, contínuo e estável de mercúrio no fundo dos lagos. A partir de 1400 a.C., a proporção de mercúrio começa a crescer, até atingir dez vezes o nível original do elemento em torno de 600 a.C. Após quase 2.000 anos de oscilações nesse patamar, com retornos ao padrão original e algumas fases de aumento da proporção de mercúrio, a coisa dispara novamente por volta do ano 1400 da nossa era, com registros de níveis do metal entre 55 e 30 vezes o esperado pela deposição natural de minérios.

Não parece muito difícil entender o porquê desses aumentos de poluição. Os dois grandes picos poluidores, de 600 a.C. e 1400-1500 d.C., batem com o apogeu dos impérios Chavín e Inca, respectivamente -- dois dos principais Estados pré-históricos a dominar vastas áreas dos Andes.

Simplesmente um luxo
Ambos os impérios tinham em comum o gosto por adornar seus artefatos de ouro (como a coroa Chavín vista acima) com o vermelhão, corante vermelho (duh!) que é a forma pulverizada do cinabre, ou sulfeto de mercúrio (HgS). O vermelhão também era empregado como pintura corporal nos Andes pré-históricos.

Ou seja: ao contrário do que se viu na era colonial, as antigas civilizações andinas tinham como principal motor de sua atividade mineradora e poluidora a obtenção de bens de prestígio, ou seja, de ferramentas de ostentação social para a nobreza. Taí mais uma prova de que os seres humanos do século XXI não inventaram o conceito de fazer coisas estúpidas com o ambiente só para aparecer.

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Cooke, C., Balcom, P., Biester, H., & Wolfe, A. (2009). Over three millennia of mercury pollution in the Peruvian Andes Proceedings of the National Academy of Sciences, 106 (22), 8830-8834 DOI: 10.1073/pnas.0900517106 Read the comments on this post...... Read more »

Cooke, C., Balcom, P., Biester, H., & Wolfe, A. (2009) Over three millennia of mercury pollution in the Peruvian Andes. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106(22), 8830-8834. DOI: 10.1073/pnas.0900517106  

  • September 9, 2009
  • 08:07 PM
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Cachorro-quente das cavernas?

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Leio no jornalão americano "New York Times" uma proposta mirabolante para explicar a domesticação dos cães: fazer cachorro-quente. Literalmente. Peter Savolainen e seus colegas do Real Instituto de Tecnologia de Estocolmo, na Suécia, afirmam que os primeiros totós a serem criados por humanos serviram de comida, e só depois passaram a ser tratados como companheiros de caça, guardas e animais de trabalho.

É claro que a hipótese tem apelo popular, em parte por ser nojenta, em parte por ser um tanto cômica. Mas, quando olhamos os dados científicos publicados por Savolainen e companhia, é difícil evitar a impressão de que eles estão forçando um pouco a barra. Tanto que a ideia do filé de buldogue nem entra no resumo do artigo, recém-publicado na revista especializada "Molecular Biology and Evolution".

O que Savolainen e companhia realmente fizeram foi analisar o DNA mitocondrial (aquele presente nas mitocôndrias, as usinas de energia das células) de cerca de 1.500 cães, em busca de padrões geográficos e de uma data estimada de domesticação. Segundo eles, a diversidade genética indica uma origem única, no sul da China, há uns 12 mil anos, quando a agricultura e a vida sedentária estava emergindo na região.

Beleza. Nada contra. O problema é fazer o pulo-do-gato (só pra combinar com quem quer sacanear a cachorrada) da origem no sul da China para o uso culinário dos cães. É fato que levar cachorros para a panela é comum nessa parte do mundo; também é fato que, em alguns sítios arqueológicos de lá, foram encontrados ossos de cachorro com marcas de corte. Daí a estabelecer que a motivação da domesticação foi devorar os bichos é ir um tanto longe demais.

Primeiro, "esse documento não prova nada", como diz o Báteman: marcas de corte podem só significar sepultamento secundário, em que o corpo é descarnado antes do enterro. É preciso usar critérios mais detalhados pra provar o consumo culinário da carne. Também é preciso saber o quão comuns são esses sítios de churrasco de cachorro, e que idade eles têm. Finalmente, algum chinês pré-histórico pode muito bem ter comido seus cãezinhos no desespero, e não como algo rotineiro -- em situação de guerra, nem os alemães desprezavam um salsichão canino, diz a lenda.

O que a gente sabe de outras culturas sobre o consumo de carne de cão -- caso dos polinésios ou dos astecas, que curtiam fatiar o xoloitzcuintle, raça careca que você vê na foto acima -- é que em geral ele é motivado ou favorecido pela relativa falta de outras fontes de proteína animal. Surgiram raças já dedicadas ao abate -- motivo pelo qual o xoloitzcuintle foi selecionado para ser careca. Pode até ser que esses critérios sejam satisfeitos pelos mais antigos cães chineses, mas, por enquanto, a ideia parece especulol puro.

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Pang, J., Kluetsch, C., Zou, X., Zhang, A., Luo, L., Angleby, H., Ardalan, A., Ekstrom, C., Skollermo, A., Lundeberg, J., Matsumura, S., Leitner, T., Zhang, Y., & Savolainen, P. (2009). mtDNA Data Indicates a Single Origin for Dogs South of Yangtze River, less than 16,300 Years Ago, from Numerous Wolves Molecular Biology and Evolution DOI: 10.1093/molbev/msp195 Read the comments on this post...... Read more »

Pang, J., Kluetsch, C., Zou, X., Zhang, A., Luo, L., Angleby, H., Ardalan, A., Ekstrom, C., Skollermo, A., Lundeberg, J.... (2009) mtDNA Data Indicates a Single Origin for Dogs South of Yangtze River, less than 16,300 Years Ago, from Numerous Wolves. Molecular Biology and Evolution. DOI: 10.1093/molbev/msp195  

  • July 27, 2009
  • 04:17 PM
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Por uma arqueologia menos antropocêntrica

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Uma proposta para implementar a arqueologia de primatas.... Read more »

Haslam, M., Hernandez-Aguilar, A., Ling, V., Carvalho, S., de la Torre, I., DeStefano, A., Du, A., Hardy, B., Harris, J., Marchant, L.... (2009) Primate archaeology. Nature, 460(7253), 339-344. DOI: 10.1038/nature08188  

  • June 10, 2009
  • 04:39 PM
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É ou não é escrita?

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Uma análise estatística da famigerada "escrita" do vale do Indo... Read more »

Rao, R., Yadav, N., Vahia, M., Joglekar, H., Adhikari, R., & Mahadevan, I. (2009) Entropic Evidence for Linguistic Structure in the Indus Script. Science, 324(5931), 1165-1165. DOI: 10.1126/science.1170391  

  • June 9, 2009
  • 11:02 PM
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Leão-marsupial: numa caverna perto de você

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Uma pintura rupestre mostra o leão-marsupial extinto na Austrália... Read more »

  • May 14, 2009
  • 10:52 AM
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Peitões da Idade da Pedra

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Uma estatueta da Idade da Pedra na Alemanha é a mais antiga forma de arte figurativa... Read more »

  • May 7, 2009
  • 10:47 AM
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Em uma caverna na Indonésia vivia um hobbit

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Novas análises sobre o Homo floresiensis... Read more »

Jungers, W., Harcourt-Smith, W., Wunderlich, R., Tocheri, M., Larson, S., Sutikna, T., Due, R., & Morwood, M. (2009) The foot of Homo floresiensis. Nature, 459(7243), 81-84. DOI: 10.1038/nature07989  

  • April 17, 2009
  • 01:54 PM
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Carlos II, o Zicado

by Reinaldo Lopes in Chapéu, Chicote e Carbono-14

Problema de inbreeding pode ter extinguido os Habsburgos espanhóis... Read more »

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