Psiquiatria e toxicodependencia

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Blog with information about psychiatry, mental health and addiction; including themes in the media and recent research findings

Vanessa Marsden
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  • February 18, 2011
  • 11:59 AM
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Oniomania - transtorno do comprar compulsivo

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Oniomania (do grego onios, à venda, e mania, insanidade) é o termo técnico para o desejo compulsivo de comprar, mais comumente conhecido como síndrome do comprar compulsivo. O termo foi inicialmente utilizado por Kraepelin em 1915 e Bleuler em 1924. Embora tenha sido descrita há mais de cem anos, só nos últimos 15 anos a doença voltou a ser estudada, o que faz com que seja virtualmente desconhecida nas discussões sobre saúde mental. No entanto, o quadro parece estar a aumentar globalmente já que o terreno para seu desenvolvimento é fertil no mundo moderno, com o advento de catálogos de compras pelos correios, canais de televisão dedicados a vendas e compras pela internet.Maria AntonietaVárias figuras históricas apresentaram episódios de compras em excesso. A rainha francesa Maria Antonieta era conhecida e odiada por seus excessos. Na mesma lista figuram nomes como Jackeline Kennedy Onassis, Imelda Marcos e a Princesa Diana. Segundo seus biógrafos, os episódios de compras desregularadas custaram-lhes dinheiro, problemas pessoais e, no caso de Maria Antonieta, a própria vida. Se de fato estas figuras apresentavam oniomania é motivo de especulações. Como o transtorno propriamente dito ainda nem mesmo figura nos sistemas de classificação em psiquiatria (CID-10 e DSM-V-TR), não há uma uniformidade de critérios e nomes para definí-lo de forma adequada. Neste momento pessoas com compulsão por compras são enquadradas em "outros transtornos dos impulsos" e ainda há muita discussão se a oniomania é de fato um transtorno psiquiátrico em si ou um construto destes tempos modernos de materialismo e consumismo. Mesmo entre o que acreditam que sua classificação está por vir no DSM-V, debate-se se é um transtorno que assemelha-se às dependências químicas, se faria parte do espectro obsessivo-compulsivo ou se é mais classificado em dependências comportamentais. Todas estas especulações tornam difícil seu diagnóstico, mas alguns critérios foram sugeridos na literatura científica (McElroy et al., 1994):Jackeline Kennedy Onassis1. Preocupações ou compras mal-adaptadas como indicadas pelos seguintes:Preocupações ou impusos frequentes que são sentidos como irresitíveis, intrusivos ou sem sentidoCompras frequentes de mais do que se pode pagar, de itens que não são necessários ou comprar por períodos maiores do que planejadoEvidência de sofrimento marcado, consumo do tempo, interferência significativa do funcionamento social ou ocupacional, ou problemas financeiros2. Não ocorre exclusivamente durante perídos de hipomania ou maniaSegundo a literatura científica no assunto, do dinheiro gasto pelos compradores compulsivos, 96% os gastam em roupas, 75% compram sapataos, 33% maquiagem, 42% jóias, 21% CDs e 25% gastam com itens colecionáveis (Christenson et al., 1994).Para os leigos, algumas perguntas podem ajudar a avaliar seu comportamentos de compras:Você se sente preocupado\a em demasia com o ato de comprar ou gastar dinheiro?Você acha que seu comportamento de comprar é excessivo, impróprio ou descontrolado?Seus desejos, urgências, impulsos, comportamentos ou fantasias sobre comprar consomem muito tempo e lhe deixam chateado\a ou culpado\a e ocasionam sérios problemas na sua vida?Como reconhecer se você é um comprador compulsivo?Compradores compulsivos, quando se sentem deprimidos compram ou gastam para sentir-se melhor. Eles comprar para sentir um efeito euforizante, de certa forma semelhante a um toxicodependente, que usa drogas para conseguir um "barato". Em geral, quanto mais caro ou mais supérfluo o ítem comprado (por exemplo, jóias), maior o efeito euforizante. As compras compulsivas afetam mais mulheres que homem e em geral o comprador gasta em coisas que não precisa. As festas de fim de ano ou datas comemorativas caracterizadas por compras fazem com que todos nós gastemos mais do que planejado. Todos sofremos com compras compulsivas nestas épocas, que chamamos de "binge". Um comprador compulsivo apresenta diversos períodos de binge por ano e estes podem ser restritos a apenas um tipo de compra, como sapatos, por exemplo. Na casa de um comprador compulsivo podem se encontrar pilhas de objetos comprados ainda com as etiquetas. Muitas vezes compra-se roupas ou sapatos que nem mesmo servem. Alguns nem mesmo se lembram de tê-los comprado. Quando a família começa a reclamar do comportamento, o comprador compulsivo começa a mentir ou a comprar escondido e a esconder os objetos pela casa. Conforme as dívidas começam a acumular, os relacionamentos interpessoais sofrem.TratamentoComo o transtorno ainda não é bem definido na literatura científica, diversos tratamentos tem sido propostos:psicoterapia (seja ela psicanalítica, cognitivo-comportamental)tratamento com medicamentos para os casos mais gravesmudança de hábitosMudança de hábitosPara prevenir compras compulsivas, os sofredores são orientados a alterar alguns hábitos em suas vidas:compre apenas com dinheiro e cartão de débito. Destrua seus cartões de crédito, deixando apenas um guardado em local seguro para o caso de emergênciasFaça listas de compras e só compre o que está na listaEvite lojas em promoção. Se você for a uma, tenha a quantia certa de dinheiro que queira gastar consigoSó passeie para ver vitrines quando as lojas já estiverem fechadas. Se você for passear em lojas ou ver vitrines em horário comercial, deixe sua carteira em casa.Não receba catálogos de compras por telefone ou internet em casa. Se eles chegarem pelo correio, jogue-os direto no lixo. Não assista canais de comprasSe você for viajar para ocasiões festivas, compre os presentes e embrulhe-os antes mesmo de sair de casa.Nomeie os sentimentos: porque você compra? Porque está deprimido? Porque está entediado? Porque está se sentindo mal?Exercite-se quando o impulso de comprar aparecerEvite lugares e pessoas que fazem com que você gaste dinheiroLeve um amigo em quem possa confiar se tiver que fazer comprasPergunte a si mesmo: eu realmente preciso disto ou estou comprando só porque o quero?Lembre-se: se você está se sentindo fora de controle é porque realmente o está. Procure ajuda de um profissional de saúde mental para avaliação.Fotos: http://www.gogmsite.net/grand-ladies-of-the-eightee/subalbum-marie-antoinette-n/1785-marie-antoinette-by-el.htmlhttp://bettys.uol.com.br/tag/jackie-o/http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=6883984863814864292&postID=249872354271273597Referências:McElroy SL, Keck PE Jr, Pope HG Jr, Smith JM, & Strakowski SM (1994). Compulsive buying: a report of 20 cases. The Journal of clinical psychiatry, 55 (6), 242-8 PMID: ... Read more »

McElroy SL, Keck PE Jr, Pope HG Jr, Smith JM, & Strakowski SM. (1994) Compulsive buying: a report of 20 cases. The Journal of clinical psychiatry, 55(6), 242-8. PMID: 8071278  

Christenson GA, Faber RJ, de Zwaan M, Raymond NC, Specker SM, Ekern MD, Mackenzie TB, Crosby RD, Crow SJ, & Eckert ED. (1994) Compulsive buying: descriptive characteristics and psychiatric comorbidity. The Journal of clinical psychiatry, 55(1), 5-11. PMID: 8294395  

Black DW. (2007) A review of compulsive buying disorder. World psychiatry : official journal of the World Psychiatric Association (WPA), 6(1), 14-8. PMID: 17342214  

  • February 4, 2011
  • 11:29 AM
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Como uma dieta saudável pode se tornar um transtorno alimentar: ortorexia

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

É só abrir uma revista feminina e lá está o conselho, dizendo-nos o que devemos ou não comer e quais as últimas dietas da moda. Estudos recentes mostram, entretanto, que a última dieta da moda ou a obsessão por consumir apenas alimentos saudáveis pode estar a causar danos à saúde física e mental das pessoas. Já existe até um nome para este suposto transtorno alimentar: ortorexia.Aparentemente aqueles que desenvolvem o transtorno tornam-se tão preocupados com a pureza daquilo que comem que se negam diversos grupos alimentares. Enquanto aqueles que apresentam anorexia nervosa restringem a quantidade do que comem, os que apresentam ortorexia são obcecados com a qualidade dos alimentos e eliminam de suas vidas itens como sal, açúcar, cafeína, álcool, trigo, glúten, fermento, soja e derivados do leite, além de qualquer alimento que contenha aditivos. Nos casos mais graves, a adesão rígida a estas regras leva o indivíduo a evitar comer em restaurantes ou na casa de amigos, colocando pressão nos relacionamentos sociais.Aparentemente a ortorexia parece alinhar-se com as doenças do espectro obsessivo compulsivo, já que o objetivo não é a perda de peso, mas a qualidade dos alimentos. Além disso, pacientes com anorexia tendem a manter sua condição em segredo enquanto aqueles com "ortorexia" falam muito de suas dietas e fazem mesmo pregações aos conhecidos. Outra diferença parece ser a idade dos indivíduos afetados pela ortorexia: maiores de 30 anos, de classe média e em geral com bom nível de escolaridade. Em geral, eles passam horas lendo as últimas pesquisas sobre alimentos, peregrinam por lojas de comida saudável e passam muito tempo planejado seus menus.O termo ortorexia nervosa foi cunhado em 1997 para descrever pessoas que desenvolvem uma fixação com alimentação saudável e embora seja referido em diversos sites e publicações como um transtorno mental não é um termo reconhecido medicamente.DiagnósticoEmbora a ortorexia não seja um transtorno mental reconhecido pela CID-10 ou pelo DSM-IV e nem haja planos de incluí-la no DSM-V, alguns profissionais que trabalham com transtornos alimentares utilizam o termo para documentar os resultados da condição em seus pacientes.Foto: http://www.metro.co.uk/lifestyle/852166-you-can-be-too-healthyHepworth K (2010). Eating disorders today--not just a girl thing. Journal of Christian nursing : a quarterly publication of Nurses Christian Fellowship, 27 (3) PMID: 20632480... Read more »

Hepworth K. (2010) Eating disorders today--not just a girl thing. Journal of Christian nursing : a quarterly publication of Nurses Christian Fellowship, 27(3), 236. PMID: 20632480  

  • April 30, 2010
  • 09:17 PM
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Mescalina e peiote - o "Santo Daime" dos EUA

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Colocando a casa em dia, este é mais um post que prometi a um tempo atrás e demorei a desenvolver. A ideia para este post veio após uma discussão com um leitor sobre um artigo no qual o Santo Daime era discutido. De certa forma, o peiote é o "Santo Daime" dos Estados Unidos pois o país também teve que debater o dilema liberação versus tradição ritualística/religiosa na legislação que rege seu uso.Longe de sugerir uma solução fácil para o problema brasileiro, o post visa somente informar do uso de substâncias alucinógenas em rituais religiosos em outros países e como este se dá.PeioteO peiote (Lophophora williamsii ou Lophophora diffusa) é um cacto que apresenta pequenas protusões ou “botões”. Este cacto é a planta da qual a mescalina é retirada, sendo o principal ingrediente psicodélico no peiote. Diversos cacti produzem a substância: o peiote, que cresce no sudoeste dos EUA e México, o cacto São Pedro ou Wachuma (Echinopsis pachanoi, ou Trichocereus pachanoi), e o Echinopsis peruviana (ou Trichocereus peruvianus) encontrados no Peru. A mescalina também pode ser produzida sinteticamente. Uma substância branca e cristalina, o sulfato de mescalina, é a forma pura da mescalina e pode ser encontrada em cápsulas. OrigemOs índios norte-americanos acreditavam que Peiote era um deus, ou pelo menos um mensageiro dos deuses, enviado à terra para comunicar-se diretamente com o adorador. Diz a lenda que o cacto peiote foi descoberto quando um homem havia se perdido no deserto. Faminto, ele encontrou o cacto e uma voz que emanava da planta lhe disse que deveria comê-lo. O homem recuperou a sua força e retornou à seu vilarejo, levando o presente divino a seu povo. A história de Peiote pode ser traçada por até 3 milênios: espécimes psicoativos de peiote foram recuperados de cavernas e abrigos de pedra no norte do Texas com pelo menos 3000 anos de idade. Acredita-se que a cerimônia do Peiote descende da cerimônia Calia. A calia é a semente altamente tóxica da árvore Calia secundiflora. Existem evidências de que a semente da calia (em inglês mescal bean – daí o nome “mescalina”) tenha sido utilizada por mais de 10.000 anos. Em geral, um quarto a meia semente era torrada no fogo até atingir uma coloração dourada. A semente era então consumida causando um delírium que poderia durar até três dias. Por volta de 1500, frei Bernardino de Sahagun, um cronicista espanhol, estimava que os índios Chichimeca e Toltec usasem o peiote por pelo menos 2000 anos antes da chegada dos europeus. A perseguição ao uso do cacto começou com a conquista pelos espanhóis. Para os cristãos, o peiote era associado aos sangrentos rituais astecas e a planta foi condenada como “raiz diabolica”. Em 29 de julho de 1620 o peiote foi finalmente denunciado como ato de supertição. Os modernos estudos farmacológicos sobre o peiote só começaramo no final da década de 1880. Em 1888, o botanista Paul Hennings publicou um relatorio sobre a química da Lophophora, cujo principal ingrediente ativo (a mescalina) foi primeiramente isolada em 1897 pelo químico alemão A. Hefter. O uso moderno da mescalina começou em 1919, quando Ernst Spath criou a substância sinteticamente pela primeira vez em seu laboratório. A partir da década de 30, estudos sobre o peiote ou a mescalina foram praticamente abandonados até que Aldous Huxley voltou a realizar controversos experimentos com a substância em 1953. Huxley escreveu suas experiências no polêmico livro The Doors of Perception (Às portas da percepção) que causou grande interesse na substância e esteve nas bases da revolução psicodélica dos anos 60 e 70. Por volta desta época, a mescalina passou a ser utilizada em experimentos de psicose quimicamente induzida, daí a origem do antigo nome das drogas alucinógenas, psicomiméticos. A droga continuou a ser investigada no tratamento do alcoolismo, neuroses e outros transtornos mentais até a descoberta do LSD, quando foi novamente abandonada. “Ser sacudido para fora das raízes da percepção ordinária, e ser mostrado, por horas infindáveis, o mundo interior e exterior, não como eles aparecem a um animal obcecado com a sobrevivência ou um homem obcecado com palavras e noções, mas como eles são apreendidos, direta e incondicionalmente, por uma Mente à Solta (Mind at Large) – esta é a experiência de inestimável valor para todos, e em especial para o intelectual.”Aldos Huxley, The Doors of Perception, 1954.Nos EUA, o uso de peiote é apenas aceito em cerimônias religiosas da Native American Church (ou peiotismo, uma religião dos índios norte-americanos) sendo considerado legal (Brands, 1998). Efeitos físicosO consumo de mescalina causa aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, dilatação da pupila, aumento da glicemia sanguínea, da temperatura corporal, diaforese (sudorese) e náuseas. Em altas doses, entretanto, a mescalina leva à quda da glicemia e o usuário pode sofrer diarréia hemorrágica e inconsciência. Doses letais causam convulsão, parada respiratória e arritmias cardíacas. A morte geralmente se dá por falência respiratória.Forma de administraçãoO cacto peiote contém botões que podem ser cortados da raíz e secados. Os botões podem ser mascados ou colocados em água, para produzir um líquido alucinogênico. Os botões de peiote também podem ser moídos em um pó e depois “fumados com algum material em folhas, como a cannabis (maconha) ou tabaco” (Brands, 1998).A mescalina é ingerida sob a forma de pó, cápsulas, comprimidos ou líquido, embora este último seja impopular. Os usuários geralmente consomem entre 300 a 500mg (aproximadamente 3 a 6 botões de peiote) e os efeitos se iniciam entre uma a duas horas, desaparecendo gradualmente 10 a 12 horas após a ingestão.Efeitos psicológicosAlucinações visuais mesmo quando de olhos fechadossensação de "novos" pensamentoscenários com qualidade de sonhoseuforiaexperiências místicasansiedademedo de morrer ou de ser aniquilidomedo de perder o controle ou não voltar ao estado normal de consciênciairracionalidadedissociação temporária/destruição do egoA mescalina não é tão potente quanto o LSD, mas causa efeitos alucinógenos semelhantes. A "viagem" da mescalina pode durar até 12 horas e, similar ao que ocorre com o LSD, pode ser "boa" ou "má". Da mesma forma que o LSD, o usuário sofre uma sensação de prejuízo da sensação e percepção, alteração da percepção temporal, desorganização do pensamento e reações psicóticas.A Native American Church ou peiotismoA Native American Church é uma organização de aspectos semicristãos, sendo a religião dominante nas reservas indígenas Navajo, nos EUA. O principal aspecto desta igreja é o uso do peiote. Devido às propriedades intoxicantes do peiote, diversos missionários e oficias de governos norte-americanos buscaram reprimir o uso da substância nas reservas indígenas, mesmo após elementos do cristianismo terem sido incorporados no peiotismo. Com início no estado de Oklahoma, em 1899, diversos estados americanos aprovaram leis para proibir seu uso. Em 1918, para garantir alguma legitimidade e proteção sob a lei americana, os peiotistas organizaram-se na Native American Church. Em um estudo publicado em 1997, Pavlik relata que as estimativas mais recentes apontam que mais de 50% da população Navajo (mais de 100.000 membros da tribo) são afiliados ao peiotismo. Diferentemente do Santo Daime, no qual aspectos religiosos do cristianismo e de religiões africanas foram incorporados no ritual de beber o chá, os Navajos apresentam filiações cristãs (seja presbiteriana, católica ou mórmom) e também participam de rituais do peiote. Eles costumam citar 2 a 3 religiões distintas em suas práticas.A ênfase nos rituais do peiotismo, entretanto, não parece ser tanto a de "abrir a mente" ou "conectar-se com o criador" mas em rituais de cura e o cacto é visto como um instrumento de cura, seja ela física ou espiritual.Referências:Brands B, Sproule B, Marshman J. 1998. Mescaline. Drugs & Drug Abuse (3rd edition). Pps 351-357. Addiction Research Foundation: Toronto, Ontário: Canadá.Narconon... Read more »

  • April 28, 2010
  • 08:27 AM
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Santa Catarina de Siena: Anorexia mirabilis

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Vou passando, como a sombra que declina; sou atirado para longe, como um gafanhoto. De tanto jejuar, os joelhos me vacilam, e de magreza vai mirrando a minha carne. Tornei-me para eles objeto de opróbrio; quando me vêem, meneiam a cabeçaSalmo 109, 23-25Este post é mais uma patografia, um estudo retrospectivo da vida e doença mental de uma figura histórica. Catarina de SienaCatarina de Siena, nasceu Catarina Benincasa em 25 de Março de 1347 em Siena, na Itália, filha de um tinturador de roupas e neta de um poeta local. Catarina nasceu em meio a epidemia de peste negra, que assolou sua região. Sua mãe estava na casa dos 40 anos quando deu à luz prematuramente às gemeas Catarina e Giovanna. Giovanna foi cuidada por uma ama-de-leite e morreu cedo, enquanto que Catarina foi amamentada por sua própria mãe e desenvolveu-se em uma criança saudável. Sua mãe já tinha tido 22 filhos quando Catarina nasceu, mas metade destes havia morrido. Após 2 anos, sua mãe deu à luz a seu 25o. filho, outra menina que se chamaria Giovanna, como a bebê falecida.Catarina relatava ter tido sua primeira visão de Cristo aos 5 ou 6 anos de idade. Aos sete anos de idade ela jurou castidade, um voto comum entre meninas da época, que geralmente era abandonado quando atingiam a puberdade. Naquela época uma menina encontrava-se pronta para o matrimônio aos 12 anos de idade, passando a usar maquiagem e encaracolar e aloirar o cabelo. Catarina, entretanto, não se interessou por qualquer destes aspectos, acreditando que estes ofendiam a Deus. Como era muito próxima de sua irmã mais velha Bonaventura, a família solicitou que ela aconselhasse Catarina, que conseguiu convencê-la de que vestir-se no seu melhor e cuidar-se não ofendiam à Deus. Por anos Bonaventura manteve sua influência sob Catarina.Entretanto, Bonaventura morreu durante o parto. Catarina sofreu muito com sua morte e passou a acreditar que sua irmã morrera como consequência dos prazeres terrestres que Catarina tanto queria evitar. Ela acreditava que fora fraca ao ceder às vontades da irmã para se vestir melhor e como consequência, Deus havia mostrado sua fúria ao levar para junto de si sua irmã mais amada. Em menos de um ano Giovanna também morreu. Ainda a se recuperar do luto e culpa das duas mortes, Catarina viu-se presa aos desejos dos pais que queriam que ela se casasse aos 16 anos com o viúvo de Bonaventura.Completamente contrária aos desejos de seus pais, Catarina passou a jejuar de forma intensa, um ato que aprendeu com Bonaventura, cujo marido não era nada agradável: todas as vezes que ele a maltratava, Bonaventura recusava-se a comer até que sua atitude melhorasse. Aparentemente tal fato ensinou a Catarina o poder que o jejum pode ter nos relacionamentos. Ela cortou o longo cabelo, para desespero de seus pais e irmãos, que passaram a ameaçá-la de violência se não melhorasse seu comportamento. Para lidar com a hostilidade em casa, Catarina passou a ver seu pai como Cristo, sua mãe como a Virgem Maria e seus irmãos como Apóstolos, servindo-os humildemente no que considerava uma oportunidade para crescimento espiritual. Eventualmente seu pai desistiu de tentar mudá-la e permitiu que vivesse como quisesse. Ela passou a vestir até a morte uma camiseta/camisola de correntes que fería-lhe a carne, dormir em um banco de madeira com uma pedra por travesseiro/almofada e a martirizar-se 3 vezes ao dia por uma hora com uma corrente de aço: uma vez por seus pecados, uma pelos pecados dos vivos e uma pelos dos mortos.Sua mãe desesperava à vista de sua filha emaciada e torturada e muitas vezes Catarina ficava deprimida, chorosa, dizendo-se atormentada por espíritos malignos. Após uma visão de São Domingos de Gusmão, ela decidiu aderir à ordem dos Dominicanos, contrariando os desejos da família. Sua mãe levou-a às águas termais de Bagno Vignoni para que sua saúde melhorasse e para que se esquecesse da ordem. Ao invés de relaxar nas águas mornas, Catarina procurava os locais mais quentes das termas para se queimar. Ela ficou gravemente doente, com uma erupção cutânea, febre e dores, o que convenientemente fez com que sua mãe aceitasse sua decisão. Dias após Catarina recuperou-se completamente para vestir o branco e negro do hábito das freiras. Ao invés de viver no convento, sua família mudou-se para os arredores do mesmo e continuou ao viver com ela. Catarina entretanto, custava-lhes muito caro: com seu hábito de doar comida e roupas sem pedir-lhes permissão, sua generosidade custou muito à família. Ela negava-se a comer com os famíliares e recusava a comida, referindo que havia uma outra mesa posta para ela, no Céu, com sua família verdadeira.Catarina dedicou grande parte de sua vida a ajudar os doentes e os desprovidos, cuidando deles em hospitais ou em suas casas. Devido à sua caridade, ela ajuntou um grupo de seguidores que viajou com ela por todo a Itália central e norte, advocando por uma reforma do clero e por uma nova crusada, pedindo ao povo que se arrependesse dos pecados e se renovasse através do "amor total de Deus".Em 1378, aos 31 anos, Catarina mudou-se para Roma onde trabalhou junto ao papa Urbano VI, onde viveu até sua morte em 1380 aos 33 anos. Dado que Jesus aparentemente morreu com a mesma idade e que Maria Madalena, ídolo de Catarina, aparentemente jejuou por 33 anos, há indícios de que sua morte tenha sido um suicídio passivo por desnutrição.Com o passar dos anos, Catarina comia menos, dizendo não encontrar nutrição na comida terrena. Ao invés de comer, ela recebia a Comunhão todos os dias. Mesmo seu confessor e as freiras acreditavam que sua dieta não era saudável e temiam um escândalo, ordenando que Catarina se alimentasse apropriadamente. Catarina, entretanto, dizia-se incapaz de comer, descrevendo sua inabilidade como uma doença. Ela vomitava tudo o que engolia e sofria de dores de estômago. Quando forçada a alimentar-se, Catarina introduzia galhos na garganta para provocar vômitos. Ela preferia servir comida aos pobres, muitas vezes a horas peculiares, e buscava "nutrição" neste contato. Muitas vezes ela sugava o pus da ferida dos doentes. Após estes episódios, sua saúde deteriorou-se e sua dieta consistia apenas de Hóstias Sagradas e pus. Conforme Catarina adoecia, seu confessor e biógrafo desistiu de suas tentativas de fazê-la comer, assim como sua família havia desistido dela anteriormente. Uma crise que se abatia sobre a Igreja fez com que Catarina parasse também de beber água em Janeiro de 1380, de forma a atrair atenção à sua mensagem de unidade. Como não houve resultado, ela parou o jejum extremo,mas já era tarde para assegurar sua sobrevivência.Após diversos milagres, o Papa Pio II canonizou Catarina em 1461.Anorexia mirabilisSegundo pesquisadores e estudiosos, Catarina de Siena sofria de Anorexia mirabilis, que significa "falta de apetite milagrosa". Esta condição parece referir-se quase que exclusivamente a mulheres e adolescentes da Idade Média que jejuavam, muitas vezes até a morte, em nome de Deus. O fenômeno também é conhecido como inedia prodigiosa (jejum progidioso).A anorexia mirabilis parece diferir da anorexia nervosa de diversas formas: na anorexia nervosa, o paciente geralmente faz dietas para obter um nível de magreza, já que a doença é associada a imagem corporal distorcida. Já na anorexia mirabilis, a dieta é frequentemente associada com outras práticas ascéticas (renúncia de prazer) como a virgindade, comportamento autoflagelante, dormir em camas de espinhos e outros tipos de automutilações. Vale lembrar que até recentemente, um corpo mais cheinho era visto como um claro sinal de afluência e boa colocação social enquanto que um corpo emaciado era um claro sinal de pobreza ou doença. Apenas na época Vitoriana as mulheres passaram a fazer dietas drásticas na busca pela beleza exterior. Até então, a dieta rígida era associada a engrandecimento espiritual.Muitas mulheres notoriamente recusavam qualquer alimento que não a Eucaristia, demonstrando não apenas sua devoção à Deus e Jesus, mas também a separação entre o corpo e o espírito. Que o corpo pudesse existir por extensos períodos sem alimento dava às pessoas da época uma clara imagem de quão mais forte, e portanto mais importante, o espírito era. Não importava, na opinião popular, que os períodos de jejuns femininos fossem impossivelmente longos (de meses a anos). Eles simplesmente adicionavam significado especial a esta conquista feminina.A prática da anorexia mirabilis reduziu-se bruscamente durante a Renascença, quando passou a ser vista pela igreja como herética, socialmente perigosa e possivelmente inspirada pelo demônio. A prá... Read more »

  • April 16, 2010
  • 11:26 AM
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Aspectos psiquiátricos do cuidado de pacientes terminais (cuidados paliativos) II

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Diagnósticos psiquiátricos – Prevalência, etiologia e como reconhecê-los, parte II (parte I aqui)DelíriumO delírium é uma das principais causas da consulta de psiquiatria em hospitais gerais. Para um familiar e mesmo membros da equipe clínica, é muito difícil ver pacientes agitados, delirantes, com alucinações causadas por rebaixamento do nível de consciência. O delírium (que é uma entidade diferente do delírio, crenças irredutíveis que ocorrem com clareza de consciência) é provocado por uma alteração do sistema nervoso central (SNC) em resposta a desequilíbrios metabólicos, doenças cardiovasculares, arritmias ou quaisquer processos que comprometam o bom funcionamento cerebral. Sua ocorrência é bastante comum nos hospitais mas o mesmo é subdiagnosticado. É importantíssimo caracterizar e diagnosticar este quadro pois os processos subjacentes que levam ao seu desenvolvimento envolvem risco de vida para o paciente.Assim, não é de se estranhar que pacientes terminais, cujos órgãos e sistemas estão a falir lentamente, apresentem prevalência elevada deste quadro. Segundo Erkinjutti (1986) 9% dos pacientes maiores de 55 anos no momento da admissão no hospital geral apresentam demência e 41% apresentam delírium. Além disso, cerca de 85% dos pacientes terminais apresentam o quadro.Os fatores de risco específicos para a ocorrência do delírium incluem:IdososPacientes no pós-operatórioPacientes com câncerPacientes com AIDSFatores etiológicosProblemas metabólicosEfeito colateral dos medicamentosAnóxia (privação de oxigênio)Abstinência de drogasInfecçõesEm 30% dos delírios as causas não são encontradasO delírium pode ser classificado em (Lipowski, 1990):Hiperativo (agitação, excitabilidade, distúrbios do comportamento - amedrontado ou agressivo, paranóia, alucinações)Hipoactivo (depressão aparente, sedação, sonolência, introspecção, paciente quieto)MistoDiagnósticoGeralmente o delírium apresenta um início súbito e tem causas orgânicas (médicas ao invés de psiquiátricas) e é um quadro típico de distúrbio da consciência, humor e percepção. Existem alguns instrumentos que podem ajudar no diagnóstico do quadro como as escalas Delirium Rating Scale (Trzepacz et al, 2001) e Confusion Assessment Method.AjustamentoO transtorno de ajustamento é um quadro auto-limitado associado a eventos vitais (ou alterações importantes na vida do paciente) como divórcios, luto, mudança de país, etc. Como uma doença grave e terminal como o câncer causa diversas alterações na qualidade de vida dos pacientes, não é de se espantar a alta prevalência do transtorno nestes doentes. O transtorno de ajustamento, entretanto, tende a ser auto-limitado e associado aos estágios de luto. Alterações biológicas (distúrbios do humor, sono, apetite e concentração) são comuns. Até 24% dos pacientes em hospícios apresentam reações de ajustamento.Como o transtorno de ajustamento tende a ser auto-limitado, antidepressivos só devem ser administrados em reações severas e prolongadas. NUNCA se deve utilizar benzodiazepinas (calmantes tarja preta) pois os mesmos inibem e “congelam” o processo psicológico de ajustamento. Não medicalize! Uma abordagem empática é a melhor solução nestes casos.Pânico e ansiedadeNa população geral quadros de pânico e transtornos de ansiedade são associados ao sexo feminino, pacientes jovens e de baixo status sócio-econômico. Estes padrões não se aplicam aos pacientes com câncer. 16% dos encaminhamentos para psiquiatria em pacientes terminais dizem respeito a transtornos de ansiedade. Destes, 73% apresentam transtornos de ajustamento e 9% depressão major. Além disso, sabe-se que 21% dos pacientes com câncer apresentam sintomas ansiosos (Derrogatis, 1983). Os sintomas apresentam-se de foma semelhante à população geral e geralmente são comórbidos a quadros depressivos.Os sintomas ansiosos podem ser devido a Ansiedade antecipatória à quimioterapiaDor incontrolávelTumores secretores de hormônios e tumores que produzem ACTH (carcinoma de pulmão, por exemplo)Estados de abstinênciaSecundários a esteróides, broncodilatadores e estimulantes beta-adrenérgicosDemênciaPacientes demenciados são clientes comuns de hospitais gerais e de enfermarias de cuidados paliativos. Estes pacientes apresentam seus próprios desafios no cuidado em geral, criando:Problemas na comunicação, impedindo consentimento verdadeiramente informadoProblemas para apreciação do sucesso das estratégias (ex. tratamento da dor) por parte dos médicosAlta vulnerabilidade ao deliriumDistúrbios do comportamentoEstratégias de manejo destes pacientes:Manejo físicoOtimizar cuidadoOtimizar hidratação e nutriçãoCorrigir deficiências vitamínicas e de eletrólitosConsiderar desordens endócrinas como causaConsiderar outras rotas de administraçãoUsar tão poucos medicamentos quanto possívelManejo psicológicoPacientes e cuidadores geralmente ficam aliviados ao serem esclarecidos de que os sintomas psiquiátricos podem ser uma complicação da doença de base (demência). Isto é importante, especialmente no caso de cuidadores de pacientes com delirium, que ficam bastante angustiados por o paciente tornar-se aparentemente “louco”.ECTEmbora o público em geral tenha muitos preconceitos contra a eletroconvulsoterapia (ECT), ela tem seu lugar nos cuidados paliativos, sendo indicada em pacientes agitados, psicóticos e com sintomas graves de depressão, podendo melhorar o humor de forma mais rápida e com menos efeitos colaterais. Entre as contraindicações do procedimento encontram-se fraturas ósseas patológicas, tumor cerebral primário ou secundário se o paciente já estiver a apresentar crises convulsivas.Manejo social e ambientalAjudar o paciente a organizar seus papéis e resolver conflitosMinistros, padres, sacerdotes, pastores da religião do paciente podem dar apoio, se esta for a vontade desteManejo ambiental:Número adequado de enfermeiros para garantir a segurança necessáriaAmbiente seguro, quieto e que ajude na orientação do doenteRelativos devem fazer visitas breves mas regularesPsicofarmacologiaEmbora muitos quadros de agitação possam ser resolvidos com medidas ambientais descritas acima, manejo adequado da doença de base ou com mudanças nos medicamentos e hidratação, muitas vezes há necessidade de se utilizar medicamentos psiquiátricos específicos:AntipsicóticosAlguns são utilizados por seus efeitos antieméticos - reduzem náuseas e vômitos (clorpromazina, levomepromazina, prochtrperazina e metoclopramida). A principal indicação nestes pacientes é a redução da intensidade e duração dos sintomas de delirium atuando em delirium hipo e hiperativo(Breitbant, 1996). O haloperidol continua a ser o gold standart já que causa a maior contenção química possível, dentro da menor sedação, em doses geralmente não maiores do que 2mg/dia. Os atípicos apresentam eficácia comparável, mas sem vantagens significativas. 10-20% dos pacientes com delirium são arresponsivos a intervenções com neurolépticos. O controle só pode ser obtido, nestes casos, com sedação e redução do nível de consciência.Em geral, duas estratégias são mais utilizadas:• Midazolam • Propofol IV. O propofol é mais vantajoso nestes casos pois permite o controle do nível de sedação de forma mais fácil e a recuperação é mais rápida.PsicoestimulantesDextroanfetamina (ao café-da-manhã e almoço, 25mg em doses crescentes de forma contínua no curso de dias), metilfenidato, pemolina.São alternativas para o tratamento da depressão nos doentes terminais (Burns e Eisendrath, 1994) já que apresentam ação mais rápida que antidepressivos (AD). Os psicoestimulantes estão especialmente indicados no... Read more »

  • April 14, 2010
  • 05:21 AM
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Aspectos psiquiátricos do cuidado de pacientes terminais (cuidados paliativos)

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Com a publicação do novo Código de Ética Médica, o cuidado aos pacientes terminais está em foco. O novo Código é explícito ao proibir intervenções desnecessárias para prolongar a vida de um paciente terminal em sofrimento.Quando ainda era residente, notei como o psiquiatra era constantemente chamado para avaliar pacientes terminais nas enfermarias de clínica geral (cardiologia, endócrino, etc) e enfermarias destinadas a pacientes com câncer/cancro. Muitas vezes via que era chamada mais no sentido de lidar com a ansiedade da equipe clínica ou da família, que esperavam um medicamento "sossega leão" para o doente emaciado e agitado, contido na cama para sua própria segurança. É incrível como essa visão da "psiquiatria de sedação" persiste na medicina brasileira e como os clínicos e a família não estão preparados para lidar com a morte. De fato o psiquiatra tem lugar no cuidado de pacientes terminais, mas longe de ser um técnico ali presente para administrar um anestésico e calar o doente, a avaliação pode trazer benefícios e esclarecer dúvidas.Em primeiro lugar temos que conceituar a morte. Provavelmente escreverei um post específico no futuro sobre a antropologia da morte mas, de forma geral, embora a população mundial esteja progressivamente envelhecendo mais, paradoxalmente a morte não é aceita como como parte normal da existência. Morrer hoje é um ato médico, no qual muito embora a maioria dos pacientes refira que prefere morrer em casa, a grande maioria das mortes ocorre em hospitais, cercada de aparatos médicos e de certa forma dissociada da nossa consciência. Talvez este afastamento da morte do seio da sociedade seja o responsável pelo fato de a morte não ser vista como fenômeno natural. O mundo atual perdeu os rituais de passagem que asseguravam um processo de luto mais saudável e a morte hoje é mecânica e impessoal.Na Europa, esta tendência impessoal tem sido refutada com a criação de Hospícios: Em 1967 foi criado o St. Christopher Hospice em Sydenham (na Inglaterra), destinados a receber pacientes terminais e fornecer um cuidado diferenciado e mais humanizado. Embora o nome lembre os manicômios psiquiátricos de antigamente na língua portuguesa, os hospícios são locais de paz e calma, com uma equipe treinada neste tipo de cuidados. Eu conheci o funcionamento de uma destas instituições em Somerset quando perdi um familiar com câncer de estômago há dois anos. O hospício é um misto de hospital e casa: embora conte com equipe clínica e material médico, a decoração é a mais aconchegante possível e os quartos e o layout arquitetônico primam pela busca de belas paisagens e jardins de relaxamento. As salas de espera para os familiares no período de visitas são aconchegantes como uma sala de estar e o hospício dispunha até mesmo de uma cafeteria self-service, onde podíamos fazer nosso próprio chá e comer bolachas disponibilizadas pela equipe por sobre as mesas. O leitor brasileiro deve estar a pensar nos custos de tal local para um paciente terminal e sua família, mas devo lembrá-lo que o sistema de saúde inglês é público e a maioria destas instituições é financiada por Instituições de Caridade ou pelo setor privado, que faz doações em troca de reduções fiscaisexemplo de cuidado paliativo em hospício, com um ambiente mais familiar e aconchegante, para conforto do pacienteVoltando ao assunto do papel do psiquiatra no cuidado destes pacientes...De fato é verdade que os doentes terminais apresentam altas taxas de comorbidades psiquiátricas (Derogatis, 1983), mas também é importante notar que há um superdiagnóstico de depressão e muito poucos diagnósticos de transtornos de ajustamento e delirium. Assim, como há muita confusão nos clínicos e nos familiares sobre se o paciente está deprimido e como aparentemente este é o diagnóstico mais comumente fornecido aos pacientes terminais, vou começar por ele:Depressão nos doentes terminais – Prevalência, etiologia e como reconhecê-laSegundo a literatura científica, 47% de todos os pacientes com câncer/cancro apresentam um transtorno psiquiátrico, dos quais 68% apresentam humor deprimido ou ansioso e 13% apresentam depressão major (Lloyds-Williams, 2001). Em comparação, a população hospitalar (hospital geral) apresenta taxas de depressão em torno de 15% (Mayou e Hawton, 1986). Já a população geral apresenta prevalência de 5 a 7%. Ou seja: as taxas de depressão em pacientes com câncer/cancro terminal não são muito diferentes do que se espera encontrar em um hospital geral (ortopedia, cirurgia, clínica geral). Em geral, 52% dos pacientes em hospícios são referidos ao psiquiatra devido a “depressão”, mas apenas metade destes apresenta o quadro. Fatores etiológicos que justificam a prevalência duas vezes maior de depressão nesta população:Múltiplas perdas de funcionamento social e físico - uma doença por si só é um "golpe narcísico" e abala a autoconfiança e a ideação de invencibilidade que todos temos. Enfrentar a própria finitude e fragilidade pode levar à depressãoFuturo incerto e temidoDor, constipação, problemas metabólicosEfeitos colaterais de fármacos - muitos medicamentos podem reduzir os níveis de neurotransmissores responsáveis pelo humor (como serotonina, adrenalina e dopamina), causando um estado depressivoEfeito direto do câncer a nível de neurotransmissoresDiagnósticoO ponto chave para um diagnóstico correto de depressão nestes pacientes é observar sintomas psicológicos (humor deprimido, pensamentos negativos, culpa, desesperança e anedonia) ao invés de sintomas físicos (sono, apetite e concentração), que tendem a estar alterados devido à doença e seu tratamento.Muitas vezes utilizamos escalas de depressão para assegurar e pontuar sintomas depressivos, mas estas não são bons instrumentos nesta população: o enfoque em sintomas somáticos pode levar a falsos positivos.Os critérios abaixo foram criados para auxiliar clínicos que trabalham com pacientes terminais e são o "gold standard" na avalição de depressão em pacientes terminais:Critérios de EndicottA presença de 5 ou mais critérios durante 2 ou mais semanas é altamente indicativo de depressão em pacientes terminais:Aparência amedrontada ou introspectivaRetração emocional ou pacientes menos comunicativosRetardo ou agitação psicomotoraHumor deprimido, subjetivamente ou observadoMarcada diminuição no interesse ou prazer na maioria das atividades durante maior parte do diaMeditação mórbida persistente, pena de si mesmo ou pessimismoSentimentos de que não tem valor ou culpa excessiva ou inadequadaPensamentos recorrentes de morte ou suicídioHumor não reativo a eventos ambientaisContinuo o assunto nos próximos postsPara ler mais: Coluna da revista Época sobre o dia a dia de uma enfermaria de cuidados paliativos no Brasil:A enfermaria entre a vida e a morte Lá, eles respeitam o tempo de morrer. Lá, cuidar é mais importante que curar. Lá, todo dia eles respondem: prolongar a vida ou aceitar o fim?Referências: ... Read more »

Derogatis LR, Morrow GR, Fetting J, Penman D, Piasetsky S, Schmale AM, Henrichs M, Carnicke CL Jr. (1983) The prevalence of psychiatric disorders among cancer patients. JAMA, 249(6), 751-757. info:/6823028

Mayou, R., & Hawton, K. (1986) Psychiatric disorder in the general hospital. The British Journal of Psychiatry, 149(2), 172-190. DOI: 10.1192/bjp.149.2.172  

  • April 13, 2010
  • 11:37 AM
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O transtorno bipolar: uma introdução rápida II

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Impacto do transtorno bipolarO impacto do transtorno bipolar pode ser observado em vários aspectos da vida dos pacientes. Enquanto que a fase maníaca é mais aparente socialmente, a fase depressiva, com seus sintomas de tristeza persistente, parece causar maior prejuízo funcional. Merikangas et al (2007) estudou diversos pacientes com diagnóstico de bipolar (todos os diagnósticos) e notou que 87% dos que referiram episódios depressivos no ano anterior apresentaram prejuízo no desempenho (trabalho, vida social, atividades de prazer, responsabilidades de casa e familiares), quando comparados com 57% que apresentaram um episódio maníaco ou hipomaníaco no ano anterior.Devido a ser uma doença que afeta indivíduos que estão a começar suas vidas, o transtorno acarreta prejuízos sociais, educacionais e no desenvolvimento das carreiras, o que pode explicar porque o diagnóstico está associado a maiores níveis de desemprego e piores níveis escolares quando comparado à população geral (Merikangas et al, 2007). Em 2000, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimava que o transtorno bipolar era a quinta causa de anos vividos com debilidades entre indivíduos de 15 a 44 anos e a nona causa de anos vividos com debilidades em indivíduos de todas as idades (OMS, 2001). Além disso, a doença é associada a taxas aumentadas de mortalidade por causas "naturais" como doenças cardiovasculares, doenças cerebro-vasculares, problemas gastrointestinais e doenças endócrinas (como o diabetes). Até 50% dos pacientes com o transtorno podem apresentar tentativas de suicídio e morte por suicídio pode chegar a 25% no início da doença (Valtonen et al, 2005).Os pacientes com transtorno bipolar são usuários pesados dos sistemas de saúde, tanto cuidados primários quanto serviços especializados de psiquiatria. Os americanos são famosos por realizar estudos de farmacoeconomia, no qual o impacto de uma doença em específico é medido em dólares. Estes estudos envolvem os custos do tratamento diretamente (medicamentos, internações) e custos indiretos (como anos perdidos de trabalho e impostos, depredações causadas por atos antissociais, produtividade reduzida, mortalidade em excesso por suicídio, etc). Begley e colaboradores (2001) estimaram que os custos diretos e indiretos do tratamento do transtorno bipolar refratário (que não melhora com medicamentos), que tenha se iniciado em 1998 poderia ser $600.000 dólares (em 1998, mais ou menos 1.054.199,93 Reais ou 441 631.091 Euros). O custo direto do tratamento era responsável por apenas 20% desta quantia.Metas futuras no transtorno bipolarComo o transtorno bipolar apresenta sintomas depressivos, muitas vezes ele é confundido e diagnosticado como depressão. Outros diagnósticos equivocados nestes pacientes incluem transtornos de personalidade (borderline), TDAH, transtornos de ansiedade, etc. Infelizmente o diagnóstico equivocado do bipolar pode ter repercussões no curso da doença: Um paciente bipolar não diagnosticado está a perder anos de produtividade e o tratamento inadequado não impede as flutuações do humor. Como escrevi anteriormente no primeiro post desta série, certos pacientes que apresentam muitas fases de alterações do humor podem tornar-se cicladores rápidos, com menor tempo de remissão de sintomas, acarretando maior prejuízo e dificultando o tratamento.Infelizmente não há provas específicas em psiquiatria para o transtorno e muitas vezes o médico diagnostica o transtorno bipolar como depressão no início da doença porque o paciente apenas apresentou fases depressivas (só posteriormente apresenta uma fase maníaca ou hipomaníaca). Este é um erro honesto. Melhores ferramentas diagnósticas são necessárias na área, mas novas opções terapêuticas também são urgentes. Por exemplo, a grande maioria dos medicamentos em oferta hoje foi aprovada para o tratamento da mania aguda e agem melhor nesta fase do que na depressiva (apesar do bipolar ter predominância de episódios depressivos). O tratamento de manutenção de longo prazo também é de certa forma limitado já que a maior parte dos estabilizadores de humor (lítio, divalproato de sódio, carbamazepina e lamotrigina) são mais eficazes em prevenir a fase maníaca do que a fase depressiva. Muitos pacientes estabilizam "abaixo" da linha de humor eutímico (humor normal), ou seja, eles estabilizam levemente depressivos, o que acarreta prejuízos funcionais e angústia e sofrimento. Esta é uma importante causa de abandono de tratamento (especialmente nos bipolares tipo II), e muitos relatam que pararam o estabilizador de humor pois queriam ter "mais energia" ou "sentir-se melhor". Além disso os medicamentos disponíveis hoje tem sérios problemas de tolerabilidade com efeitos colaterais gastrointestinais e sintomas associados ao Sistema Nervoso Central. Os antipsicóticos (utilizados para conter a agitação e os sintomas psicóticos da fase maníaca) apresentam diversos efeitos colaterais e mesmo os de nova geração apresentam diversos avisos quanto a sedação, ganho de peso e alterações metabólicas.Referências:Merikangas KR, Akiskal HS, Angst J, Greenberg PE, Hirschfeld RM, Petukhova M, & Kessler RC (2007). Lifetime and 12-month prevalence of bipolar spectrum disorder in the National Comorbidity Survey replication. Archives of general psychiatry, 64 (5), 543-52 PMID: 17485606OMS (2001). The World Health Report 2001: mental health: new understanding, new hope. Disponível em http://www.who.int/whr/2001/enValtonen, H., Suominen, K., Mantere, O., Leppämäki, S., Arvilommi, P., & Isometsä, E. (2005). Suicidal Ideation and Attempts in Bipolar I and II Disorders The Journal of Clinical Psychiatry, 66 (11), 1456-1462 DOI: 10.4088/JCP.v66n1116Fotos:http://www.newjerseydisabilitylaw.com/new-je2.jpg... Read more »

Merikangas KR, Akiskal HS, Angst J, Greenberg PE, Hirschfeld RM, Petukhova M, & Kessler RC. (2007) Lifetime and 12-month prevalence of bipolar spectrum disorder in the National Comorbidity Survey replication. Archives of general psychiatry, 64(5), 543-52. PMID: 17485606  

Valtonen, H., Suominen, K., Mantere, O., Leppämäki, S., Arvilommi, P., & Isometsä, E. (2005) Suicidal Ideation and Attempts in Bipolar I and II Disorders. The Journal of Clinical Psychiatry, 66(11), 1456-1462. DOI: 10.4088/JCP.v66n1116  

  • April 12, 2010
  • 03:38 PM
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O transtorno bipolar: uma introdução rápida

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

O transtorno bipolar compartilha sintomas com a depressão major, mas na verdade é definido por episódios de mania ou hipomania. A depressão pode incluir sintomas afetivos como tristeza pervasiva (humor depressivo que não melhora), falta de prazer e interesse em atividades antes prazeirosas (anedonia/apatia) e irritabilidade (mais comum em crianças e adolescentes). Os sintomas cognitivos do quadro depressivo incluem baixa auto-estima e concentração, indecisão, sentimentos de culpa e pensamentos suicidas, além de sintomas físicos como retardo psicomotor ou agitação, insônia ou hipersonia, e reduções no apetite e energia.É importante lembrar que nem tudo que tem listras é zebra e outras doenças e situações de vida podem apresentar-se com os sintomas descritos acima, por isso apenas um profissional da área pode realmente definir um diagnóstico de pressão.De certa forma, a mania é uma imagem refletida da depressão e os sintomas podem incluir humor eufórico e expansivo ou irritável, sintomas cognitivos como aumento da auto-estima, distraibilidade e fuga de pensamentos (quando os pensamentos ficam tão rápidos que o paciente não consegue manter controle sobre eles, mudando de um assunto para o outro), e sintomas comportamentais como aumento da atividade psicomotora e impulsividade. Um sintoma muito distintivo (mas nem sempre presente) é uma necessidade reduzida de horas de sono: o paciente que antes dormia 8 horas dorme apenas 2 horas por noite, por exemplo, e acorda descansado. Embora o paciente tenha muita energia, de forma geral há uma desorganização do comportamento (justamente pelo excesso de atividade) e embora o paciente comece muitos projetos, dificilmente os termina. Da mesma forma que na depressão major, outras doenças, e até mesmo certos medicamentos (como corticóides, anorexígenos, anfetaminas) podem causar sintomas maníacos (sintomas típicos da mania) e o quadro não pode ser diagnosticado como transtorno bipolar.Já a hipomania não é tão severa quanto a mania e geralmente é caracterizada como "uma mania" leve a moderada". Inclusive encontramos pacientes muitas vezes com melhora da função (término de projetos iniciados) ao invés de deterioração. PrevalênciaO transtorno bipolar (em uma abordagem bastante ampla e vaga, incluindo todos os subdiagnósticos) tem uma prevalência na comunidade de 4%. Ou seja, a cada 100 pessoas, 4 podem apresentar o transtorno. Em geral 1% da população apresenta o transtorno bipolar tipo I (vide abaixo), 1% apresentam o tipo II, e 2% apresentam ciclotimia ou transtorno bipolar não especificado (Merikangas et al, 2007).Não há qualquer evidência de alteração da prevalência do transtorno em raças ou etnias:brancos, negros, índios, asiáticos, etc tem a mesma prevalência (Merikangas et al, 2007). Sexo também não faz qualquer diferença na prevalência, mas aparentemente as mulheres tem maior risco para serem cicladoras rápidas (vide abaixo) e a apresentar sintomas mistos (idem) do que os homens (Tondo e Baldessarini, 1998). O pico de início dos sintomas para todos os transtornos bipolares varia do final da adolescência até o adulto jovem e mais de dois terços dos pacientes apresentam os primeiros sintomas antes dos 18 anos de idade (Weissman et al, 1996).Os subtipos do transtorno bipolarTranstorno bipolar tipo IO tipo I diferencia-se dos outros tipos pela presença de pelo menos um episódio maníaco ou episódio misto. No episódio misto, estão presentes tanto os sintomas de um episódio maníaco e de um episódio depressivo ao mesmo tempo (ocorrem no mesmo dia). Embora episódios depressivos não sejam necessários para o diagnóstico, eles são vistos na maioria dos pacientes. Ou seja: apenas a fase maníaca (sintomas de euforia) é suficiente para se caracterizar como bipolar tipo I. Como dito acima, o transtorno ocorre de forma igual nos dois sexos mas nas mulheres o primeiro episódio tende a ser depressivo e nos homens, maníaco. Em geral 90% dos pacientes com bipolar tipo I terão episódios recorrentes, com as fases de remissão tornando-se cada vez menores entre os episódios (quanto maior a idade e maior o número de episódios na vida, maior tendência a ter mais episódios com encurtamento da fase de remissão) (APA, 2000). Em geral, uso de substâncias (drogas), transtornos de ansiedade e em menor grau, transtornos alimentares e déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) podem ser comórbidos com o transtorno bipolar tipo I (McIntyre et al., 2004)Transtonor bipolar tipo IIO tipo II é caracterizado por um ou mais episódios depressivos e pelo menos um episódio hipomaníaco. O transtorno tipo II parece ser mais comum em mulheres e estas parecem apresentar mais episódios depressivos ou hipomania disfórica (humor irritável) enquanto que os homens apresentam mais episódios hipomaníacos "puros" (euforia leve).Quando se olha o gráfico, uma pessoa pode pensar que o bipolar tipo II é mais leve já que a hipomania não é tão grave quanto a mania e psicose é rara neste subtipo (embora os pacientes possam apresentar depressão psicótica). Entretanto, o tipo II não deve ser subestimado já que o peso do episódio depressivo na vida do paciente parece ser mais substancial que no bipolar tipo I. As taxas de ideação e tentativa de suicídio são altas nos dois tipos e no tipo II a depressão parece durar mais e ser mais clinicamente significativa do que no tipo I. Pacientes cicladores rápidos (que apresentam pelo menos 4 episódios de alteração do humor por ano, geralmente refratários a tratamento) são mais comuns no tipo II. Comorbidades comuns incluem uso de substâncias, ansiedade e em menor grau, transtornos alimentares, TDAH, transtorno disfórico pré-menstrual e personalidade borderline.Transtorno ciclotímicoO transtorno ciclotímico é caracterizado por um padrão recorrente de episódios hipomaníacos e episódios depressivos leves a moderados (APA, 2000). Os sintomas são mais leves (não preenchendo critérios diagnósticos para mania ou depressão major) mas o distúrbio do humor é crônico e os pacientes nunca estão livres de sintomas por mais do que 2 meses em um período de dois anos. Comparado aos bipolar I e II, a ciclotimia tem maior frequência, mas menor amplitude nas alterações do humor. Embora não haja diferenças entre os sexos, mais mulheres procuram ajuda do que homens e em geral os pacientes não vão ao médico com queixas de humor, mas por quadros comórbidos como transtornos de ansiedade, uso de substâncias e transtornos de personalidade. Em geral, 15 a 50% dos pacientes diagnosticados com transtorno ciclotímico progridem para bipolar tipo I ou II (mais comumente).Transtorno bipolar não especificadoEsta é uma categoria residual, na qual se diagnosticam pacientes com aspectos bipolares que não preenchem critérios específicos para os tipos acima descritos. Por exemplo, um paciente que tem diversos episódios hipomaníacos mas nenhum depressivo, episódios que duram pouco tempo, etc. Fotos: http://i.ehow.com/images/a04/q4/0k/bipolar-disorder-genetic-800X800.jpgGráficos: meus mesmoReferências... Read more »

Merikangas, K., Akiskal, H., Angst, J., Greenberg, P., Hirschfeld, R., Petukhova, M., & Kessler, R. (2007) Lifetime and 12-Month Prevalence of Bipolar Spectrum Disorder in the National Comorbidity Survey Replication. Archives of General Psychiatry, 64(5), 543-552. DOI: 10.1001/archpsyc.64.5.543  

Weissman, M. (1996) Cross-national epidemiology of major depression and bipolar disorder. JAMA: The Journal of the American Medical Association, 276(4), 293-299. DOI: 10.1001/jama.276.4.293  

McIntyre, R., Konarski, J., & Yatham, L. (2004) Comorbidity in bipolar disorder: a framework for rational treatment selection. Human Psychopharmacology: Clinical and Experimental, 19(6), 369-386. DOI: 10.1002/hup.612  

  • April 7, 2010
  • 10:51 AM
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Cuidado com o curandeirismo virtual

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Um ditado inglês diz que ser adulto é não se chocar com mais nada. Entretanto a malícia é tamanha que não consigo conter meu espanto.Eu criei este blog ano passado para discutir temas em saúde mental na minha língua materna. Um dos objetivos era utilizar da internet (este meio que socializa e uniformiza o conhecimento) para explorar temas que nunca havia discutido em minha residência em psiquiatria, como sexologia (que vi em Portugal) e neuropsiquiatria de ponta (na Inglaterra). Outro era criar mais um meio no qual as pessoas que tivessem dúvidas sobre a psiquiatria, uma área ainda envolta em preconceito e medo, encontrassem informação detalhada numa linguagem leiga. E por fim, sou mesmo muito opinionada e ter um veículo no qual possa escrever livremente o que penso de terapias alternativas e outros assuntos polêmicos é bastante catártico.Conforme o blog foi ganhando momento, conheci muitos outros blogueiros e passei a receber diversos emails. Alguns de ex-pacientes e estudantes, que me encontraram e outros de desconhecidos, com dúvidas sobre um ou outro assunto. Conforme está sugerido no cabeçalho do blog, assim que possível disponho-me a responder as dúvidas ou a apontar o caminho.Recentemente algumas pessoas passaram a me escrever com dúvidas sobre seus médicos e tratamentos, muitas vezes em longos e detalhados emails. Como disse antes, assim que possível respondo a todos, mas estabeleci algumas regras básicas nestas situações, norteadas por princípios éticos:Nunca se faz diagnóstico pela internet. Diagnóstico pressupõe avaliação, o que não ocorre no meio virtual. Muitos emails são extremamente detalhados e trazem histórias de vida interessantíssimas. Mesmo assim, uma avaliação psiquiátrica consiste não só no conteúdo do que é dito, mas na forma como este conteúdo é entregue. Olhares, movimentos corporais, pausas, tiques e outros são tão parte do exame psiquiátrico quanto a queixa do paciente. Enquanto que no cardiologista a queixa principal (dor), e a história da queixa (quando começou, onde, etc) são suficientes para se formular uma hipótese diagnóstica, o mesmo não vale para a psiquiatria. A observação do paciente é fundamental.Nunca se prescreve para alguém que nunca se avaliou. Este é um princípio básico do bom médico. Muitas vezes vi colegas prescreverem medicamentos para a mãe de alguém (que nunca foi vista por eles). Segundo a lei, colocar algo na xícara de café ou na comida sem que a pessoa saiba é prática de envenenamento e o médico pode ser considerado cúmplice se prescreveu o medicamento para alguém que não sabia que estava a usá-lo. Da mesma forma, prescrever ou discutir uma prescrição pela internet ("seu médico está errado, você deveria utilizar o medicamento X em vez do Y") é extremamente antiético.Mesmo a discussão de uma hipótese diagnóstica é complicada: O leitor pode notar que diversas vezes fiz o uso da expressão hipótese diagnóstica. Isso é decorrente do fato de que em medicina (como em todas as áreas científicas) o que se faz são hipóteses que depois são ou não colocadas a teste. Quando um clínico geral diz "parece ser pneumonia" (hipótese) ele manda o paciente para o Raio-X ou ausculta o pulmão. Estes são testes para confirmar ou negar a hipótese estabelecida. O mesmo ocorre na psiquiatria. Um diagnóstico não é um rótulo que a pessoa tem que usar colado na testa para o resto da vida. É uma hipótese que vai ser testada com o tratamento. Infelizmente ainda não existem testes diagnósticos fidedignos na área e a prova do tratamento é o que testa melhor se uma hipótese é ou não verdadeira. Quem assiste a série americana House M.D. entende melhor o que estou a dizer aqui, pois os criadores da série foram muito felizes ao demonstrar como é mesmo uma arte o ato de diagnosticar e como provar esta hipótese pode ser difícil.House M.D.O objetivo deste post não é impedir que o leitor me contacte se tiver dúvidas, mas esclarecer, ajudar a separar o joio do trigo: Recentemente li um post em um blog de ciências brasileiro que retoma a discussão sobre "bicarbonato cura o câncer/cancro". Para quem não se lembra, há uns dois ou três anos atrás um ex-médico italiano (o registro dele foi cassado por falta de ética em seus estudos) alegou que tinha encontrado a "cura do câncer" utilizando o simples bicarbonato de cozinha. Diversos estudos sérios surgiram contestando o achado do médico (que dizia que o câncer era provocado por um fungo) e o tema virou assunto de spams, que vira e mexe recebemos na caixa de entrada de nossos emails.No blog RNAm, escrito por dois doutorandos em biologia, que faz parte da comunidade Reseach Blogging, os autores escreveram um post bastante polêmico, de título "Bicarbonato de sódio FUNCIONA contra o câncer". Nele, os autores que anteriormente haviam discutido o teor dos spams sobre bicarbonato de forma ácida discutem dois artigos que encontraram que o aumento do pH pode reduzir metástases. Os artigos praticamente não tem nada a ver com o que o médico italiano proclamava. Eles discutem testes in vitro e a via de administração do bicarbonato é bastante específica.O post foi suficiente para causar uma inundação de comentários de fé. Desde veterinários, biólogos e outros a chamarem os autores de nomes de baixo calão (uma tristeza) a pessoas bem intencionadas mas completamente perdidas que acreditam (tem fé) que o bicarbonato funciona e a ciência é que tem que provar que ele não funciona.Eu já havia escrito num post anterior como o método científico funciona. Basicamente, quem propõe a teoria é quem deve realizar testes para prová-la (o ônus da prova cabe ao autor) e NADA é provado em ciência. NUNCA. Não existem verdades absolutas no meio científico. Verdade absoluta é uma questão de religião. Por exemplo: "Deus existe". Se você acredita em Deus, isto deve bastar para si e para sua fé. A religião exige uma crença, um salto de fé, no escuro, uma crença em Deus, sem provas. Já a ciência exige que quando se faz uma afirmação ou uma negação, que se realize provas para testar a veracidade da hipótese. Então quando alguém diz que acredita em homeopatia, po exemplo, já saiu do campo científico e entrou no campo da fé. É um direito seu fazer isso, mas esta forma de discurso não pode ser utilizada no meio científico.O que me chocou mesmo foi ver como existem pessoas inescrupulosas que se utilizam da dor alheia para ganhos. Nos comentários do tal post sobre bicarbonato uma pessoa que se entitula "médico europeu" destaca-se pelo tom agressivo no qual responde aos autores e por só escrever em caixa alta/caps lock.  Ao acompanhar esta pessoa virtual vê-se que ele está ali e em vários blogs de ciência para "vender" seu tratamento contra o câncer/cancro baseado em bicarbonato. Talvez alguém mais malicioso pense que se uma pessoa se propõe a buscar tratamento da "cura do câncer" pela internet e forneça seu cartão de crédito a um "médico europeu" merece mesmo ser lesada. Só quem perdeu alguém na flor da idade para esta doença ou viu o desepero de familiares e amigos de pacientes com câncer entende o quão frágeis e vulneráveis a este tipo de "cura" estas pessoas são.Não seja vítima de pulhas viruais e não brinque com seu bem mais precioso, sua saúde. Aprenda a separar o joio do trigo no que tange a profissionais e mesmo blogs de ciência. Desconfie de quem faz "diagnóstico" pela internetDesconfie de quem cobra para responder suas perguntas ou dúvidasDesconfie de quem "prescreve" pela internetDesconfie de qualquer medicamento vendido pela internet. Confirme no site da ANVISA (Brasil) ou no Prontuário Terapêutico (Portugal) que o mesmo é aprovado para venda. Nunca compre ervas ou terapias alternativas pela internet. Você pode dizer que sabe mesmo como estes produtos foram obtidos ou manufaturados?Aprenda o método científico. Alguns médicos discordam, mas pacientes bem informados e que entendem o tratamento tem melhor prognóstico. Muitos sites explicam como se chegam a hipoteses diagnosticas e como a revisão por pares (peer review) é importante para o avanço da medicina e ciência em geral. Pergunte sempre o porque de um medicamento para sua doença e não outro. Você está no seu dir... Read more »

Robey IF, Baggett BK, Kirkpatrick ND, Roe DJ, Dosescu J, Sloane BF, Hashim AI, Morse DL, Raghunand N, Gatenby RA.... (2009) Bicarbonate increases tumor pH and inhibits spontaneous metastases. Cancer research, 69(6), 2260-8. PMID: 19276390  

  • April 1, 2010
  • 05:34 AM
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Nao perca seu dinheiro: acupuntura para tratamento da infertilidade

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Mulheres inferteis que gastam centenas ou milhares em tratamentos adjuntos de acupuntura para aumentar as probabilidades de sucesso dos tratamentos de infertilidade estao a perder dinheiro.Uma metanalise publicada inicialmente em 2008 e revisada em 2009 demonstra que o procedimento alternativo nao apresentou qualquer efeito nas taxas de sucesso em engravidar apos ciclos de IVF (intra vitro fertilization ou fertilizacao in vitro).Em uma conferencia da European Society of Human Reproduction and Embriology em Barcelona, a investigadora principal do estudo, Dra. S. Sunkara admitiu que nao indicaria o procedimento a suas pacientes por falta de evidencia cientifica de que o mesmo ajuda.Na metanalise foram identificados 83 clinical trials (estudos clinicos) dos quais 13 foram suficientemente adequados para serem avaliados. Os demais foram rejeitados por serem comentarios (sem dados estatisticos para serem avaliados) ou por serem experimentos mal desenhados. Os unicos resultados analisados foram taxas de gravidezes apos os ciclos de IVF e taxas de nascimento. A acupuntura nao apresentou efeitos em nenhum dos dois.Ja por diversas vezes escrevi posts alertando sobre tratamentos que nao apresentam validade cientifica, como homeopatia e outros. Em breve este ultimo devera ser abolido da rede publica inglesa, ou seja: o estado ingles recusa-se a pagar por um tratamento que nao apresenta eficacia comprovada.   Diversos profissionais justificam o uso de ervas, homeopatia e florais de Bach dizendo que "na sua experiencia" o procedimento demonstra resultados.. Este 'e que 'e o problema. Esta conversa de "na minha experiencia" foi abandonada ha decadas atras. Para se afirmar se algo funciona ou nao, utilizamos de estatisticas. Pode ser que a memoria do medico que disse que na "sua experiencia" o tratamento funciona esteja condicionada a lembrar apenas dos casos de sucesso. Isso 'e um erro honesto, que pode acontecer com qualquer um.   Outras pessoas justificam o uso por acreditarem na tradicao, utilizando argumentos como "se funciona ha milhares de anos, deve ser bom". Astrologia tambem existe ha milhares de anos, assim como cartomantes, necromancia, advinhos, etc... Estes chegam mesmo a ser citados no Antigo Testamento da Biblia (escrito ha mais de 5000 anos). Nao 'e por isso que sao infaliveis.   Longe de querer proibir ou reprimir o uso de terapias alternativas, acredito que um medico ou um profissional de saude nao deveria prescrever tais tratamentos sem obter um consentimento informado do paciente, alegando que entendeu que nao ha evidencias cientificas para tal prescricao e que desta forma o tratamento 'e experimental.   As pessoas sao livres para utilizar as terapias alternativas, mas devem ser claramente alertadas de sua falta de evidencia positiva no tratamento e da falta de estudos controlados sobre seus efeitos colaterais.   Somente com todos os fatos ("acupuntura cientificamente nao ajuda no tratamento da infertilidade, mas pode ser que voce relaxe com o procedimento e sinta-se mais em controle da situacao") um paciente pode tomar a decisao de gastar quase 350 euros ou 1000 reais em um pacote de 4 sessoes de acupuntura sem ser lesado.   Lembre-se, muitas vezes os tratamentos alternativos sao oferecidos em conluio nas clinicas de tratamento da infertilidade. Embora o Conselho Federal de Medicina proiba a associacao de medicos com farmacias (para impedir que o consumidor seja lesado), nao existe legislacao especifica no caso de outras terapias alternativas.   Conheca seus direitos e evite ser lesado por procedimentos e terapias sem base ou por profissionais inescruplosos.   Peco desculpas pela falta de acentos no post de hoje, mas estou a utilizar um teclado configurado em ingles.   Referencias:   Sunkara, S., Coomarasamy, A., Khalaf, Y., & El-Toukhy, T. (2009). Acupuncture and in vitro fertilization: updated meta-analysis Human Reproduction, 24 (8), 2047-2048 DOI: 10.1093/humrep/dep189   Foto: http://2.bp.blogspot.com/_mwmjwayrAo0/SsztitWF5bI/AAAAAAAAAIg/OOEuyG4gWyg/s320/20070925_acupuncture.jpg... Read more »

Sunkara, S., Coomarasamy, A., Khalaf, Y., & El-Toukhy, T. (2009) Acupuncture and in vitro fertilization: updated meta-analysis. Human Reproduction, 24(8), 2047-2048. DOI: 10.1093/humrep/dep189  

  • March 31, 2010
  • 08:10 AM
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O mito de Medeia: quando os pais matam seus filhos

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Medeia ou Medea é uma personagem da mitologia grega, descrita extensivamente na peça Medea, de Eurípedes e no mito de Jasão e os Argonautas. Medeia era uma mortal da Cólquida, filha do rei e neta do deus do sol Helio. Em diversos mitos Medeia é descrita como uma feiticeira, muitas vezes ligada à deusa Hécate (deusa da bruxaria e das encruzilhadas).A história desta mulher inicia-se com a chegada de Jasão a Cólquida, para obter o Velo de Ouro (a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo) necessário para sua volta ao trono da Tessália. Medeia apaixona-se por Jasão e promete ajudar-lhe, com a condição de que se ele obter o Velo de Ouro, os dois se casem.Para que Jasão obtenha o poderoso Velo, ele teve de realizar certas tarefas. A primeira delas consistia em lavrar um campo com dois touros gigantecos, de cascos de bronze e que expeliam fogo pelas narinas. Medeia deu-lhe um unguento para proteger a si e suas armas do fogo.A segunda tarefa consistia em semear um campo lavrado com dentes de um dragão. Dos dentes nasceu um exército de violentos guerreiros mas Jasão havia sido avisado por Medeia, que lhe aconselhou a jogar uma pedra no meio deles. Sem saber de onde veio a agressão, os soldados atacaram uns aos outros. Finalmente Jasão deveria matar um dragão insone que guardava o Velo. Medeia colocou a besta para dormir, utilizando poderosas ervas narcóticas. Jasão então tomou o Velo de Ouro e foi-se embora com Medeia, conforme prometido.Para garantir sua fuga, Medeia matou seu irmão Apsirto e desmembrou-o pelo caminho, sabendo que seu pai ficaria devastado com a perda e pararia para coletar os restos do filho, garantindo-lhe um funeral adequado. Desta forma, Medeia e Jasão conseguem embarcar na nau Argos e fugir da Cólquida.Após diversas aventuras e muita crueldade (por parte dos dois), o casal chega a Corinto, onde Jasão se apaixona pela filha do rei, Gláucia, e abandona Medeia.Na peça de Eurípedes, Jasão confronta Medéia e tenta explicar-se, dizendo que não poderia deixar passar a oportunidade de se casar com uma princesa, enquanto que Medéia é apenas uma mulher bárbara e conta-lhe que pretende juntar suas duas famílias mantendo-a como sua amante. Ela lembra-lhe que deixou sua família para trás para seguí-lo e salvou-lhe a vida diversas vezes. Ela fica desolada e resolve vingar-se enviando à Gláucia um vestido e uma pequena coroa envenenados, o que resulta na morte da princesa e do rei, que correu para acudí-la. Cega de dor e de ódio, Medéia decide matar seus filhos também, com o intuito de causar o máximo de dor a Jasão. Na peça, ela sai do palco para buscar uma faca e os gritos dos meninos são ouvidos nos bastidores. Jasão corre para vingar-se, mas vê Medeia à distância, em uma carruagem dourada enviada por seu avô, Hélio, deus do Sol, a dizer:"Eu nem mesmo deixo-te os corpos dos nossos fihos; eu os levo comigo para enterrar. E para vós, que me fizeste todo o mal, eu profetizo uma maldição final."Medéia passa ainda por muitas aventuras e o filicídio, de certa forma, fica sem ser vingado nos mitos gregos que lhe dizem respeito. Mesmo o fratricídio cometido é de certa forma perdoado quando ela retorna à Cólquida e ajuda seu pai a retornar ao trono, que tinha-lhe sido usurpado pelo tio.Medeia prepara-se para matar os filhos em óleo de Eugène Ferdinand Victor Delacroix (1862).Este mito me veio à memória após acompanhar nos noticiários ingleses o julgamento de Petros Williams, um pai que matou seus filhos em um acesso de raiva e o caso Nardoni.Petros Williams descobriu que sua ex-mulher estava a namorar online e, num acesso de ciúmes, estrangulou os dois filhos com os cabos do computador e tentou matar-se com uma overdose de medicamentos. Ele foi hoje condenado a 28 anos de prisão pela morte dos filhos.Infelizmente estes exemplos não são singulares ou raros. Casos de filicídio, seja pelo pai ou pela mãe povoam as páginas policiais de qualquer país, sendo talvez mais predominantes em algumas culturas do que outras (como na China e em países nos quais o nascimento de uma menina é visto com maus olhos).Antes de iniciar a análise do mito e dos filicídios reais, cabe uma análise dos termos filicídio, neonaticídio e infanticídio, muitas vezes utilizados de forma intercambiável na literatura do homicídio infantil. Bourget et al. (2007) caracteriza filicício como o assassinato de uma criança por um dos pais, enquanto neonaticídio caracteriza o assassinato de um recém-nascido no dia do nascimento. Embora infanticídio seja corriqueiramente utilizado em referência a homicídio infantil, o termo tem implicações médico-legais, e se aplica especificamente ao assassinato de crianças menores de 12 meses de idade por uma mãe que não se recuperou completamente dos efeitos da gravidez e lactação, sofrendo em algum grau de transtornos mentais.Diversos autores analisaram o filicídio, tentando dissecá-lo e caracterizá-lo (Bourget et al. 2007, Farouque 2003, Resnick 1969, Wilczynski 1995):Filicídio altruístaUm dos pais tenta livrar a criança de sofrimento real ou imaginado, geralmente acompanhado de suicídio.Filicídio psicóticoUm dos pais mata a criança sob influência de doença mental graveFilicídio do filho indesejadoA vítima nunca foi ou não é mais desejada pelos pais. Geralmente cometido em circunstâncias de filhos ilegítimos ou paternidade incerta.Filicídio acidentalMorte sem dolo devido a abuso infantilFilicídio de retaliação (Wilczynski, 1995)No qual o ódio a uma pessoa é deslocada à criança. É o caso de Medeia e de muitos outros encontrados nas páginas policiais (como o descrito acima, na Inglaterra). A pessoa alvo dos sentimentos de ódio e do filicídio é em geral o parceiro do perpetrador. Como a fonte de angústia nos filicídios de retaliação é o parceiro sexual do perpetrador, estes assassinatos são denominados "Complexo de Medeia". Mas quão típico são os filicídios da vida real, quando comparados ao caso protótipo de Medeia? O mito e o Complexo de Medeia certamente são populares e encontrados de forma recorrente na ficção, em estereótipos como o ditado americano "hell hath no fury like a woman scorned" (não existe fúria como a de uma mulher traída). Exemplos na ficção são encontrados no filme Atração Fatal (Fatal Attraction), no qual a amante rejeitada direciona sua atenção assassina ao ex-amante, sua mulher, filha e até mesmo ao coelhinho de estimação.Atração FatalEntretanto, segundo Wilczynski (1995), homens e não mulheres são muito mais propensos a cometer assassinatos de retaliação. Homens e mulheres tendem a matar seus filhos por razões bastante diferentes: homens são geralmente associados a retaliação, disciplina ou rejeição por parte da vítima. As mulheres, por outro lado, matam pois o filho não era desejado (tipicamente neonaticídio, cuja mãe escondeu a gravidez);  porque o assassinato foi percebido como melhor escolha para criança (filicídio altruísta); ou porque a mãe estava em estado psicótico no momento do crime.Segundo Bourget (2007), o filicídio de retaliação por parte da mãe é raro e é mais cometido por mulhres com transtornos de personalidade e história de tentativas de suicídio. Também parece haver relação entre o sexo da vítima, sendo que filhas são mais provavelmente assassinadas em filicídios altruístas e filhos em filicídios de retaliação.A história do relacionamento dos pais tende a revelar um ambiente hostil, cheio de conflitos, com atos violentos de um ou ambos os parceiros, sendo uma das principais motivações para os conflitos e o assassinato o ciúme e suspeitas de infidelidade.A retaliação por parte dos homens parece ser uma extensão natural de seu poder e controle sobre a família e o relacionamento sexual. As atitudes das mulheres são percebidas por estes homens como um desafio à sua autoridade e masculinidade ao deixá-los e ao iniciar relacionamentos com outros homens.De forma oposta, as mulheres, segundo Wilczynski, apresentam comportamento retaliador devido ao ressentimento pela falta de poder no relacionamento.Especificamente no que tange ao "Complexo de Medeia", Farooque relata que o mesmo foi descrito no auge da psicanálise (1944) como o "ódio inconsciente de uma mãe por sua filha que amadurece, vista como uma... Read more »

Bourget D, Grace J, & Whitehurst L. (2007) A review of maternal and paternal filicide. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 35(1), 74-82. PMID: 17389348  

Farooque R, & Ernst FA. (2003) Filicide: a review of eight years of clinical experience. Journal of the National Medical Association, 95(1), 90-4. PMID: 12656455  

  • March 29, 2010
  • 07:23 AM
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Uma patografia de Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Com o lançamento do último filme de Tim Burton, Lewis Carroll e seus livros (Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho) estão na mídia e uma colega psicóloga que estudou e trabalhou comigo sugeriu este post.Este post é uma patografia de Lewis Carroll. Patografia é um estudo retrospectivo de "casos clínicos focados na biografia de determinada personalidade famosa portadora de transtorno mental, com objetivo de apresentar elementos psicopatológicos interessantes e o significado destes para sua obra" (ABP, 2000)Lewis Carroll não era seu verdadeiro nome, mas um pseudônimo literário adotado por Charles Lutwidge Dodgson. Entretanto, para fins de simplificação, vou chamá-lo de Lewis Carroll por todo o texto. Lewis CarrollHistória PregressaCarrol nasceu em 27 de janeiro de 1832 na Inglaterra, em uma família do norte conservadora e religiosa. Muitos ancestrais do autor eram oficiais do exército ou clérigos da Igreja Anglicana. Seu avô paterno, um oficial do exército, moreu no campo de batalha quando seu pai ainda era bebê. Seu pai era um bom aluno, com um futuro acadêmico brilhante à sua frente, mas optou por seguir a carreira da igreja e casou-se com sua prima primeira em 1827 e assumiu uma igreja rural. O pai do autor era um homem bastante conservador nas suas visões da igreja e estava constantemente envolvido em disputas políticas.Carrol nasceu em 1832, em uma frataria de 11 irmãos. Carrol foi o terceiro filho, mas o primeiro filho homem do casal.  As crianças foram educadas em casa. A lista de livros selecionados para seus estudos demonstra uma aptidão literária precoce. Tanto ele quanto seus irmãos sofriam de gagueira, uma condição que influenciou sua vida social nos anos seguintes. Aos 12 anos ele foi enviado para uma escola privada nos arredores de sua casa, na qual parece ter sido feliz. Aos 14 anos, porém, foi enviado para outro colégio do qual escreveu:"Eu não posso dizer... que qualquer circuntância terrestre me induziria a reviver aqueles três anos novamente... Eu posso honestamente dizer que se pudesse ter ficado seguro... dos problemas à noite e das labutas da vida diária, a vida teria sido comparativamente mais fácil de se levar."Apesar das dificuldades sociais e pessoais, Carroll era um excelente aluno.Algumas fontes trazem que a gagueira de Carroll só ocorria quando estava em companhia de adultos, nunca na companhia de crianças, mas há poucas evidências desta teoria. Embora a condição incomodasse o autor grandemente, ela nunca foi suficientemente debilitante para impedir seu desempenho social. Carroll deixou o colégio aos 17 anos mas apenas ingressou na Universidade de Oxford aos 19 anos. Sua vida nestes dois anos permanece um mistério. Após apenas dois dias na universidade ele recebeu uma carta chamando-o de volta a casa pois sua mãe havia falecido de "inflamação do cérebro" aos 47 anos de idade.Voltando à universidade, sua carreira oscilava entre altamente promissora e terrivelmente distraída. Em geral, Carroll não estudava muito mas era excepcionalmente dotado e saía-se bem nos testes. Em 1852 ele recebeu um First in Honour Moderations (equivalente a 80% ou mais dos créditos disponíveis) e recebeu uma bolsa de estudos. Um pouco mais tarde, porém, ele falhou em conseguir outra bolsa de estudos, o que atribuiu a sua incapacidade de aplicar-se seriamente com disciplina. De qualquer forma, seu talento como matemático assegurou-lhe uma docência na universidade, posto que ocupou pelos próximos 26 anos. O salário era bom, mas o trabalho tediante. Desde a juventude Carroll escrevia poesias e contos, gozando de moderado sucesso. Entre 1854 e 1856 seus trabalhos apareceram em publicações nacionais e pequenas revistas. Ainda em 1856, um novo reitor, Henry Liddell, foi nomeado na universidade e trouxe consigo sua família: mulher e filho e três filhas, entre elas Alice. Há diversas evidências de que seus trabalhos foram baseados nesta criança e o poema ao final de Alice no Mundo do Espelho soletra o nome de Alice Liddell. Embora diversas referências a uma Alice real sejam encontradas em seus trabalhos, Carroll negou repetidamente no fim de sua vida que sua heroína tenha sido baseada numa criança real.Aparentemente a amizade com a família Liddel era íntima e Carroll costumava levar as crianças a passear de barco (primeiramenteo menino, depois as três garotas). Foi num destes passeios, em 1862,  que Carroll começou o rascunho da história que se tornaria seu primeiro e maior sucesso comercial: Alice no País das Maravilhas.Em 1871 foi publicado o segundo livro, Alice no Mundo do Espelho. O livro possui uma atmosfera mais sombria, provavelmente resultado da depressão em que o autor se encontrava após a morte de seu pai (1868).Além da literatura, Carroll tinha também por hobby a fotografia. Rapidamente ele dominou a técnica e tornou-se um famoso fotógrafo, chegando a brincar com a ideia de tornar-se um fotógrafo profissional. Aparentemente mais de 50% das fotos realizadas por Carroll traziam como tema meninas. Seus trabalhos com crianças nuas foram presumivelmente perdidos, mas seis fotos foram encontradas recentemente, tendo sido publicadas e estão disponíveis online.Carroll também se aventurou no campo das invenções, filosofia, jogos de lógica e trabalhos matemáticos, preferencialmente nos campos da geometria, matrizes e lógica, escrevendo quase uma dúzia de livros.Na velhice ele continuou seu trabalho na universidade e lá permaneceu até sua morte, em 14 de janeiro de 1898. Carroll faleceu aos 65 anos, de pneumonia contraída após influenza.Pedofilia Evelyn Hatche, 8 anosA preferência por amizades com meninas (entre 8 e 10 anos), a aparente falta de interesse em relações com mulheres, e leituras psicológicas posteriores de sua obra - especialmente fotografias de crianças nuas - são os fatores que alimentam a especulação de que Carroll tenha sido um pedófilo. Após anos de amizade com a família Liddell, em 1963 houve uma ruptura, de certa forma abrupta, que parece ter sido causada pelo desejo de Carroll em se casar com Alice (então com 11 anos). Entretanto, nunca houve suficiente evidência para esta teoria e diversas páginas de seus diários, que fazem referência a este período, foram arrancadas provavelmente por familiares, na tentativa de preservar a reputação da família.Praticamente todos os biógrafos de Carroll em anos recentes, incluindo Morton N. Cohen, Michael Bakewell and Donald Thomas, chegaram à conclusão de que Carroll era um pedófilo, mesmo que celibato. A evidência para esta conclusão, mesmo que circunstancial, é forte.Carroll era um solteirão, que despendia a maior parte de seu tempo livre com meninas. Sua fotografia preferida era uma foto de Alice semi-nua, vestida como uma mendiga. Até mesmo o autor Vladimir Nabokov (autor de Lolita) chamava seu personagem Humbert Humbert (o homem que se apaixona pela heroína de 11 anos) de Lewis Carroll, conforme admitiu em uma entrevista à Vogue em 1966.Alice LiddellEm um artigo de revisão ao New York Times em 1999, Boxer, especialista em fotografias, escreveu que o que emerge das fotografias de Carroll é bastante desconcertante. As crianças nas fotos estão em gritante contraste quando comparadas com as fotos de adultos, feitas pelo autor. As imagens infantis são ousadas, arteiras, misteriosas e sedutoras. Os modelos parecem estar tão felizes e à vontade com o setting quanto o fotógrafo. Carroll, por sua vez, conseguia obter algo de suas modelos que, por falta de uma palavra melhor, Boxer categorizou como sexual.Carroll e AliceOs trabalhos fotográficos de Carroll também incluem fotos de modelos adultos, mas nestes os modelos são geralmente pais com suas filhas: Em uma delas, George MacDonald, um amigo de Carroll está sentado com um livro enquanto sua filha se c... Read more »

Evans RW, & Rolak LA. (2004) The Alice in Wonderland Syndrome. Headache, 44(6), 624-5. PMID: 15186310  

Podoll K, & Robinson D. (1999) Lewis Carroll's migraine experiences. Lancet, 353(9161), 1366. PMID: 10218566  

  • March 24, 2010
  • 07:04 AM
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Avaliação de risco de agressores sexuais

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Fatores de risco • Maior número de agressões sexuais, maior chance de reincidir (Marshal et al, 1991)• História criminal pregressa (Quinsey et al, 1995)• Maior risco se (em ordem decrescente)Ofensas contra crianças do sexo masculinoOfensas contra meninas fora da famíliaIncesto (Furby et al, 1989)• História de mais de um tipo de agressão sexual (Hauson e Brussiere, 1996)• Evidência ao PPG de resposta a estímulos pedofílicos (Hauson e Brussiere, 1996)• Evidência ao PPG de resposta a violência não-sexual (Rice et al, 1990)• Elevação na Hare Psychopathy Scale* (Rice et al, 1990)• Se durante a agressão inicial, o paciente apresentava baixa auto-estima, dificuldade em empatizar com a vítima ou altos níveis de raiva (Hauson e Brussiere, 1996)• Ter sido vítima de abuso sexual, especialmente se severo e prolongado – risco de abusar de seus próprios filhos (Cormier e Cooper, 1982) ou de se tornar agressor sexual (McCormal et al, 1992)• Presença de fantasias sexuais violentas (Due e Eldman, 1997)• Isolamento social prolongado – presente em alguns assassinosOutros fatores de risco• Atitudes contra mulheres• Atitudes em relação a sexo com crianças• Presença de distorções cognitivas (o indivíduo percebe ou racionaliza que a vítima consentiu – Kennedy e Gwbin, 1992)• Escolha de uma profissão que facilita o acesso a vítimas potenciais• Uso de sadomasoquismo ou de pornografia infantil• Presença de transtornos mentais comórbidos (Fazel et al, 2007)• Abuso de álcool• Patologia cortical, especialmente de lobo temporal (Lang, 1993)• Transtorno de personalidade• Diagnóstico de retardo mental• Esquizofrenia – ligação entre psicose e agressão sexual• Estado hipomaníaco• Não adesão ao tratamentoTratamentoTerapia psicodinâmica – faltam evidênciasTerapia Cognitivo Comportamental (TCC)Níveis modestos de redução no recidivismo (Losel e Schucker, 2005)Desenhada para ajudar o indivíduo a assumir responsabilidade e ter controle para evitar situações de riscoTratamento biológicoCastração cirúrgicaMenores taxas de recidivismo (Ortmann, 1980)Utilizada nos EUA e AlemanhaPsicocirurgiaUtilizada na Alemana até 1970Tratamento hormonalUtilizado desde os anos 1960 – principal droga (Europa): Acetato de ciproterona oral (principalmente) e de depósito. Nos EUA o mais utilizado é o Depo Provera (Acetato de medroxyprogesterona)Alguns pacientes mesmo assim não demonstram redução na excitabilidade sexualEfeitos colaterais: Acetato de ciproterona – ginecomastia, alterações hepáticas, humor depressivo, osteoporoseDepo provera – aumento do peso, fogachos, hipertensão arterial, aumento da glicemia, redução do tamanho testicularLong-acting gonadotrophin releasin hormones analogues – pouco testado. Liberado apenas para tartar câncer de prostatae endométrio. Efeitos colaterais: osteoporose. (Goserelin, Triptorelin e Leuprolide)ISRS – risco baixo a moderado de recidivasFatores legais no tratamento de agressores sexuaisDevem ser registrados/listados (sex offenders register)Fatores éticos:Antipatia públicaPesar tratamento e efeitos colateraisProblemas de confidencialidadeConflito se medicamentos antilibido comprometem os direitos humanos ao impedir a liberdade de pensamento e direito a reprodução do paciente*Hare Psychopathology Scale (PCL-R)A PCR-L é uma ferramenta psicodiagnóstica comumente utilizada para avaliar psicopatia. É uma escala de 20 ítens registrada por um psicólogo ou outro profissional treinado. Um valor de 0 significa que o item não se aplica, 1 se aplica levemente, 2 se aplica completamente. A escala avalia estilo de vida, comportamento criminoso, discurso persuasivo, charme superficial, grandiosidade, necessidade de estímulos, mentira patológica, golpes e manipulação, falta de remorso, falta de empatia, fracos controles comportamentais, impulsividade, irresponsabiliade, falha em aceitar responsabilidade e outros. Os resultados são utilizados para averiguar risco de re-ofensa criminal e probabilidade de reabilitação.Fotos:http://www.reko.web.id/wp-content/uploads/2009/08/Sex_Offender1.jpghttp://blogs.law.harvard.edu/ethicalesq/2008/10/page/2/ReferênciasHall, G. (1995). Sexual offender recidivism revisited: A meta-analysis of recent treatment studies. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 63 (5), 802-809 DOI: 10.1037/0022-006X.63.5.802Guay, D. (2009). Drug treatment of paraphilic and nonparaphilic sexual disorders Clinical Therapeutics, 31 (1), 1-31 DOI: 10.1016/j.clinthera.2009.01.009Schmucker M, & Lösel F (2008). Does sexual offender treatment work? A systematic review of outcome evaluations. Psicothema, 20 (1), 10-9 PMID: 18206060... Read more »

  • March 18, 2010
  • 09:44 AM
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Schadenfreude: quando sua desgraça é minha felicidade

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Schadenfreude é uma palavra derivada do alemão, Schaden (dano) e Freude (alegria), utilizada para designar o prazer obtido dos problemas dos outros. É a palavra que dá significado ao sentimento descrito no dito popular "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Schadenfreude pode ser observado desde as risadas causadas pelo palhaço de circo que escorrega na casca de banana ao prazer de algumas pessoas com os problemas de Britney Spears dois anos atrás (cujas fotos decadentes estiveram esparramadas por todos os tablóides em um grande exempo da palavra), ao prazer com o divórcio da amiga que parecia ter o casamento perfeito. Todos são exemplos deste sentimento nunca comentado mas generalizado na população.Desde os tempos bíblicos há menções de uma emoção semelhante na descrição ao schadenfreude: "Quando cair o teu inimigo, não te alegres, nem se regozije o teu coração quando ele tropeçar; Para que, vendo-o o SENHOR, seja isso mau aos seus olhos, e desvie dele a sua ira" (Provérbios 24:17-18). Na Grécia clássica, Aristóteles usou o termo epikhairekakia na obra Ética a Nicômaco, que quer dizer "alguém que sente prazer com o infortúnio de outro"Quando o conceito passou a ser incorporado no linguajar europeu, apenas sua menção causava horrores. Mesmo o lúgrube filósofo alemão do século 19 Arthur Schopenhauer considerava este prazer terrível demais para ser contemplado e, embora ateu, Shopenhauer dizia que schadenfreude era obra do diabo. Teólogos protestantes e católicos posteriormente denunciaram schadenfreude como um grave pecado, embora poucos estejam livre dele.Homer imagina a desgraça de Flanders com um sorriso nos lábios no episódio "When Flanders Fails" (Quando Flanders Falha) da terceira temporada do desenho americano Os SimpsonsSchadenfreude atrai porque é uma vingança desempenhada sem qualquer esforço por parte do observador. A sensação é parecida com a conquista de um inimigo. E é justamente por esta razão que Friedrich Nietzsche argumentava que o sentimento é de fato perigoso. O prazer sentido é ilegítimo, e desta forma culposo; o indivívuo nada fez para o receber. Uma vitória recebida sem qualquer competição não pode ser nada mais do que "vendeta imaginária", apenas uma satisfação virtual. Nietzsche chegou até mesmo a hipotetizar que sentimentos de inferioridade intensificam o shadenfreude.O famoso filósofo alemao estava no caminho certo. R.H. Smith, um psicólogo da Universidade de Kentucky nos EUA, estudioso da inveja em psicologia social, escreveu diversos artigos que trazem evidências do que Nietzsche teorizou. Smith realizou um experimento no qual estudava reações a histórias aparentemente verdadeiras de dois estudantes de medicina que arruinaram suas carreiras ao roubar drogas do laboratório da universidade. Um deles era rico, bonito e bom aluno. O outro era o oposto. Os voluntários no experimento de Smith sentiram mais alegria ao ver o infortúnio do aluno que apresentava maior sucesso. Os achados de Leach et al., publicados em 2003 no Journal of Personality and Social Psychology reforçam estes achados. Os pesquisadores deste estudo, analisaram o sentimento de prazer com a perda alemã no futebol. Os psicólogos que investigam a área baseiam seu trabalho no que é conhecido como Social Comparison Theory (Teoria da Comparação Social). O campo foi concebido na década de 1950 por Leon Festinger e é baseado na premissa de que os humanos avaliam-se não tanto por objetivos estandardizados mas por comparação ao outros em seu redor. Uma piadinha americana exemplifica isso:Dois homens estão a caminhar pela floresta quando encontram um urso. O primeiro abre sua mochila e pega seus tênis/sapatilhas. "Porque você vai vestir tênis/sapatilhas?'', pergunta o segundo. "É impossível correr mais que um urso". "Eu não tenho que correr mais que o urso", responde o homem, "só tenho que correr mais que você".O jogador/futebolista brasileiro Ronaldo, vítima de Schadenfreude ao ter seu nome associado a uma orgia com travestisSegundo esta teoria, nossos sucessos e insucessos na verdade são assim concebidos com base no que as pessoas ao nosso redor tem ou fazem - fazemos comparações sociais. Quando as pessoas à nossa volta sofrem perdas, isso faz com que nosso desempenho melhore. Aaron Ben-Ze'ev, professor de filosofia na Universidade de Haifa, em Israel, teoriza que as pessoas que invejamos mais são as mais próximas em nosso círculo social. Em entrevista ao New York Times, ele disse: "Você inveja mais um colega que ganha mil dólares a mais por ano do que inveja um presidente de empresa, que ganha milhões de dólares a mais". Ele continua: "Também invejamos mais pessoas famosas, elas são símbolos para nós".No campo dos estudos de imagem, Takahashi et al, estudaram a neurologia deste sentimento proibido. Os autores utilizaram fMRI (Ressonância Magnética Funcional) para avaliar a ativação cerebral aos sentimentos de inveja e schadenfreude em 19 voluntários. Os resultados foram na revista Science em 2009:No experimento de inveja, os voluntários deveriam visualizar cenários nos quais eram protagonistas. No primeiro cenário, um estudante A foi bem nas provas da faculdade, mas o protagonista não foi. A é um atleta talentoso (ao contrário do protagonista), é popular com as garotas e tem uma bela e inteligente namorada (ao contrário do protagonista). A foi bem numa entrevista de emprego e está a se sair muito bem no trabalho. Seu salário é bom e ele vive com estilo (ao contrário do protagonista).No experimento de schadenfreude, o protagonista sai-se bem melhor do que A. As análises envolveram comparação da ativação em diferentes regiões cerebrais aos cenários de inveja, schadenfreude e neutro e os voluntários também graduaram seus próprios sentimentos de inveja e regozijo em cada cenário. Os resultados mostraram que o cenário de inveja levou a maior ativação do córtex cingulado anterior (CCA) e este achado foi correlacionado a maiores sentimentos relatados de inveja. O CCA é relacionado a detecção de erros ou conflitos - quando a resposta esperada não é a que acontece. O CCA também é ativado na dor, dor empática ou dor associada a exclusão social. A ativação do CCA só aconteceu quando o voluntário conseguia se relacionar com o objeto de sua inveja. Se o voluntário imaginasse que a pessoa alvo é irrelevante para comparação, os resultados mostravam indiferença (o que corrobora a hipótese de Ben-Ze'ev).Em Portugal o apresentador de TV Carlos Cruz teve seu nome arrastado no lama ao ser associado a um escândalo de pedofilia no Processo Casa Cruz. Vítima de schadenfreude, a última reportagem que li dele foi a dizer que agora sai de férias em um trailer para parques de campismo, ao invés de ficar em hotéis 5 estrelas.Os cenários de schadenfreude causaram ativação no estriado ventral e esta ativação foi correlacionada a sentimentos auto-referidos de schadenfreude. Da mesma forma que no cenário de inveja, a correlação só foi positiva quando o exemplo alvo era relevante para comparação pessoal. A ativação do estriado ventral é tipicamente associada a estímulo de recompensa e os autores interpretaram sua ativação com sentimentos de prazer.Os autores concluem com a proposta de um mecanismo neurológico para inveja e schadenfreude, que podem ser mediados de diversas formas. Uma delas é que a pessoa em questão, alvo dos sentimentos deve ser importante para um indivíduo. O quanto você empatiza com este indivíduo alvo determina a intensidade dos sentimentos de inveja e schadenfreude.Fulford (2003) em sua coluna no National Post acredita que ocasionalmente o schadenfreude pode ser justificado e prazeroso. O autor descreve a história de Peter Gay, qu... Read more »

Leach CW, Spears R, Branscombe NR, & Doosje B. (2003) Malicious pleasure: schadenfreude at the suffering of another group. Journal of personality and social psychology, 84(5), 932-43. PMID: 12757139  

  • March 17, 2010
  • 11:28 AM
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Sadismo médico: nurture vs. nature

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Dias atrás li o post "O abandono que gera dependência" de Thiago Moraes, estudante de medicina e autor do blog Sanidade Insana. Nele, Thiago relata seu espanto diante de uma situação muito conhecida dos médicos e pouco debatida na população: os maus-tratos infringidos por médicos e estudantes de forma consciente à população com transtornos conversivos/dissociativos.O tema abordado por Thiago, estudante que está a testemunhar os abusos cometidos merece ser bem dissecado e debatido para trazer à luz esta questão.É de certa forma parte da formação médica aprender a objetificar os pacientes, para que a prática se torne menos intoxicante ao médico, que tem que respirar doenças e sofrimento no seu dia a dia. Muitos poucos estudantes entendem esta questão e buscam o curso de Medicina por conta de glórias (passadas) associadas à profissão. Há inúmeras gratificações psicológicas inerentes à profissão médica: A medicina e uma área fascinante, de capital importância para a sociedade e, como tal, uma carreira desejada e idealizada pelos jovens. O grau de idealização pode gerar altas expectativas que, não correspondidas, tendem a produzir decepções e frustrações significativas, com repercussões importantes na saúde dos estudantes. Além disso há o caráter altamente ansiogênico do exercício profissional, no qual tratar do adoecer do outro é estar em contato íntimo com este. Algumas características inerentes à tarefa médica definem, isoladamente ou em seu conjunto, um ambiente profissional cujo colorido básico é formado pelos intensos estímulos emocionais que acompanham o adoecer (Nogueira-Martins, 1991): O contato íntimo e frequente com a dor e o sofrimento; lidar com pacientes difíceis: queixosos, rebeldes e não aderentes ao tratamento, hostis, reivindicadores, auto-destrutivos, cronicamente deprimidos.Não é de se estranhar a necessidade, portanto, de objetificar o doente, afastá-lo de nossos sentimentos para que possamos desempenhar a atividade necessária. Exemplos particularmente vívidos desta objetificação podem ser encontrados em qualquer Centro Cirúrgico hospitalar, no qual vemos cirurgiões a desempenhar sua atividade (como a remoção de um estômago, por exemplo) enquanto contam piadas, discutem o menu do dia do restaurante do hospital ou contam de trivialidades.O que quero que o leitor entenda até aqui é a real necessidade deste afastamento, de forma a impedir um super-envolvimento do profissional médico com o quadro do paciente, que pode afastá-lo da objetividade necessária para propor, por exemplo, um procedimento diagnóstico particularmente doloroso ou prevenir psicologicamente o profissional de chegar a um diagnóstico ruim, mas verdadeiro (por exemplo, câncer terminal).Há uma grande diferença entre este afastamento dito "natural" e desejado do médico do sadismo descrito por Thiago em seu post, que também testemunhei quando aluna. E o pior, o alvo deste sadismo é uma população por si só vulnerável (pacientes psiquiátricos) que tem a dor causada pelo médico como sua salvação:A história clássica do sadismo é a seguinte:São quatro horas da manhã e os médicos de plantão estão cansados e com fome. Geralmente a esta hora há poucas opções de lanche no hospital. Chega uma nova ficha na sala de plantonistas, trazida pelo porteiro/enfermeiro/profissional de triagem. Diversas vezes ouvi o comentário "se o fulano não estiver numa maca e em estado grave, vou ficar zangado", já a estabelecer o humor em que a consulta se desempenhará.O fulano em questão não está numa maca: Quando o médico senta-se para ouvir sua queixa, o paciente (homem ou mulher, geralmente na casa dos 30 a 40 anos) queixa-se de uma dor nas costas/abdome/pernas.... Quando questiona sobre quando a dor se iniciou, o médico (que espera uma resposta rápida que lhe diga que a dor é intensa e súbita, tendo iniciado às 3 da manhã) ouve espantado que a dor iniciou há 10 anos, não sendo tão intensa, vai e volta e piora à noite. O paciente em questão procura o pronto-socorro porque naquela noite não conseguiu dormir pela dor, que embora não seja intensa, é persistente.Aqui o médico perde a paciência. Muitas vezes a consulta torna-se um bocado agressiva, com respostas ríspidas por conta do profissional. A terapêutica administrada a este paciente é uma referência para marcar uma consulta com ortopedista/clínico geral, etc.. e, para se ter certeza de que este paciente nunca mais cometa o pecado de acordar o plantonista com uma queixa tão boba, é lhe administrada uma injeção de dipirona ou água destilada intra-muscular (o primeiro é um analgésico simples), cuja única função é causar o máximo de dor nesta forma de administração.Um leitor mais distraído pode pensar que o médico estava certo na impaciência em tratar o doente em questão (a parte do fato de ter administrado um medicamento/placebo apenas para causar dor). Afinal milhões são gastos todos os anos em consultas desnecessárias de pronto-socorro que poderiam facilmente ser atendidas em programa de saúde da família, centros de tratamento ou ambulatórios. Além disso, longe de o exemplo acima ser raro, ele ocorre duas, três ou mas vezes por plantão, lentificando a fila de espera de quem realmente precisa de tratamento de urgência.Sim, tudo isso é verdade. Mas também é verdade que longe de ser intencional, o paciente em questão apresenta sofrimento genuíno e busca auxílio àquela hora por ser compelido pela sua psicopatia. Aqui estamos falando de transtornos conversivos/dissociativos.A lista de transtornos conversivos/dissociativos é grande e não vou detalhá-la neste post, podendo ser conferida numa rápida busca pelo google. Estes transtornos, conhecidos antigamente como histeria, tendem a apresentar-se como dor ou sintoma físico, daí a procura pelo médico. Na época de Freud, as histéricas clássicas eram aquelas que quando confrontadas com situações de estresse emocional, caiam ao chão desmaiadas e eram abanadas com leques. Este comportamento naquela época era aceitável. Entretanto a sociedade mudou e o comportamento histérico de desmaios passou a ser visto com maus olhos e, como tantos outros sintomas, o comportamento evoluiu para o que hoje se aceita: dor, sofrimento, pânico, etc...Os pacientes que chegam ao pronto-socorro pela madrugada, longe de serem vândalos do sono dos médicos, apresentam sofrimento psíquico genuíno (mesmo que inconsciente) que quando intenso, passa a manifestar-se pela dor. A escolha da hora de buscar auxílio médico também não é randômica: estes pacientes apresentam um vasto leque de sintomas depressivos (com insônia sendo um dos proeminentes), o que faz com que eles não durmam ou acordem de madrugada, angustiados, desamparados e procurem o hospital.Mesmo o mal causado pelo médico sádico na verdade é entendido como um bem, já que na maioria das vezes, mesmo com uma simples injeção de água destilada, a dor passa: estes pacientes são por natureza extremamente sugestionáveis e a injeção dolorida para punir a carne, de certa forma alivia o espírito.Isto entretanto não justifica o comportamento dos médicos e estudantes (que aprendem na barra do jaleco/bata as más-práticas) cuja única intenção é causar DOR. É horrível pensar que um profissional que teoricamente deveria entender dor, miséria e sofrimento, disponha-se conscientemente a provocar mais dor em seus pacientes, contrário a tudo que é aprendido no currículo e ao juramento solene prestado no dia da formatura. Aqui vai um pequeno exerto do juramento de Hipócrates:(...) Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. (...) Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.E de onde vem este comportamento sádico?O próprio exercício da profissão médica parece ser "um veneno psicológico" para seus profissionais: Uma alta incidência d... Read more »

  • March 11, 2010
  • 12:35 PM
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A volta da psicocirugia

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Este post não é para os fracos de coração:A psicocirurgia (que na verdade nunca foi extinta) ensaia uma volta tímida em novos artigos. Cingulotomia e outros procedimentos fazem parte dos livros psiquiátricos, mas ver mesmo um procedimento destes no Brasil é raríssimo. Um estudo recente mostrou resultados encorajadores no que tange a Deep brain stimulation (DBS) no tratamento de transtorno obsessivo compulsivo, transtornos depressivos e síndrome de Tourette refratários a tratamento. Em seu artigo de revisão na Deutsches Arzteblatt International (texto completo aqui) os autores avaliaram estudos terapêuticos de 1980 a 2009. Os achados mostram melhora do quadro nos transtornos referidos em 35 a 70% dos pacientes, com poucos efeitos colaterais, muitas vezes reversíveis ao se modular os parâmetros da estimulação.A DBS é um tratamento cirúrgico que envolve a implantação de um pacemaker cerebral (marcapasso) que envia impulsos elétricos a partes específicas do cérebro. O procedimento já é conhecido e utilizado em pacientes com dor crônica, doença de Parkinson, tremores e distonia. Apesar disso, seu mecanismo de ação ainda é desconhecido. O marcapasso para DBS é colocado no cérebro de acordo com o tipo de sintoma a ser tratado, sob anestesia local (em geral): faz-se um orifício de 14 mm no crânio e o eletrodo é inserido no local escolhido, com auxílio do paciente durante o procedimento.Embora a DBS pareça oferecer novas perspectivas no tratamento de transtornos psiquiátricos graves e refratários, ainda são necessários mais estudos sobre sua eficácia, mecanismos de ação e efeitos a longo prazo.Para muitos leitores favoráveis a opiniões anti-psiquiátricas, notícias sobre uma possível volta de procedimentos cirúrgicos ao arsenal da psiquiatria assusta. Infelizmente, muitos ainda tem sua visão desta arma terapêutica embasada nas lobotomias realizadas nas décadas de 40 em diante (Ice pick lobotomy" ou lobotomia com picador de gelo). Tanto que esse é o texto que a wikipedia traz sobre o assunto:"As lobotomias gradualmente perderam sua utilidade com o desenvolvimento de drogas antipsicóticas e passaram a ser realizadas apenas raramente. A era da lobotomia é agora geralmente aceita como um episódio bárbaro da história da psiquiatria. (...) Hoje, a psicocirurgia pode ser um tratamento de último recurso para pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo e para transtornos alimentares no Chile, Estados Unidos, Suécia e México. A eficácia não é alta; um estudo sobre cingulotomia (que geralmente envolve lesões de 2-3 om no cíngulo, perto do corpo caloso evidenciou melhora em 5 de 18 pacientes. [4].A psicocirurgia é legalmente praticada e controlada nos Estados Unidos, Finlândia, Suécia, Reino Unido, Espanha, Índia, Bélgica, Holanda e no Brasil, no estado de São Paulo (como último recurso)." Acho que já escrevi antes, mas sou da opinão de que não se pode consertar um erro com outro. A psicocirurgia infelizmente foi utilizada como instrumento de tortura por muitos regimes militares e em muitos pacientes que não apresentavam necessidade de um procedimento tão drástico. Entretanto, banir completamente procedimentos cirúrgicos em psiquiatria impede que pacientes com quadros graves não responsivos às intervenções terapêuticas tentadas sejam adequadamente tratados. Os órgãos reguladores deveriam escrever um protocolo adequado para cirurgias experimentais na área psi. É claro que seriam muitos poucos os pacientes que realmente seriam indicados para avaliação e cirurgia, mas o procedimento pode fazer uma grande diferença na qualidade de vida dos mesmos.Referências:Kuhn, J; Gründler, T O J; Lenartz, D; Sturm, V; Klosterkötter, J; Huff, W (2010). Deep Brain Stimulation for Psychiatric Disorders Deutsches Ärzteblatt International, 107 (7), 105-113 : 10.3238/arztebl.2010.0105Kuhn J, Gaebel W, Klosterkoetter J, & Woopen C (2009). Deep brain stimulation as a new therapeutic approach in therapy-resistant mental disorders: ethical aspects of investigational treatment. European archives of psychiatry and clinical neuroscience, 259 Suppl 2 PMID: 19876671Foto: http://biomed.brown.edu/Courses/BI108/BI108_2008_Groups/group07/bb_July2004_large.jpg... Read more »

Kuhn, J; Gründler, T O J; Lenartz, D; Sturm, V; Klosterkötter, J; Huff, W. (2010) Deep Brain Stimulation for Psychiatric Disorders. Deutsches Ärzteblatt International, 107(7), 105-113. info:/10.3238/arztebl.2010.0105

  • March 10, 2010
  • 09:40 AM
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Narciso e Eco: as prisioneiras do espelho e do discurso

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Nos últimos posts escrevi algo sobre mitologia grega e me lembrei dos laços que amarram as áreas psi ao classicismo grego. A mitologia grega foi uma de minhas primeiras paixões adolescentes, quando comecei a "colecionar" mitos em meu diário, e influenciou grandemente a escolha de minha carreira. Além do mais, o últimos posts sobre psicopatia foram um bocado "pesados" e gráficos e sinto a necessidade de discorrer hoje de uma forma mais lírica.Uma boa história deve sempre começar do começo:Zeus, rei dos deuses Olimpos, era terrivelmente mulherengo e adúltero. Hera, sua esposa, deusa da casa, já estava cansada de saber de suas escapadelas e era muito ciumenta. Zeus não discriminava ninguém: deusas, mortais ou ninfas - espíritos femininos associados a um local particular, especialmente florestas. Para garantir suas escapadelas Zeus empregava a ajuda da bela ninfa Echo, famosa por adorar argumentos e ter sempre a última palavra, que costumava tocar instrumentos e contar longas histórias para sua mulher enquanto ele desaparecia pelas florestas. Quando Hera descobriu que estava a ser enganada, ela puniu a comunicativa ninfa roubando-lhe a voz, deixando-lhe apenas a humiliante capacidade de repetir palavras gritadas. Assim, tudo que Echo poderia fazer era repetir a voz de outrem e ter sempre a última palavra.Certo dia, ao andar pela floresta, Echo viu Narciso a caçar veados. Narciso era tão belo que sua mãe (uma ninfa) preocupou-se com seu bem estar quando ele nasceu (era comum os deuses se invejarem e punirem pessoas ou outros com habilidades fenomenais). Ela recorreu a um oráculo que lhe disse "Narciso viverá uma longa vida, desde que não se conheça". Pois Echo não pôde resistir à beleza de Narciso e pôs-se a seguí-lo, enquanto desejava ardentemente falar-lhe na voz mais suave e ganhá-lo em conversações. Ela esperou impaciente para que ele lhe falasse primeiro, para que pudesse respondê-lo.Um dia, separado de seus companheiros de caça, Narciso finalmente gritou, "Quem está aí?", ao que Echo respondeu "Aí". Narciso olhou ao redor e não encontrou ninguém, dizendo "Venha", ao que Echo respondeu "Venha". Como mais uma vez não apareceu ninguém, Narciso gritou novamente, "Porque me atiças?" e Echo respondeu com a mesma pergunta. "Vamos nos encontrar", disse o rapaz. O coração da ninfa dava saltos quando ela respondeu o mesmo, a correr para onde Narciso se encontrava, pronta para enroscar seus braços no pescoço dele. Mas Narciso, devido a sua beleza, era arrogante e bruto e ao ver Echo deu passos para trás exclamando, "Não me toque. Eu preferia morrer do que permitir que você me possua!". "Me possua", Echo respondeu, com seu coração a partir e em vão. Narciso a abandonou ali e ela foi esconder-se entre os arbustos nos limites da floresta.Deste dia em diante, Echo passou a viver em cavernas, ravinas ou precipícios. Seu corpo emagrecia de dor e desaparecia progressivamente, até que um dia toda sua carne encolheu-se até sumir. Seus ossos transformaram-se em rochas e tudo o que sobrou dela foi sua voz que ainda se encontra pronta a responder a qualquer um que grite por ela, mantendo seu hábito de ter sempre a última palavra.A crueldade de Narciso, não parou por aqui. Ele agiu da mesma forma arrogante para com as outras ninfas. Uma donzela, que havia esperado em vão por seu amor, rezou para que ele um dia sentisse o que era amar e não ser correspondido. Como escrevi antes, os deuses punitivos e invejosos ouviram a prece e tiveram grande prazer em concedê-la. Ártemis, deusa da caça, foi quem encontrou uma forma perfeita de puní-lo. Enquanto Narciso caçava, ele encontrou uma fonte clara e espelhada em Donacon, na Téspia e, quando se curvou para beber, ele viu sua imagem refletida. Por mais que tentasse tocar a belíssima pessoa refletida nas águas, ele nunca conseguia: cada vez que ele estendia os braços para ela, ou tentava beijá-la, a imagem fazia o mesmo, apenas para desaparecer quando a água era perturbada e voltar minutos depois, em um jogo de sedução e fuga.Narciso chorou quando viu que não conseguiria ter aquela pessoa refletida e quando suas lágrimas tocaram a água, a imagem desapareceu. Ele exclamou "Fique, deixe-me ao menos admirar-te, já que não posso tocá-lo". Admirar a imagem passou a consumí-lo e ele perdeu a cor e o vigor nesta paixão doentia. A história de Narciso tem pelo menos três finais. Em um deles, ele finalmente sucumbe à sua louca paixão pela imagem e joga-se ao lago. Fraco, não consegue nada e afoga-se. Em outro, Narciso finalmente entende que o objeto de sua paixão é sua imagem refletida e, louco por nunca poder possuí-la, mata-se com uma adaga ao peito. Uma terceira ainda, diz que ele apenas definhou progressivamente.Quando a alma de Narciso foi levada pelo rio Estige, que separava os vivos dos mortos, ele não resistiu e olhou por sobre a canoa de Caronte (barqueiro dos mortos) para que ver seu reflexo pela última vez. As ninfas prepararam um funeral para ele, mas não conseguiram encontram seu corpo. No lugar onde Narciso morreu havia uma flor púrpura, cercada de folhas brancas, que traz seu nome e preserva sua memória.A Metamorfose de Narciso, de Salvador DaliAs prisioneiras do espelhoA versão apresentada aqui é baseada no poema épico Metamorfoses de Ovídio, que parece ter sido o primeiro a fazer a conexão entre os mitos de Narciso e Echo. Nesta versão, o adolescente Narciso é irresponsivo ao desejo dos outros de aproveitarem de seu belo corpo. Ser desejado é não experimentar o desejo. Já Echo foi punida e silenciada por Hera por ter-se entrometido em sua vida conjugal. Echo é punida por permitir a sexualidade... Narciso por recursar-se a permití-la. Quando lemos termos como narcisismo, seja em Freud ou em textos científicos, vemos o conceito Ovidiano de enfatuação natural da juventude por si mesma. A versão do poeta é a que Narciso definha lentamente, assim como Echo. Ambos os mitos, desta forma, se encontram entrelaçados na anorexia, vista como uma elaboração narcísica patológica associada a rejeição deliberada da maturidade sexual. A associação de Echo com a anorexia é clara, já que o mito descreve claramente seu progressivo emagrecimento e desaparecimento, um desejo comum das anoréxicas: tornar-se vento, leve, borboleta, perder a forma e ter apenas voz. Já Narciso é mais complexo e ressalta as prisioneiras do reflexo, o obsessivo observar-se por horas à procura de defeitos irreais, na busca de atingir uma imagem da qual vale a pena enamorar-se.Mesmo que se deixe o poético discurso psicanalítico de lado, avaliações psicométricas mostram que traços de personalidade narcísica e crenças narcisísticas são muito mais prevalentes em pacientes com transtornos alimentares (Sines et al., 2008). Bulímicas parecem ter atitudes mais associadas aos traços narcisísticos catacterísticos enquanto que anoréxicas do subtipo restritivo (que fazem dietas constante e purgam menos) estão mais associadas à um narcisismo denominado "pobre de mim" por pesquisadores, no qual elas se veem frequentemente como mártires e vítimas de abuso (Brunton, Lacey, and Waller, 2005).As prisioneiras do discursoQuando se estuda o discurso de uma paciente com anorexia, este se encontra organizado sistematicamente em torno da obsessão pela própria aparência. Como Echo, a anoréxica vive permanentemente apaixonada por outro, que idealiza, buscando desesperadamente sua aprovação a ponto de perder sua identidade. Prisioneira deste amor, ela definha progressivamente transformando-se e num legado de voz (ideia).Para a anoréxica, há uma ruptura sintática e o discurso sobre seu quadro se torna solto, fragmentário, um eco de seu pensamento sobre si. Na consulta destas pacientes há longos períodos de estrutura circular na qual os elementos se repetem insistentemente, com rítmo e racionalizações explícitas.Pode-se extrapolar um pouco o mito e pensar que ouvir as justificativas para o corpo emaciado ("meu metabolismo é rápido", "eu como normalmente, apenas faço exercícios") são ecos de outras anoréxicas, estas na mídia, que insistem em negar a realidade quando questionadas diretamente. Ainda sobre o discurso repetitivo, vemos a necessidade destas garotas de estar em contato umas com as outras, de forma a reforçar seus comportamentos e discurso. A internet trouxe uma nova fronteira às pacientes que sofrem de transtornos alimentares, ao criar a possibilidade de se associarem, estimularem, dar apoio em um meio no qual todas se comunicam na mesma língua do discurso da magreza e da necessidade de se fazer voz e vento.Dentro do capítulo dos transtornos alimentares, muitas outras histórias e lendas podem ser contadas, de forma a ilustrar com metáforas e abordagens psicodinâmicas o desenvolver do quadro e... Read more »

Brunton, J., Lacey, J., & Waller, G. (2005) Narcissism and Eating Characteristics in Young Nonclinical Women. The Journal of Nervous and Mental Disease, 193(2), 140-143. DOI: 10.1097/01.nmd.0000152784.01448.fe  

Sines, J., Waller, G., Meyer, C., & Wigley, L. (2008) Core beliefs and narcissistic characteristics among eating-disordered and non-clinical women. Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice, 81(2), 121-129. DOI: 10.1348/147608307X267496  

  • March 6, 2010
  • 12:57 AM
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Não perderás seu tempo em fofocas e bate-papo

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

A Bíblia, em Provérbios (provavelmente escrito entre os séculos 10 e 5 A.C.) já alertava:"Aquele que vigia a sua boca e a sua língua preserva a sua alma das angústias" (Pr 21,23) e também "Na abundância de palavras não falha em haver transgressão, mas aquele que mantém seus lábios sob vigilância age discretamente" (Pr 10,19).Os gregos também se preocupavam com o conteúdo das conversas em geral. Nos textos de Hesiodo (que escreveu um épico grego escrito entre 7 ou 8 A.C.), encontra-se:"Faça como eu digo e fique longe de pessoas fofoqueiras. Pois Pheme (deusa do rumor) é má por natureza, ela é leve para se levantar, oh, muito leve; mas pesada para carregar e difícil de se colocar no chão novamente. Pheme nunca desaparece completamente quando muitos falam dela. De fato, ela é um tipo de deusa.Agora, um estudo recentemente publicado também toma para si preocupar-se com o conteúdo de nossas conversas diárias. É de conhecimento geral que conversas à toa (bate-papo) e fofocas parecem ser lubrificantes sociais mas parece que conversas mais profundas e intelectualizadas podem deixar as pessoas mais felizes.O estudo publicado na revista Psychological Science de fevereiro de 2010 (texto completo aqui, referência completa abaixo) analisa justamente o tipo de conversa e níveis de felicidade. Embora os autores reconheçam a função social do bate-papo, eles encontraram que discussões de conteúdo parecem conectar melhor as pessoas. Mathias Mehl e colaboradores colocaram escutas em 79 estudantes universitários (homens e mulheres) que periodicamente gravavam partes de suas conversações enquanto os mesmos seguiam suas atividades diárias rotineiras. A cada 12 minutos a escuta gravava por 30 segundos. Ao final de 4 dias os pesquisadores possuíam 23 mil gravações (média de 300 por participante).Os pesquisadores então classificaram as gravações em bate-papo ou discussões de conteúdo: "Bate papo foi definido como conversação banal, sem envolvimento (ou seja, apenas troca de informação trivial; ex. "O que é isso? Pipoca? Yummy!"). Uma discussão de conteúdo foi definida como envolvendo uma conversação de natureza substancial (ou seja, troca de informação relevante; ex. "Ela se apaixonou pelo seu pai?  E entao, eles se divorciaram depois disso?").Para avaliar o bem-estar dos participantes, os pesquisadores empregaram por duas vezes (em um intervalo de 3 semanas) a Satisfaction With Life Scale (Diener, Emmons, Larsen, & Griffin, 1985),  uma escala simples de medida da felicidade ("Eu me vejo como alguém feliz, satisfeito com a vida") e o inventório de personalidade Big Five Inventory (John & Srivastava, 1999)Os participantes com melhores níveis de bem-estar eram os que ficavam menos tempo sozinhos e por mais tempo a falar com outros (passaram 25% menos tempo sozinhos e 70% mais tempo falando). Os "mais felizes" também apresentaram quase duas vezes mais discussões de conteúdos do que os outros participantes. Os autores concluem que uma vida feliz é societal ao invés de solitária e de conteúdo, ao invés de superficial e citam Sócrates ("Uma vida não avaliada não é uma vida digna de ser vivida").O estudo, entretanto, não prova causa e efeito. Não se sabe se pessoas mais felizes se isolam menos e acham mais fácil se envolver em discussões de conteúdo ou se conversar assuntos mais profundos pode fazer com que as pessoas se sintam mais realizadas. Entretanto, segundo os autores, os resultados "trazem a interessante possibilidade de que níveis de felicidade possam ser aumentados ao se facilitar conversas de substância".Os resultados, na verdade, não são tão surpreendentes. Não é necessário discutir física quântica e a teoria dos "buracos de minhoca" (wormholes) para se atingir o nirvana da felicidade. Conversas de conteúdo podem ser desenvolvidas ao se demonstrar interesse genuíno por determinado assunto. Mesmo que este seja trivial, a conversa que se desenvolve pode abordar questões profundas. Em terapia sabe-se que a falta de socialização e de conversas de conteúdo, seja entre casais ou entre membros da família é grande causa de ruptura de laços. Vários casais, que atingem um platô no qual o casamento parece desandar, referem que a falta de "algo em comum" para se discutir é uma das causas de separação/divórcio. Após a falta desse "algo em comum", o segundo passo para a ruptura de laços é só se discutir assuntos triviais ("Como foi seu dia?" 'Bom' (longa pausa)... "O meu também foi bom").E para se iniciar conversas de conteúdo? Como fazer? Os autores não entram no mérito da questão. Mas o bom senso indica: desligue sua televisão, e esqueça o Big Brother Brasil. Leia jornais e revistas para ter uma pauta de assuntos atualizada (fica mais fácil iniciar conversas como "você viu o que aconteceu no Chile? O que pensas dos últimos terremotos/o que pensas dos serviços de ajuda humanitária?"). Socialize! E evite cair nas armadilhas do bate-papo simples, das fofocas, e de mexer a boca e a língua apenas para ter algo o que fazer.Referências:Mehl, M., Vazire, S., Holleran, S., & Clark, C. (2010). Eavesdropping on Happiness: Well-Being Is Related to Having Less Small Talk and More Substantive Conversations Psychological Science DOI: 10.1177/0956797610362675Pheme. http://www.theoi.com/Daimon/Pheme.htmlCartoons: Small Talk do webcomic xkcd (recomendo a visita regular para uma boa dose de humor) http://xkcd.com/222/http://channelate.com/comics/2008-02-23-mens-room.jpg... Read more »

  • February 27, 2010
  • 08:07 AM
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A Neuropsiquiatria da Epilepsia I

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

Hipócrates acreditava que a epilepsia era uma doença do cérebro1800s – experimentos para provocar crises epilépticasDicionário de Termos em EpilepsiaConvulsão – “uma descarga paroxística anormal de neurônios cerebrais, suficiente para causar eventos clínicos detectáveis que são aparentes ou ao paciente ou a um observador” (Schwartz e Marsh, 2000)Epilepsia – tendência a convulsões recorrentes e não provocadasAura – convulsões parciais simples, que podem ou não progredir a outro tipo de convulsãoConvulsão/ictus – uma descarga paroxística elétrica anormal de neurônios cerebraisFit (inglês) – a manifestação física de uma crisePródromo – um fenômeno pré-icatal que consiste de consciência objetiva ou subjetiva de mudanças clínicas que anunciam o início de uma convulsão, mas que não fazem parte da mesmaFase pós-ictal – período transitório de anormalidade do Sistema Nervoso Central (SNC), que se torna mais aprente após a fase ictalTipos de crises convulsivasCrise convulsiva generalizadaManifesta-se imediatamenteEspalha-se bilateralmente por todo o córtex cerebralPode apresentar-se com ou sem convulsõesCrise primariamente generalizada – não está associada a aurasCrise convulsiva parcial ou focalInício em uma área específica do cérebro e depois se espalhaPode tornar-se secundariamente generalizada ao se espalhar para ambos os hemisfériosGeralmente associada a patologia cerebralPode ser simples (sem alteração no nível de consciência) ou complexa (com alterações no nível de consciência)Classificação: Classificação Internacional de Síndromes Epilépticas e EpilepsiasCrise generalizada (bilateralmente simétrica e sem início local)A. Tônica (1), clônica (2), tônico-clônica (Grande Mal)B. Ausência (Petit Mal)I. Com perda da consciência apenasII. Complexa – com breves movimentos tônicos , clônicos ou automatismos (3)C. Síndrome de Lennox-Gastaut (4)D. Epilepsia Mioclônica Juvenil (5)E. Espasmos Infantis (Síndrome de West) (6)F. Crises atônicas (astáticas, acinéticas) (às vezes com movimentos mioclônicos involuntários) Crises parciais ou focais (crises de início local)A. Simples (sem perda da consciência ou alterações da função psíquica)I. Motores – origem no lobo frontal (tônica, clônica, tônico-clônica, jacksoniana, epilepsia benigna da infância, epilepsia partialis continua)II. Somato sensória ou sensório especial (visual, auditiva, olfatória, gustatória, vertiginiosa)III. AutonômicaIV. Puramente psíquicaB. Complexas (com alteração do nível de consciência)I. De início parcial simples com progressão à alteração do nível de consciênciaII. Com alteração do nível de consciência de início Síndromes epilépticas especiais A. Crises mioclônus e mioclônicas B. Reflex epilepsy (7) C. Afasia adquirida com perturbação convulsiva D. Crises febris e outras crises da infância e adolescência E. Crises histéricas(1) Movimentos tônicos causam a rigidez típica do início da crise convulsiva(2) Movimentos clônicos são espasmos involuntários(3) Movimentos complexos involuntários(4) A Síndrome de Lennox-Gastaut (SLG) é uma forma de epilepsia de início da infância (início aos 2 a 6 anos) caracterizada por crises convulsivas frequentes e de diversos tipos. Ocorre em 5% das crianças com epilepsia e é mais comum em meninos. É geralmente acompanhada de atraso mental e problemas comportamentais. Crises diárias frequentes são típicas na SLG, sendo as mais frequentes tônicas (90%, ocorrendo mais à noite) e mioclônicas (que ocorrem quando o paciente está cansado). Mais da metade dos pacientes sofre de status epilepticus (geralmente do tipo não convulsivo: sonolência, apatia, falta de respostas) e/ou dificuldades de equilíbrio, o que faz com que os pacientes tenham que usar capacetes para prevenir traumatismos cranianos. (5) A Epilepsia Mioclônica Juvenil (EMJ), também conhecida como síndrome de Janz, manifesta-se geralmente entre os 12 e 18 anos, com mioclônus que ocorre pela manhã. Muitos pacientes também apresentam crises tônico-clônicas e de ausência. O mioclônus raramente faz com que os pacientes caiam, mas sim derrubem objetos. Os ataques de mioclonia são mais comuns nos braços do que nas pernas.(6) A Síndrome de West (SW) ou Espasmos Infantis é uma forma rara de epilepsia da infância. É uma tríade clássica de espamos infantis, um padrão patognomônico ao EEG (hypsarritimia) e retardo mental. A Síndrome tem início geralmente entre o 3º e o 12º mês de vida, manifestando-se mais comumente ao 5º mês e é geralmente causada por disfunção cerebral. Cerca de um terço das crianças com SW apresenta evidências de perturbações orgânicas profundas do cérebro (microcefalia, atrofia cerebral, etc.). A SW ocorre é rara na população geral, mas ocorre em 1 a 5% dos bebês com Síndrome de Down (SD). Ao contrário das outras crianças, nas quais a síndrome tende a ser difícil de controlar, nos bebês com SD a síndrome é mas leve e responde melhor aos medicamentos. As crises típicas da SW podem ser classificadas em• Lightning attacks (ataques relâmpago): convulsões mioclônicas súbitas e severas de todo o corpo ou várias partes do corpo em poucos segundos, nos quais as pernas se dobram (as crises de músculos fletores são mais graves que as dos extensores)• Nodding attacks: convulsões dos músculos da garganta e pescoço, que fazem com que a criança mova a cabeça em direção ao peito• Salaam ou Jacknife attacks: espasmo fletor com rápida inclinação da cabeça e torso para frente, e simultânea elevação ou contração dos braços enquanto as mãos se juntam parcialmente em frente ao peito. Se o ataque fosse lento, pareceria o cumprimento oriental típico (Salaam), daí seu nome.Mais da metade das crianças com SW desenvolve SLG posteriormente.(7) Reflex Epilepsy, também conhecida como epilepsia ambiental é o nome dado ao conjunto de crises convulsivas causadas pela estimulação aguda do sensório de um paciente. A mais conhecida é a epilepsia fotossensívelReferências:Schwartz JM, & Marsh L (2000). The psychiatric perspectives of epilepsy. Psychosomatics, 41 (1), 31-8 PMID: 10665266... Read more »

Schwartz JM, & Marsh L. (2000) The psychiatric perspectives of epilepsy. Psychosomatics, 41(1), 31-8. PMID: 10665266  

Nabbout, R., & Dulac, O. (2008) Epileptic syndromes in infancy and childhood. Current Opinion in Neurology, 21(2), 161-166. DOI: 10.1097/WCO.0b013e3282f7007e  

  • February 25, 2010
  • 07:18 AM
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Modelo Sistêmico em Psiquiatria

by Vanessa Marsden in Psiquiatria e toxicodependencia

PsicossomáticaModelo estrutural de S. Minuchin (1975)A Terapia Familiar Estrutural foi desenvolvida pelo argentino Salvador Minuchin para lidar com problemas dentro de uma família. O terapeuta neste modelo tenta "entrar" no seio familiar durante a terapia para entender as regras invisíveis que governam seu funcionamento, mapear os relacionamentos entre os membros e finalmente, interromper relacionamentos disfuncionais favorecendo a estabilização do grupo em padrões mais saudáveis. Características notadas em famílias patológicas neste modelo incluem:• Vulnerabilidade fisiológica• Emaranhamento (alto grau de envolvilmento entre pais e filhos) – menor diferenciação do self?• Superproteção• Rigidez (às mudanças)• Evitamento de conflitos (através de mecanismos como)o Triangulaçãoo Coligação pai-filhoo DeslocamentoMinuchin acreditava que uma família é funcional ou disfuncional baseada em sua habilidade em adaptar a um ou vários estressores (Rigidez). Além disso, famílias tendem a ser subsistemas caracterizadas por uma hierarquia de poder, nos quais os pais tipicamente ocupam o "topo" da cadeia. Em famílias saudáveis, as fronteiras pais-filhos são claras, mas fluidas, o que permite a interação dos pais com filhos mantendo ainda graus de autoridade e permitindo a negociação dos objetivos parentais. As crianças não confundem os pais com outras crianças, estes permitem a interação dos pares (irmãos, amiguinhos) para socializar os filhos e não são rígidos ou desligados (ignorando as necessidades de suporte, educação e amor dos pequenos). Já as famílias disfuncionais exibem subsistemas misturados (emaranhados) e hierarquias de poder impróprias: o filho é o rei da casa (por exemplo), trazido à alta hierarquia parental devido a um pai/mãe física ou emocionalmente ausente. Este modelo postulado foi inicialmente para a anorexia, asma e diabetes juvenil. Abordagem familiar estrutural: “Família Fortaleza” – muralha contra eventos externos, mas por dentro os indivíduos têm poucas delimitações, papéis pouco estabelecidos. Na anorexia os papéis da família rígida no desenvolvimento do transtorno, e da figura da mãe (ou pai) "intrusiva" na vida da filha são bem conhecidos e explorados (Hartman, 1995).Terapia estruturalTerritórios Lutos Organização das refeições SaídaNão vou entrar muito no mérito da terapia propriamente dita. Vou apenas citar Grandesso:As micro-práticas transformativasTrata-se de um processo de terapia narrativa com ênfase nas micro-práticas transformativas no contexto da conversação que, através de um processo de questionamento, vem a desestabilizar as narrativas organizadoras dos problemas, dilatando seu horizonte e referência.O resultado de tal processo de questionamento conduz à organização de histórias qualitativamente ‘melhores’ para o sistema, em torno dos “estranhos atratores”, fazendo referência à teoria do caos. (...) Sluzki considera que as narrativas que surgem no contexto das terapias organizam-se em torno de temas, muitos deles podendo ser considerados universais a qualquer que seja a família: perdas e luto, gênero, ciclo vital, transgeracionalidade e famílias de origem, lealdades e ética relacional, etnia e cultura, estrutura e organização da família, dentre outros.ToxicodependênciaModelo estratégico-estrutural de M. Ducan Stanton e Todd (1982)Pseudo-individuaçãoPrimazia da família de origem face à família de procriaçãoTemática da morteUm texto Duncan Stanton sobre a toxicodependência está disponível na íntegra nas referênciaAlcoolismoFamílias sob influência (Elkin, 1984)Games people play: salvador, vítimia e perseguidor – “rescue triangle”A família alcoólica (steinglass et al, 1987) – prevalência da homeostasia a curto prazo sobre o crescimento a longo prazoReferências:Duncan Stanton, M. The Role of Family and Significant Others in the Engagement and Retention of Drug-Dependent Individuals. http://nida.nih.gov/pdf/monographs/Monograph165/157-180_Stanton.pdfGrandesso, M. A. Desenvolvimentos em Terapia Familiar: das teorias às práticas e das práticas às teorias. Disponível na íntegra em http://www.dialogosproductivos.net/upload/publications/04092009174325.pdfHartman, D. (1995). Anorexia nervosa--diagnosis, aetiology, and treatment. Postgraduate Medical Journal, 71 (842), 712-716 DOI: 10.1136/pgmj.71.842.712Kafka, P. (2008). Structural Family Therapy. An Effective Approach to Understanding and Healing Families http://clinical-psychology.suite101.com/article.cfm/structural_family_therapy#ixzz0gY0eE1qcMinuchin S (1998). Where is the family in narrative family therapy? Journal of marital and family therapy, 24 (4), 397-403 PMID: 9801999Foto: http://vig-fp.prenhall.com/bigcovers/0205543200.jpg... Read more »

Minuchin S. (1998) Where is the family in narrative family therapy?. Journal of marital and family therapy, 24(4), 397-403. PMID: 9801999  

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